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A cena que encontramos quando chegamos à beira da Lagoa Morgat foi de completa destruição. Do antigo galpão em construção restaram poucas paredes em pé, ferragens e máquinas se amontoavam retorcidas e ainda quente, derramando óleo no chão de terra vermelha, revirada. Minha equipe fazia a vistoria do local à procura de sobreviventes ou, pelo menos, alguma informação relevante que pudesse nos servir. À pouco mais de trinta horas, notícias assustadoras se espalhavam na internet sobre máquinas de guerra, em várias parte do mundo, que invadiam cidades e vilas, destruindo sem qualquer justificativa qualquer forma de vida que encontrassem pela frente. Eu mesmo cheguei a assistir alguns vídeos amadores postados na rede que mostravam os ciborgues em verdadeiras cenas de guerra, embora a qualidade ruim dos vídeos não deixassem distinguir com exatidão como são essas máquinas. Os ataques aconteciam em vários países ao mesmo tempo e os governos convocaram as forças armadas para combater essa ameaça.
Dois dias à procura dessas máquinas e nenhum confronto direto com soldados tinha sido registrado até esse momento em nosso país. De alguma forma ainda desconhecida eles apareciam e devastavam cidades pequenas, ainda desprotegidas, mas tudo indica que dessa vez um grupo de soldados havia chegado no exato momento em que os ciborgues migravam para a cidade de Monsenhor Acan, interceptando-os no caminho, aqui, na beira da lagoa. Embora não haja corpos ou qualquer vestígio da presença de militares no local, os sinais de que houve aqui uma batalha são visíveis, e nos informaram por rádio, há vinte minutos, que uma equipe do esquadrão Centauro não retorna contato há mais de quatro horas.
— Comandante! Comandante! Venha ver o que encontramos. — gritou um soldado das ruínas do galpão.
Terminei de enviar uma mensagem ao centro de comando e fui até o local onde soldados se aglomeravam para ler um texto rabiscado numa das paredes que ficaram em pé. Escrito com uma lasca de carvão no reboco da parede de um cômodo que parecia ser um banheiro, o texto era mais que um diário, era o registro de tudo que havia acontecido ali.

Não sei o que vai acontecer em poucos minutos, mas acredito que não sairemos vivos daqui. Estamos, eu e meu irmão, abrigados nesse galpão enquanto uma batalha inimaginável acontece lá fora. Estávamos na lagoa, nadando como de costume, eu, meu irmão mais novo que ainda é um criança e alguns amigos que lá ficaram. Leandro, outro amigo, chegou e me chamou para virmos até este galpão. Atravessamos a lagoa a nado, e quando chegamos nessa margem percebemos movimentações entre as árvores, nos dois lados da água. Subitamente as árvores começaram a tombar e foram surgindo muitas máquinas, robôs, ou seja lá o que são essas coisas. Umas menores, quase do meu tamanho, outras enormes, como carros ou vãs. Eu corri para cá e me escondi no cômodo ao lado e fiquei espiando por trás de uma parede. As máquinas chegaram primeiro ao lado oposto da lagoa e foram matando um por um dos meus amigos que estavam lá. Eles tentaram correr, fugir, mas em vão. Fiquei desesperado, achei que meu irmão estivesse lá, mas não, ele havia me seguido e quando percebi estava aqui perto. Corri para pegá-lo. Detrás do galpão veio um grupo de soldados, acho que uns vinte, e começou uma guerra dos diabos. Agarrei meu irmão e corremos para cá, entre tiros, granadas e explosões. Os robôs estavam próximos. Um soldado ajudou a gente e nos trouxe para este cômodo. Meu irmão chora sem parar, está com medo. Eu tento acalmá-lo, mas também não consigo disfarçar meu pavor. O soldado está aqui com a gente, vigiando, parece qu..
... uma máquina entrou e o matou. Consegui me livrar dela, mas estou ferido. usei a arma do soldado, é a primeira vez que uso uma arma. Atirei várias vezes, e só tive êxito porque era uma máquina pequena e acertei um tubo em seu dorso que parece ser vital para o seu funcionamento.
As paredes da frente do galpão desmoronaram. Os tiros estão diminuindo, parece que a maioria dos soldados morreram. Não vai demorar até que nos encontrem aqui. Meu irmão dormiu, ou desmaiou, não sei. A parede já está quase sem espaço para continuar escrevendo, embora ainda tenha bastante carvão aqui para rabis...
... eles estão entrando no galpão. Parecem conversar na nossa língua. Ouvi algo como "... eliminem os corpos". Agora dizem "... daremos um novo propósito a esse mundo".
Eles estão vindo...

O texto termina aí. Impossível não ficar emocionado lendo um relato como esse e imaginar pelo que passaram esses irmãos. Provavelmente foram mortos, mas deixaram um importante relato sobre o que havia acontecido ali.
— Comandante, estão te chamando no rádio. É de Monsenhor Acan. — disse o Cabo Fernandes me trazendo o aparelho.
— As notícias não são boas, comandante, — falava ofegante um informante pelo rádio — a cidade foi tomada, as máquinas apareceram e saíram arrebentando tudo. A maioria dos nossos homens estão mortos e os que sobreviveram estão escondidos. Nossas armas foram inúteis. Abatemos no máximo oito deles, mas perdemos uns duzentos homens para isso.
— Calma, soldado! Tenha calma. Estou com poucos homens aqui, mas vamos para aí ajudar. Qual a sua localização?
— ...
— Soldados?
— ...
— Soldado, qual a sua localização?
— ...
Não houve resposta. Juntei meus homens e expliquei-lhes a situação. Estavam todos apavorados. Não foram treinados para combater esse tipo de inimigo. Na verdade, sequer foram treinados para uma guerra. A situação do país sempre foi tão tranquila que os treinamentos de combate de muitos esquadrões resumiam-se a aparar a grama dos quartéis e provas de tiro ao alvo uma ou duas vezes por mês. Raramente havia algum treinamento especial que exigisse mais que isso e, quando havia, poucos eram selecionados para participar. Eu estava entre esses poucos. Encorajei-os. Nossas mulheres, nossos filhos, nossos amigos... todos dependiam de nós. Éramos a esperança para aqueles que ainda não tinham sido mortos.
Em meia hora já estávamos nos carros, chegando a Monsenhor Acan. No caminho, carros pareciam virados do avesso, retorcidos. Tivemos que descer e seguir a pé, pois a estrada estava completamente interditada por árvores tomadas, carros capotados — muitos em chamas —, motos caídas, bicicletas abandonadas e a maioria das casas completamente destruídas. Nenhuma pessoa nas ruas, absolutamente nenhuma. Nem viva, nem morta. Uma situação inimaginável. Uma realidade distópica. Percorremos os escombros, mas nada, nenhuma alma parecia ter escapado ao ataque e não conseguíamos imaginar como conseguiram fazer sumir tanta gente.
De repente, no horizonte, avistamos uma movimentação longínqua que despertou um brilho súbito nos olhos dos homens que estavam comigo. Forçamos nossas visões para tentar reconhecer o que era. Alguns chegaram a afirmar que eram as pessoas retornando para a cidade. Os homens se levantaram e chegaram a esboçar, por alguns segundos, uma ponta de alegria. Mas em vão. Não demorou para que percebêssemos que não eram humanos, eram máquinas, de todos os tipos. Alguns soldados começaram a correr na direção contrária, mas pararam. Estávamos cercados.
Se ainda existia ânimo e esperança entre meus homens, se fora naquele momento. Todos sentaram, choraram e rezaram por si e por suas famílias. Inclusive eu.





“Não precisamos mais de você”, foi o que disseram. Depois de uma vida inteira alegrando corações, percorrendo países por todo o mundo, contando piadas e divertindo crianças, fora simplesmente descartado do Circo Abrazador. Não como os leões, camelos e elefantes que foram proibidos por lei, mas simplesmente porque achavam que Palhaços não eram mais atrativos nos Circos modernos.
Saiu do trailler do mágico, arrasado. O circo era sua casa, sua paixão, sua vida. Não tinha para onde ir e nem sequer sabia fazer qualquer coisa na vida que não fossem palhaçadas. As lágrimas escorriam pelo seu rosto fazendo borrar a maquiagem que levara horas para preparar e que não mais usaria. Sabia que àquela hora da noite todos estavam se aprontando para o espetáculo das 10. O mágico, os malabaristas, os músicos, os anões, as dançarinas e até Maria Luiza — a equilibrista que ele sempre amou, mas nunca foi correspondido. Todos estariam lá, menos Charlie, o Palhaço.
Deixou-se jogar no chão, se escorando num monte de entulho. Aos prantos, fitava as luzes do circo que piscavam aleatoriamente em diversas cores. Era realmente maravilhoso. A tristeza que sentia foi dando espaço à amargura. A amargura foi, de repente, se tornando solidão. A solidão, por sua vez, foi transformando-se em medo. E o medo, cada vez mais intenso, de súbito se tornou ódio. Um ódio insano e incontrolável. Um ódio doentio por aqueles que o desprezaram. Todos eles. Passou a mão no rosto para enxugar as lágrimas, borrando ainda mais a maquiagem, e levantou-se.
Já estava quase na hora de começar o show. As arquibancadas estavam cheias, os pipoqueiros circulavam entre as colunas de espectadores, os músicos se posicionavam com seus instrumentos e o mágico se preparava para iniciar seu espetáculo. Seria um belo espetáculo. Charlie o assistiu quase que por completo, espreitando por debaixo das arquibancadas, entre os pés da plateia. O show chegara ao clímax e as pessoas gritavam e aplaudiam o número mais importante da noite, em que anões, bailarinas, malabaristas, equilibristas e o mágico se apresentavam juntos ao som de 1812, de Tchaikovsky.
Chegara a hora. O Palhaço fechou todas as saídas da grande tenda despercebidamente e, com uma das tochas roubada dos cuspidores de fogo, começou incendiar a lona, correndo às gargalhadas ao redor do circo e ateando fogo em toda a circunferência. A risada histérica e doentia de Charlie se misturava ao som da música e gritos de desespero. As labaredas cresciam e cresciam. A lona se incendiava por inteira, fazendo chover plástico em chamas sobre as cabeças enlouquecidas. Tentavam correr do fogo, mas o fogo corria até seus corpos. Iam todos queimando num espetáculo primoroso que iluminava a noite como as luzes de nenhum circo jamais poderiam iluminar.

Sentado no chão, Charlie assistia ao fim do espetáculo. Divertindo-se como nunca. Divertindo-se como criança diante de um palhaço. E a alegria do Palhaço, no fim das contas, foi ver o circo pegar fogo.


O último dia do mês de Fevereiro era sempre ansiosamente aguardado pelos poucos habitantes da pequena vila de San Martín. O vilarejo de poucas famílias, isolado no vale entre as montanhas do leste, nada tinha de especial. Com suas ruas tortuosas, calçadas de paralelepípedos e uma dezena de casas que circundavam uma velha igreja, a vila orgulhava-se do único e especial evento que organizavam anualmente. Felizardo aquele que visitava o Carnaval de San Martín!
Acontecia ao entardecer, quando a escuridão começava a adentrar pelos becos e as lamparinas iam se acendendo. Os foliões iam saindo de suas casas com seus tambores, flautas, banjos e trombones, e as serpentinas caiam dos postes ao som das músicas carnavalescas. Todos com suas fantasias extravagantes e obrigatórias, dos mais variados personagens. Havia Pierrôs, Colombinas, Arlequinas, Capitães, Corallinas, Coviellos, Bobos da corte e malabaristas que equilibravam objetos e cuspiam labaredas.  
Apesar de todos serem conhecidos, naquela noite ninguém sabia quem era quem. Era regra estar mascarado. Todos brincavam, cantavam e dançavam anonimamente e para garantir que a regra se cumprisse plenamente, um vigilante fantasiado de Gárgula ficava na entrada do vilarejo com uma estante cheia de máscaras para os viajantes que ali chegassem.
Era raro viajantes aparecerem por ali, mas naquela noite um rapaz se aproximou da vila seduzido pela música e as luzes do baile que podiam-se enxergar do alto das montanhas.
— Seja bem vindo ao Carnaval de San Martín, meu rapaz. Escolha sua máscara e seja quem você quiser.
O rapaz acenou com a cabeça e cogitou passar sem pegar a máscara, mas o vigilante o interceptou e voltou a repetir o chavão:
— Escolha sua máscara e seja quem você quiser.
O rapaz olhou desconfiado e voltou-se para a estante de máscaras.
— Eu posso pegar qualquer uma? Tenho que pagar?
— Escolha a que você quiser, são gratuitas e obrigatórias para se entrar na festa.
O rapaz coçou a cabeça e começou a observar as máscaras. Eram muitas e de todas as formas. Heróis, vilões, personagens carnavalescos, monstros, animais e até rostos de pessoas desconhecidas, mas entre todas, uma chamou sua atenção de modo especial. Jogada num canto da estante, havia uma máscara de vidro, completamente transparente.
— E esta, o que é? — perguntou o viajante intrigado com a máscara que não esconderia seu rosto.
— Essa é a máscara que te torna quem você realmente é. É a máscara que tira todas as máscaras.
— E qual é a graça de ser você mesmo no carnaval?
O vigilante aproximou-se, encostando sua fantasia levemente no ombro do viajante.
— Você sabe quem você realmente é? — disse com um sorriso cínico que podia-se perceber mesmo dentro da fantasia.
— Claro que sei! Como poderia não conhecer a mim mesmo?!
— Sorte a sua. Eu não teria coragem de usar essa máscara.
— Bobagem!
O viajante pegou a máscara e levou consigo, colocando-a já no meio da festa. Um a um, os foliões foram paralisando ao vê-lo. Os flautistas foram parando de tocar, os tambores se calando, os banjos tocaram o último acorde e as danças cessaram. Todos os olhares se voltaram para o viajante. Olhares que exalavam pavor, asco e uma sinistra inquietude. O carnaval, de repente, se tornou o mais sombrio dos ambientes. 

Era a primeira vez que viam alguém completamente sem máscaras.





Já estava quase pegando no sono quando os cães começaram a latir freneticamente. Por alguns segundos procurei não me preocupar. Apesar de morar sozinho e do quintal ser grande, escuro e tomado por uma vegetação alta, os quatro cachorros sempre cuidaram bem dos arredores da casa e espantavam qualquer ameaça. Naquela noite, no entanto, os latidos duraram pouco tempo e deram espaço para gemidos caninos e um súbito silêncio, quebrado apenas pela forte chuva e o uivar do vento entre as frestas do telhado.
Quis abrir a janela, o suficiente para tentar enxergar o que havia feito meus cães silenciarem, mas achei melhor não. As portas e janelas eram bem protegidas com grades de ferro e seria mais seguro deixá-las bem trancadas com seus vários cadeados. Não deve ter sido nada — pensei, e voltei a encostar a cabeça no travesseiro. Tentando mudar o rumo dos pensamentos sombrios que se formavam dentro de mim, fechei os olhos e procurei me concentrar no tic-tac do relógio de pulso. As luzes estavam apagadas e só a luz longínqua de um poste da rua adentrava pela vidraça da janela, fazendo desenhar as sombras trêmulas da grade na parede do quarto.  O edredom cobria meu corpo, mas não me aqueciam os pés, gélidos mais de medo do que de frio.
Tateei a superfície do criado-mudo à procura do celular, mas não o encontrei. Na escrivaninha — lembrei, e levantei para pegá-lo. Era 1h28 da madrugada, mas não foi para ver as horas que peguei o aparelho. Queria mesmo era tê-lo por perto, mas acabara de perceber que seria inútil: estava sem sinal! De qualquer forma levei-o para a cama junto comigo.
Vez ou outra imaginava ter ouvido algum barulho estranho no quintal, mas acabava por me convencer que era apenas o temporal que derrubara algum objeto na varanda. Alguns minutos se passaram e já estava para adormecer quando, num olhar de relance, percebi que havia alguma coisa a mais na sombra projetada na parede. Estremeci por inteiro com o susto repentino que fez meu coração palpitar aceleradamente. Nesse mesmo instante, a sombra se moveu e não ficou mais visível, e pude ouvir o som dos passos próximos à parede. Passos lentos, meio arrastados. Mas passos, com certeza!
Procurei me acalmar. Se ao menos eu tivesse uma arma — pensei. Os passos se dirigiam à porta da frente. Olhei o celular: ainda sem sinal. Levantei da cama e fui para a cozinha, esgueirando-me cegamente entre os móveis para que não fosse notado. Peguei uma faca na gaveta do armário e procurei o interruptor da lâmpada da varanda.
— Merda de energia! — sussurrei ao perceber que as lâmpadas não acendiam.
À princípio achei que a falta de energia se devia à tempestade que podia ter danificado a rede elétrica, mas logo lembrei da luz do poste que fazia clarear parte do quarto e comecei a suspeitar que o invasor é que havia cortado algum fio externo e provocado o apagão.
Ouvi novamente um barulho. Dessa vez na porta da frente. Espiei da sala e pude ver a silhueta desenhada na porta de vidro. Era um sujeito grande, aparentemente forte e usava possivelmente um Sobretudo que lhe protegia da chuva. Averiguava os cadeados com calma, como se não se preocupasse com quaisquer ameaças que pudesse interferir em seus planos.
Eu estava só, sem nenhum meio de comunicação e trancado dentro da minha própria casa. Meus cães, que sempre me garantiram a segurança, se calaram inexplicavelmente. Só me restavam as grades e cadeados. Uma situação desesperadora que fazia crescer em mim um medo paralisante.
Voltei a olhar para a porta, ele já não estava mais lá. Caminhava para a porta dos fundos, lentamente, arrastando passos e alguma coisa a mais que era impossível distinguir naquele momento. Recuperei os movimentos e fui até a área de serviço. Não era possível enxergá-lo dessa vez, mas pelo barulho eu presumi que estava fazendo a mesma avaliação dos cadeados que fizera na porta da frente. Ele vai tentar entrar — pensei. Meus ossos tremiam e mal conseguia empunhar a faca que pegara na cozinha. Faca esta que eu sabia que não me seria útil em nada, a não ser para trazer uma insignificante sensação de possibilidade de defesa.
Com a esperança de conseguir afugentá-lo, comecei a proferir insultos e ameaças. “Vai embora seu infame! Já chamei a polícia e logo estarão aqui.”, gritei duas ou três vezes, e depois tudo silenciou. Apurei os ouvidos durante algum tempo, mas nada de cadeados esfregando na grade, nem passos arrastados, só o tilintar da chuva no telhado e o uivar do vento. Meu coração começou a desacelerar e a boca seca de repente voltara a salivar. Os músculos foram relaxando e já pensava em comemorar a bem sucedida atitude de intimidação. Mas não, um estrondo assustador acertou repentinamente a grade da porta da frente. Ferro contra ferro! Corri para a sala. A sombra no vidro da porta mostrava o homem com uma marreta golpeando os cadeados freneticamente. Eram cadeados grandes, mas eu sabia que não iam aguentar por muito mais tempo. Os vidros da porta quebraram e lancei-me instintivamente no chão do corredor para não ser visto.
O vento frio entrou pela vidraça quebrada e fez estremecer mais ainda minha carne. Vou fugir pelos fundos — pensei. Mas logo lembrei que as chaves da casa estavam próximas da porta de entrada. Não havia como pegá-las e por sorte o invasor ainda não as havia visto.
A casa era pequena. Possuía apenas dois quartos, sala, cozinha, banheiro e uma área de serviço interna. A única forma de sair dali naquele momento era pela porta da frente, mas para isso eu teria que passar pelo homem e sua marreta. O pânico não me deixava raciocinar organizadamente e meus pensamentos se misturavam num turbilhão de ideias e medos cada vez mais aterrorizantes. Um cadeado já havia se rompido, restava o outro e a porta.
Respirei fundo e corri para o quarto de hóspedes. Tranquei a porta por fora e retirei a chave. Fiz a mesma coisa com o banheiro e meu quarto. Todos trancados por fora para dar a impressão de que eu estava me escondendo em algum deles. Fui então para a cozinha e me joguei no vão entre a parede e a geladeira. Ouvi o segundo cadeado cair e a porta ser arrombada. Ele estava entrando! Apoiei a faca firmemente com as duas mãos e percebi que estava sangrando. Havia me cortado, provavelmente quando caí no corredor. Ofegava e tratei de prender ligeiro a respiração, antes que ele pudesse me ouvir.
Seus passos lentos foram adentrando a sala, arrastando a marreta ao piso molhado pelos respingos de chuva que entravam junto a ele. Não podia vê-lo, mas podia senti-lo. O homem parou na entrada do corredor, como quem estivesse observando e decidindo a melhor forma de me encontrar e estourar minha cabeça com aquela marreta. Eu já não conseguia mais prender a respiração e voltei a ofegar, dessa vez mais silenciosamente.
Os passos foram se aproximando e meu corpo paralisou. Escondi-me no lugar errado — pensei. As mãos mal aguantavam o peso da faca, tamanho era o incontrole que tinha sobre meu corpo. A sombra larga e indefinida apareceu aos meus olhos, deslizando no piso da cozinha. De repente ele parou. Parecia observar atentamente, mas não prosseguiu. Dirigiu-se até a porta do banheiro e girou a maçaneta. Depois fez a mesma coisa com as maçanetas das portas dos quartos. Todas trancadas.
Eu ainda não poderia tentar fugir. Seria pego, com certeza. Arrisquei espiar por trás da geladeira. Ele olhava fixamente para a porta do quarto de hóspedes. Usava realmente um Sobretudo escuro que escorria a água da chuva trazida de fora. Um capuz cobria-lhe a cabeça e a mão esquerda segurava uma pesada marreta, dessas de quebrar concreto.
O invasor deu dois passos para trás e disferiu um forte chute na porta. Não foi o suficiente. Ele então acertou outros três pontapés e a porta não resistiu, escancarou-se completamente deixando visível o cômodo sem móveis, com apenas algumas caixas empilhadas num canto. Não havia necessidade dele entrar no quarto para saber que eu não estava lá e voltou-se para a porta do banheiro. Acertou uma marretada na maçaneta e logo em seguida um chute e a porta também se abriu. De onde estava pôde ver que eu não me encontrava lá e foi para a terceira porta, a do meu quarto. Estava cansado, podia-se notar pela respiração, mas não hesitou e marretou a porta até vê-la inteiramente aberta. Nesse quarto havia vários móveis e ele foi entrando cautelosamente para me procurar.
Era a minha oportunidade de escapar. O corredor estava vazio e eu, sabendo que o homem havia entrado no quarto, disparei em direção à porta da sala. Minhas pernas, trêmulas, não respondiam aos meus estímulos como em outras situações. Cambaleei e escorreguei em meu próprio sangue deixado no piso do corredor.
Desesperado e desnorteado, fui levantando e procurando a direção da saída, quando vi a marreta passar zunindo meu ouvido e estourar o reboco da parede ao meu lado. Fui patinando no piso molhado da sala e desviando, sabe Deus como, das marretadas disferidas pelo homem que tentava loucamente estourar meu crânio. Num daqueles reflexos animais que só conhecemos quando precisamos lutar com todas as forças pela sobrevivência, eu consegui passar pela porta e empurrar a grade sobre o homem, atrasando-o.

Corri sob a forte tempestade rumo ao portão. Sem olhar para trás. No caminho, encontrei os meus quatro cães, todos com suas cabeças quebradas e seus miolos sendo levados pela água da chuva.




Faltavam cinco minutos para as sete horas, quase a hora planejada. Subia pela escada estreita e escura que se contorcia entre os apartamentos fechados do velho edifício Marchan, frente à Praça da República. Até ali se sentira bem, mas a cada degrau avançado sua espinha tremia e arrepiava só de pensar no que estava prestes a fazer. Pronto, chegara ao sétimo andar, frente ao apartamento 707. Ele ofegava. Por um momento parou frente à porta de madeira já meio empenada e danificada por cupins, observou o tapete de boas vindas logo abaixo, o corredor estreito, escuro e silencioso. “Esse é o momento. Não terei outra oportunidade”, pensou.
Havia planejado tudo há meses, cada detalhe, e estava surpreso consigo ali naquele momento, pois em nenhum momento acreditou que iria concretizar o plano. Aliás, ainda não acreditava que seria capaz. Com o casaco limpou o suor que escorria pelo rosto e que poderia transparecer nervosismo, ajeitou a machadinha presa por um laço sob o casaco de lona e respirou fundo. Deu três batidas na porta e chamou pela anfitriã: “Dona Mariiiia!”. Esperou, silencioso, tentando ouvir qualquer reação do outro lado da porta, mas nada. Tornou a bater mais três vezes e chamar novamente. Alguns segundos se passaram até que a maçaneta da porta se mexesse.
A porta se abriu numa fresta minúscula, e do escuro dois olhos penetrantes e desconfiados fixaram nele. Temendo que a velha se assustasse por estarem os dois a sós, ele retirou o chapéu e tratou logo de se apresentar.
— Boa noite, dona Maria. Lembra-se de mim? Seu inquilino lá da Rua General Gurjão. Gostaria de falar com a senhora.
A velha continuou a olhar fixamente para o rapaz, analisando-o dos pés à cabeça com aqueles olhos atentos e desconfiados, como se soubesse o motivo da visita. E ele, incomodado com a vistoria, tentava parecer o mais natural possível.
— Não se lembra de mim, senhora? Estive aqui há alguns meses.
— Lembro-me bem. Mas o que faz aqui há essa hora? Está louco?
— Não, senhora. Só vim lhe trazer aquele relógio, lembra-se que eu tinha avisado que viria?
Por mais alguns segundos a velha buscou na memória a lembrança do encontro que tiveram e realmente se lembrou de que ele havia prometido trazer um objeto de valor para lhe pagar alguns meses de aluguel. Ele, já se arrependendo de estar ali, pensou em dar meia volta e ir embora. Estava pálido, trêmulo, e já não raciocinava com exatidão todos os detalhes do minucioso plano que estava para concretizar. Quando fez menção em se virar, ouviu a corrente da porta se desprender.
— Entre, rapaz. Vou pegar um pouco de café para você. Está parecendo febril.
“Realmente, não devo estar com a melhor das aparências”, pensou. Sentou-se numa poltrona de madeira, revestida em couro, na parede logo à direita. Enquanto esperava tornou a observar o cômodo com suas estantes de livros cobrindo toda a parede à frente dele, uma mesinha de centro feita de madeira com tampa de vidro sobre um tapete com desenhos geométricos em vermelho e preto. A luz entrava fracamente no cômodo, vinda de um abajur aceso numa sala ao lado. Tudo muito bem organizado e limpo era o que podia observar, mesmo com a pouca claridade. Os livros separados por seções, e as seções por autores em ordem alfabética. Na sala ao lado havia uma mesa de madeira com seis cadeiras, uma mesinha de canto onde estava o abajur e alguns quadros pendurados em duas paredes opostas. Não se podia ver claramente as pinturas dos quadros, mas era certamente paisagens de praias, campos e cavalos. Era uma sala de jantar. Na parede entre as paredes dos quadros havia uma porta aberta que dava acesso a uma pequena varanda.
Ele olhou no relógio e torceu para que ela não demorasse a trazer o café. Tinha que ser rápido o suficiente para que tudo estivesse concluído até às oito. Ainda era sete e quinze.
— Espero que não tenha adoçado demais. — disse a velha retornando à sala — Então, se trouxe o relógio me mostre para que eu possa avaliá-lo.
Ele pegou a xícara de café, deu um gole e a colocou na mesa de centro. Enquanto ela sentava no sofá ao seu lado, ele retirou um embrulho feito com partes de uma caixa de sapato e muitos barbantes e entregou a ela. A velha estranhou a forma como o relógio fora embrulhado, mas tratou de virar-se para a mesa de centro para apoiar o pacote e tentar desatar os tantos nós que foram feitos. “Agora é a hora”, pensou o rapaz ao ver a velha praticamente ajoelhada de costas para ele. Retirou silenciosamente a machadinha de dentro do casaco. Suas mãos tremiam. Apoiou-a bem e de súbito se levantou para dar o golpe fatal.
Um segundo foi o tempo necessário para destruir todo o plano de meses. Aquele segundo em que a velha se virou e olhou penetrantemente no fundo dos olhos do rapaz, com a expressão na face que só conhece quem já esteve frente a frente com a morte. A machadinha erguida, pronta a lançar-se fulminante no crânio da velha, cessou. Tremulou e baixou. Aquele instante foi único e suficiente para lembrar o rapaz da loucura que estava prestes a cometer, dos princípios adquiridos que estava prestes a ignorar, da angústia, dos lamentos, da auto piedade e do auto julgamento.
A machadinha caiu sobre o sofá. A velha, de pernas trêmulas, viu-se sem forças para qualquer tipo de reação, e ficou a contemplar o jovem andando lentamente. Primero pela sala, depois se dirigiu até a sala de jantar e por fim até a varanda. Ele olhou no relógio, eram sete e vinte e nove. Virou-se de frente para a velha, ainda escorada na mesinha de centro, e pediu perdão.
Era verdadeiro, não, era mais que verdadeiro. Ela podia sentir. Não foi um pedido de desculpas qualquer, foi um pedido que se faz no ápice das emoções, em momentos extremos de arrependimento.
A velha buscou forças nos músculos para se levantar e conversar com o rapaz, mas antes que qualquer força pudesse surgir ele deu dois passos para trás e lançou-se do sétimo andar do edifício. Alguns segundos de absoluto silêncio se passaram até se ouvir um grande barulho do corpo se chocando com a lataria de um carro qualquer estacionado na rua.
Aos poucos ela conseguiu se pôr de pé e foi até a varanda. A rua que estava deserta começava a encher-se de gente amontoando-se umas nas outras para ver o corpo do homem que despencara do céu. Muitos olhavam para cima, tentando adivinhar de qual andar teria ele caído. Um carro da polícia chegou alguns minutos depois e os policiais esforçavam-se para afastar os curiosos da cena do “crime”.
A velha saiu da varanda ainda trêmula por tudo que havia acontecido e agradecendo aos céus por ter poupado sua vida. Ao passar pela sala viu a machadinha sobre o sofá e o pacote ainda cheio de nós sobre a mesinha de centro. “Então o embrulho era só uma distração”, ela pensou. Mas não era. Quando conseguiu desatar os nós, um genuíno relógio de prata estava realmente lá. 

No fim das contas, sabendo de suas limitações morais, não foi apenas um plano arquitetado por meses pelo rapaz, mas dois.


Caio e Alberto sempre disputaram tudo, desde crianças. Pela atenção dos pais, por notas mais altas na escola, por brinquedos e até por garotas. Alberto era muito estudioso e na escola sempre se saía melhor que seu irmão, no entanto, Caio herdara a esperteza e o charme de seu pai, e levara vantagem com as garotas. Na infância e adolescência eram constantes as brigas entre os dois irmãos, todos os dias, e por qualquer motivo. Caio sentia-se enciumado por achar que seus pais privilegiavam Alberto, e de certa forma ele não estava errado, seu irmão sempre foi mais bajulado, principalmente pela mãe.
Quando completou dezessete anos, Alberto ganhou uma bolsa de estudo em Madrid e acabou se mudando para a Espanha. Caio, livre de seu irmão rival, terminou apenas o ensino médio e investiu, com a ajuda de seu pai, numa fábrica de móveis.
As coisas deram certo para ambos os irmãos. Dez anos depois, Alberto retorna ao Brasil com seu título de Doutor em Psicologia e encontra seu irmão, Caio, agora um empresário bem sucedido do ramo moveleiro, que o recepciona com a mesma frieza com o qual se despediu anos atrás.
Não havia mais a disputa por carinho dos pais, nem pelos brinquedos, mas um grande problema começou quando Caio soube que seu irmão estava saindo com Mariane, sua ex-namorada e eterno amor de sua vida. Não foi intencional, Alberto não sabia o que havia acontecido entre Mariane e seu irmão, e nem sabia que Caio ainda tentava reconquistá-la. Um mero acaso do destino, que parece ter sido minunciosamente planejado aos fraternos rivais e que desencadeou sentimentos avassaladores de ódio e ciúme em Caio.
Alberto era amaldiçoado por seu irmão, que tentara diversas vezes falar com Mariane, mas foi completamente ignorado. Caio estava acostumado a perder, mas não quando se tratava de mulheres, ele sempre fora o melhor, o mais galanteador, o conquistador, enquanto Alberto sempre fora um tímido desajeitado. E nesse caso, não era uma mulher qualquer, era Mariane, com quem ele planejou casar e ter filhos.
Os sentimentos de inveja, ciúme e ódio foram tomando conta do espírito de Caio, e ele tremia de raiva toda vez que via seu irmão com sua ex-namorada ou quando alguém tocava no assunto. Caio entregou a empresa nas mãos do gerente, já não tinha mais cabeça para o trabalho. Isolou-se em seu apartamento, sozinho, tentando entender o porquê do Alberto, e não ele ter sido escolhido por ela. Não obtivera resposta alguma e então resolver acabar com aquela angústia de uma vez por todas. Se eu não posso ficar com ela, ele também não ficará — pensou.
Durante algumas semanas Caio procurou contatos no mercado de armas ilegais, falou com policiais aposentados, traficantes e pessoas de diversas índoles até encontrar Pablo, um negociante do mercado negro que lhe ofereceu exatamente o que ele estava procurando: Um Fuzil 7,62mm, com silenciador e mira de precisão.  
O plano de Caio era simples. Alugaria um apartamento próximo ao de seu irmão, de modo que pudesse enxergar a janela do seu quarto. Esperaria ele aparecer na janela e o alvejaria com um tiro silencioso e fatal. E aquele irmão que sempre atrapalhou sua vida estaria, enfim, eliminado. E assim ele procedeu, pagou pela arma e a recebeu dias depois. Foi para o seu sítio, aos arredores da cidade, e passou mais cinco dias treinando tiro ao alvo, para que não corresse o risco de errar. Alugou um apartamento com uma localização perfeita para o seu propósito, onde sua janela estava a pouco mais de vinte metros da janela de seu irmão. Tudo o que planejou estava sendo minunciosamente executado.
Chegou o dia. Caio ajustara o Fuzil no tripé, mirado diretamente para a janela do quarto de Alberto. Ele sabia que seu irmão saía do trabalho às oito horas da noite e que sempre vinha direto para casa. A lua cheia facilitava sua visibilidade e faltavam apenas alguns minutos para que tudo fosse resolvido. Ele chegou. Caio pôde ver o carro de seu irmão dobrando a esquina e entrando na garagem do edifício. O suor escorria em sua testa, estava nervoso, mas não iria desistir. Alberto já estava em seu quarto, passou rapidamente pela janela, depois voltou e passou novamente sem camisa.
— Vamos irmãozinho querido. Facilite as coisas para mim. — sussurrou para si mesmo.
Era agora. Alberto parou de pé em frente à janela, na posição perfeita que Caio estava esperando. Puxou o gatilho. O fuzil emitiu um barulho mudo e o vidro da janela do quarto de Alberto se estilhaçou.
— Não! Não! O que você estava fazendo aí! — Caio gritou desesperado.
Assim que puxou o gatilho ele percebeu que Alberto não estava sozinho. Mariane estava lá naquele quarto e quando Caio já não podia fazer nada ela abraçou seu irmão no momento que seu dedo já estava a meio gatilho. Os dois foram atingidos. Seu irmão e sua amada.
Durante alguns segundos Caio permaneceu imóvel, olhando para a janela sem vidro e a mancha de sangue que se formou na parede do quarto de Alberto. O que eu fiz? — pensou.
Ao perceber uma movimentação de pessoas na rua devido aos cacos de vidro que caíram da janela, Caio guardou rapidamente o fuzil e fugiu do apartamento levando consigo as provas daquele crime. Foi para o sítio, enterrou a arma e tentou dormir, mas era impossível. Os sentimentos de culpa e arrependimento estavam perfurando sua consciência. Ele nunca imaginou que pudesse ser capaz de uma atrocidade daquelas, de matar seu próprio irmão a sangue frio.
Alguns sentimentos brotam em nossas vidas como sementes, e isso é inevitável já que nossa consciência é terra fértil para qualquer tipo de semente. Essa fertilidade nos permite cultivar o amor, a esperança, a solidariedade, o respeito, a compreensão e muitas outras plantas que nos oferecem excelentes frutos, mas também nos permite cultivar ervas daninhas, ortigas e outras que só nos trarão prejuízos.
Caio percebeu naquela noite que em toda sua vida só cultivara sentimentos ruins dentro de si. Que a inveja e o ciúme de seu irmão o tornaram um assassino e que nada que ele fizesse poderia reparar a perda do seu irmão, da mulher que amava e nem a vergonha que sentiria de seus pais.
Decidido, levantou-se de sua cama, foi até a mata atrás da casa de campo, desenterrou o fuzil e voltou para o apartamento onde cometera o crime. A rua estava tomada por policiais e repórteres, mas ninguém o viu entrar no edifício ao lado. Já no apartamento, Caio abriu a janela e subiu no parapeito da varanda abraçado ao fuzil. Alguns segundos depois toda a imprensa já estava mirando suas câmeras para ele e os policiais começaram a gritar no autofalante para que não se jogasse.
Caio não tinha mais dúvidas do que iria fazer. Lançou-se do sétimo andar do Edifício Plaza Center, sob o olhar das câmeras e das pessoas que estavam ali testemunhando aquele trágico desfecho.
Na mão esquerda do suicida, a polícia encontrou um pequeno bilhete, escrito em papel de cigarro:
Desculpem-me meus pais, o Alberto era realmente o melhor entre nós, pois soube cultivar em terra árida o que eu não cultivei em terra fértil.

Caio Vasconcelos

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Joseph Finder nasceu num pequeno vilarejo ao norte de Virgínea, onde as pessoas são simples, a comida é boa e todos contam vantagens da excelente hospitalidade daquele lugar. Nunca conheceu sua mãe, e seu pai morrera quando ele ainda era uma criança. Foi criado por sua avó paterna, Amélia Finder, que lhe ensinou tudo que precisava para poder desenvolver-se sozinho na juventude. Apesar dos mimos que sempre teve durante sua infância, Joseph nunca tinha jogado futebol, nem nadado, ou sequer praticado algum outro tipo de atividade que exigisse esforço físico demasiado, tudo isso porque ele havia nascido com uma rara doença cardíaca que poderia matá-lo a qualquer momento. Não foi fácil para ele viver uma infância onde não podia aproveitar os prazeres dessa maravilhosa fase. Em compensação, Joseph se tornou um excelente enxadrista, escritor e músico. Atividades que não lhe exigiam esforço físico algum. Seus livros passaram a ser vendidos em todo o país e em alguns anos ele passou a ser dono de uma pequena fortuna. Mudou-se então para Fender, uma grande metrópole, e abriu sua própria editora.  

Numa noite nublada do inverno de 1823, na pequena cidade de Santa Brígida, nasceu uma criança diferente de todas que eu já conheci em minha vida. Completamente normal, exceto pelo fato de possuir uma característica única, jamais vista por qualquer ser humano. O garoto tinha olhos cujas córneas eram vermelhas vibrantes, como chamas incendiando seu interior, e todos, inclusive a parteira, ficaram aterrorizados quando a criança abriu seus olhos pela primeira vez. Acreditavam que ele nascera com a maldade dentro de si, e até Anne, que era a mãe, não aceitou o filho alegando que ele estava possuído pelo próprio demônio. O pai da criança, Júlio Salazar, contrariando todos os habitantes da cidade, resolveu criar o estranho garoto em um pequeno sítio aos arredores de Santa Brígida.

É com extrema vergonha e remorso que lhes narro alguns acontecimentos da minha vida. Acontecimentos estes que eu poderia guardar apenas para mim, mas que acho importante compartilhar, mesmo que a estória a ser narrada desperte a repulsa de muitos pela minha pessoa.
Quando criança eu morava em um sítio aos arredores da cidade de Vila Rica, interior do estado do Mato Grosso, e sempre tive um temperamento calmo, gentil e amoroso. Meus pais, agricultores, me criaram livre e me ensinaram desde cedo a tratar bem pessoas, animais e plantas, e eu, nunca os decepcionava. Com sete anos ganhei meu primeiro animal de estimação, um coelho, que eu o chamei de Papel, devido ao fato dele ser totalmente branco. Depois disso já tive um jabuti, um pato, dois gatos, um papagaio e até um bezerro. Cuidei de todos eles com muita dedicação e carinho e eles me retribuíram com o entretenimento e a amizade, e me acompanharam por anos.
Já adulto, me casei e fui morar na cidade de Barra do Garças, também no Mato Grosso. Minha esposa, que compartilhava da mesma vontade e carinho pelos animais, viu em mim o quanto aquela mudança estava afetando minha vida. Morávamos em um apartamento no subúrbio da cidade, sem árvores, rio, espaço, liberdade e, principalmente, sem animais.  E isso me fazia muita falta, principalmente porque Flávia, minha esposa, passava o dia inteiro fora de casa, trabalhando, e eu, desempregado.
Certo dia, Flávia voltou do trabalho trazendo três filhotes: um gato, um coelho e um cão. Foi uma surpresa e tanto. Fiquei muito feliz, e agradeci pelo seu gesto tão carinhoso. Ela não fazia ideia do quanto aquilo significava para mim.


O dinheiro sempre foi, para mim, uma utopia. Nascido em família pobre, eu, Frederico das Chagas, vivi de migalhas durante toda minha vida, e por ter que trabalhar exaustivamente para garantir meu sustento e de meu adoecido pai, não consegui estudar o suficiente para conseguir um bom emprego. Minha família é constituída apenas por mim e meu pai, Francisco das Chagas que, ironicamente, contraiu a Doença de Chagas há dez anos e vêm lutando contra a morte desde então. Minha mãe faleceu quando eu ainda era muito novo, não me lembro dela, e eu, sem mãe e com o pai doente, tive que começar a trabalhar muito cedo.
Há alguns anos, diante de um início de infarto, meu pai achando que não passaria daquele dia me chamou em seu leito no hospital e me disse: “Filho, não passe toda sua vida trabalhando como operário. Enriqueça! Custe o que custar. O dinheiro lhe trará a vida que almeja”. Aquele dia foi marcante para mim. Eu decidi naquele momento que seria rico, só não sabia como. Sem estudo, qualquer trabalho que me dessem seria com baixíssimo salário, eu não tinha dinheiro para montar meu próprio negócio, então, certo dia, andando pelo comércio da Rua 13 de Maio, entrei em uma casa lotérica e fiz minha primeira aposta. Desse dia em diante me tornei um jogador e passei a economizar os centavos que ganhava para jogar toda semana na loteria.
Apostar é uma tarefa que requer muita determinação, autocontrole e paciência. Determinação para abdicar de muitas coisas para poupar dinheiro para as apostas; autocontrole para que não se endivide gastando o que não tem; e principalmente paciência, já que não se pode ter a certeza de quando — ou se — vai ganhar.
Eu passei exatos sete anos, nove meses e três dias apostando semanalmente, e pensei muitas vezes em desistir, todavia fui perseverante. E ontem, quando fui conferir o resultado da minha última aposta, meu coração quase explodiu de euforia, apesar das pessoas ao meu redor não terem percebido absolutamente nenhuma reação da minha parte. Estava lá: 7 – 11 – 13 – 23 – 47. Eu tinha acabado de me tornar um multimilionário! A sorte sorriu para mim e me recompensou pelos anos de sacrifício.
Não contei a ninguém, pois quando se trata de dinheiro a ambição corrompe o homem como a ferrugem oxida o ferro. Nenhum amigo, vizinho ou conhecido ficou sabendo da minha sorte, nem mesmo meu pai. Não que eu desconfiasse do meu genitor, mas queria poupar seu pobre coração que poderia não aguentar tal notícia. Apenas fui para casa, tomei um bom banho, escolhi a melhor roupa entre as poucas que possuo, coloquei meu bilhete premiado na carteira e fui para o banco.
Os olhares das pessoas na rua pareciam me perseguir, como se soubessem do meu triunfo. Apressei o passo, meu coração estava palpitante e me sentia amedrontado. Não foi nem vinte minutos de casa até o banco e ao entrar me senti mais seguro. As câmeras, os seguranças e os vidros blindados me fizeram relaxar um pouco.
O Gerente era um senhor de cabelos brancos, gordinho e de fisionomia serena. Um pouco parecido com meu pai.
— Bom dia, no que posso ajudá-lo? — indagou-me o simpático gerente.
Eu debrucei sobre sua mesa de modo a ficar mais próximo dele e disse baixinho:
— Bom dia, eu ganhei o prêmio da loteria e gostaria de resgatar esse dinheiro e depositar na minha conta.
— Venha comigo. — disse o gerente e me levou para uma sala particular. — Primeiramente eu quero lhe dar os parabéns, meu rapaz! Que sorte, hein? Está com o bilhete premiado aí para que eu possa conferir?
— Obrigado, estou sim.
Ele pegou o bilhete e conferiu número por número. Estava tudo certo. Eu era o ganhador. E após uma rápida consulta no sistema do banco, ele me disse que eu não só era um ganhador como eu era o único ganhador. Levei o prêmio sozinho!
— Certo. Preciso que você retorne amanhã com cópias dos seus documentos, Senhor Frederico. E traga também o bilhete premiado. Cuidado com ele, se possível não conte aos seus conhecidos que você ganhou, pois desperta muita cobiça, até mesmo daqueles que achamos que nunca nos faria mal algum.
— Sim senhor. Ninguém além de nós dois sabe que eu ganhei. Estarei aqui amanhã às nove, sem falta.
Guardei meu bilhete e voltei para casa. Já fazia planos de como iria aproveitar todo esse dinheiro: Compraria alguns imóveis, um para morar e outros para alugar; Compraria um carro e uma moto, talvez um barco; Viajaria para Fortaleza, Natal, Buenos Aires, Londres e outros lugares que sempre tive vontade de conhecer; Voltaria a estudar; Abriria uma empresa; Procuraria um especialista em investimentos; Pagaria os melhores tratamentos para a doença do meu pai. Enfim, com o prêmio de vinte e quatro milhões daria para fazer muitas coisas que antes seria impossível.
 Pouco dormi nessa noite, todo aquele sentimento de euforia, medo e alegria me deixaram elétrico. Meu pai chegou a estranhar meu comportamento, mas eu desconversei e disse que não era nada.
Às nove da manhã, em ponto, eu já estava no banco e o simpático gerente já me aguardava em sua mesa e me recebeu muito bem. Entreguei as cópias dos meus documentos a ele e preenchi alguns formulários. Depois de assinar tudo que era necessário, ele me chamou para ir à sua sala tomar um café, e eu, naquele momento tão feliz em minha vida, não rejeitei o convite. Quando cheguei à sala da gerência, estranhei a presença de dois seguranças e tentei voltar, mas mal me virei e fui golpeado por um deles.
 Acordei dentro do cofre do banco, amarrado e amordaçado. Levaram todos os meus pertences: Carteira, relógio, celular, documentos e, principalmente, o bilhete. Não sabia exatamente há quanto tempo eu estava ali, mas eram horas. Tinha sede e fome. Deviam estar esperando anoitecer para me matarem, assim ficaria mais fácil tirar meu corpo dali sem que alguém percebesse. Como eu pude ser tão ingênuo? Deveria ter contado ao meu pai, ou a alguns poucos amigos mais próximos.  Meu medo e desconfiança me colocaram naquele lugar.
Ouvi o barulho da porta se abrindo. O velho gerente entrou no cofre acompanhado dos dois homens.
— O coloquem no carro e não deixem que ninguém os veja. — deu a ordem.
Fui jogado no porta-malas de um Monza preto e levado para um sítio afastado da cidade. Pelo menos foi a conclusão que eu cheguei após sentir o carro trepidando por causa da estrada sem asfalto e pelo tempo de viagem.
Agora estou aqui, amarrado em uma árvore, com frio, fome, sede e esperando a inevitável morte. Meus imóveis, carros, barcos e as tão sonhadas viagens, serão apenas alguns sonhos de um pobre operário que achou, inocentemente, que poderia realizá-los. E meu pai, pobre homem, que tanto tive medo de perder, o que será dele sem mim? Maldito seja o dinheiro, que me fez acreditar em sua falsa promessa. A promessa da felicidade.

Eles voltaram. Aqui finda a história deste pobre ganhador.


Fernando comemorava um gol do Bragantino, seu time de futebol do coração, quando recebeu uma ligação do seu chefe.
— Você precisa ir até Santa Luzia. Há muito tempo chega rumores de graves casos de violência naquela vila, mas nenhum jornal até agora foi investigar e fazer a cobertura necessária.
— Mas, chefe! Falaram-me que a estrada de acesso para lá está horrível: muita lama, buracos e pontes quebradas. Tem certeza que é realmente rentável essa matéria?
— Saberemos quando a matéria estiver publicada. Agora, só quero que vá até lá e faça uma investigação minuciosa dos recentes assassinatos ocorridos. Suspeitam que alguém está tentando abafar o caso.
O jornalista sabia que era inútil tentar fazer com que Marcos, seu chefe, mudasse de ideia. Era teimoso como uma mula. Então aceitou fazer a tal matéria e imediatamente ligou para Camila, sua assistente.



Essa é a quarta vez que venho a esse maldito cemitério. Dessa vez, para enterrar meu último filho. Primeiro foi o mais velho, logo em seguida minha esposa e o caçula, e agora, para acabar com o pouco de força que ainda me restava, Felipe se foi. Tenho vivido a dor, incessantemente, todos os dias desses últimos três anos.
Dessa vez eu estava sozinho, ninguém viera me ajudar a sepultar meu filho, pois já não me viam mais como antes. Os moradores desta vila passaram a acreditar que eu era um sinal de má sorte, que carregava comigo o espírito da morte. De meus próprios pensamentos é tolice falar, já nem sei mais quem sou: um homem destruído pelas almas lhe tiradas, os amores roubados, o emprego destituído e a falta de vontade de viver. Inacreditavelmente, a causa das mortes ainda não foi descoberta, apenas minha família foi afetada por esse mal súbito.
Tudo começou no inverno de 1989, quando eu e minha família nos preparávamos para o natal. Helena, minha esposa, tinha saído e Henrique e Pedro estavam na escola. Em casa, estávamos eu e Alexandre, meu filho mais velho, limpando e organizando os livros da nossa pequena biblioteca quando, subitamente, ele começou a rasgar as páginas dos livros e resmungar palavras sem sentido. A princípio achei que fosse algum tipo de brincadeira, mas logo percebi que seus olhos tremiam freneticamente e sua pupila estava dilatada. De repente, ele começou a comer as páginas soltas e eu, já tomado de pânico, tentava desesperadamente impedi-lo. Tomei tudo que estava em suas mãos e o arrastei para o sofá. Ele tremia e sua boca espumava enquanto ainda falava palavras aleatórias como: Rua, Setembro e Cruz.
Corri para a sala de jantar, onde estava o telefone mais próximo, mas não consegui completar a ligação. Ouvi um estrondo na biblioteca e voltei correndo. Alexandre havia quebrado o vidro da janela e cortado sua própria garganta.
Fiquei em estado de choque. Meu menino, que sempre fora tão alegre e são, de repente comete suicídio durante um súbito ataque de loucura. Não havia explicação para aquele ato de total demência. Quando Helena chegou, a polícia já realizava a perícia e desde esse dia minha esposa nunca mais foi a mesma. Estava sempre calada, depressiva e nunca me olhava nos olhos. Em nenhum momento ela me culpou pelo que aconteceu, mas também não me absolveu da culpa.
Por um ano e cinco meses nossa família viveu silenciosamente, como em um luto prolongado. Helena cada vez mais triste e reclusa no quarto. Certo dia, quando voltava de uma caçada, encontrei-me com Felipe na estrada. Ele gritava e chorava: Papai! Papai! Mamãe está louca! Imediatamente, coloquei-o no carro e fomos para casa.
Quando cheguei, o corpo de Pedro estava estendido no chão do pátio com várias perfurações. O sangue escorria por entre as frestas do piso de madeira e uma faca se encontrava jogada ao seu lado. Tentei reanima-lo, mas era tarde demais, já estava morto. Entrei então na casa à procura de Helena, mas não a encontrei, liguei então para a polícia, que logo chegou.
Depois de alguma busca, minha esposa foi encontrada perto da casa, no lago, também sem vida. Afogada.
Abalado, passei semanas tentando entender o que levaria Helena a matar nosso filho e depois se matar. Depressão ou algum distúrbio psicológico, talvez. O fato era que só restávamos eu e Felipe. E eu tinha que ser forte para cuidar dele sozinho após tantos traumas.
Depois de algum tempo, Felipe me contou que sua mãe, durante sua crise de loucura, pronunciava três palavras repetidamente: Sete, Malta e Azul. Isso me deixou muito intrigado, pois Alexandre também teve o mesmo comportamento antes de morrer.
A polícia já tinha me interrogado diversas vezes, mas depois de alguns meses resolveram encerrar o caso. Aparentemente concluíram que a culpada pela morte de Pedro não teria como pagar pelo crime cometido, já que tinha se suicidado. No entanto, a população da vila ainda tinham suas dúvidas quanto ao culpado e quando eu saía de casa todos olhavam e comentavam sobre as mortes. Eu podia sentir os olhares que me crucificavam.
Certo dia me veio à mente as palavras ditas por Alexandre e Helena e comecei organizá-las de modo que fizessem algum sentido. O único resultado plausível foi:

Rua Sete de Setembro, cruz de malta azul.

Na vila eu sabia que não havia nenhuma rua com esse nome, então fui até Marília, a cidade mais próxima. Lá, encontrei a tal Rua Sete de Setembro e, depois de algum tempo caminhando e perguntando, me falaram de uma pequena loja de penhores no fim da rua que possuía em sua fachada um brasão com uma cruz de malta.
Chegando lá, uma Cruz de Malta azul realmente acompanhava os dizeres talhados em madeira:

Frederico Pantoja  Loja de Penhores

O que chamavam de loja, na verdade, não passava de uma sala estreita e escura, abarrotada de coisas velhas por todos os cantos. Prateleiras ocupavam praticamente todas as paredes e nos fundos havia um balcão.
— Bem vindo à minha humilde loja, senhor. No que posso ajudá-lo? Tenho relógios, livros e muitos outros artefatos. — disse repentinamente um homem que se encontrava atrás do balcão.
Aparentava ter cerca de sessenta anos, suas vestes estavam velhas e fumava um cachimbo bastante comprido.
— Não vim aqui à procura de artefatos, senhor. Na verdade, procuro respostas.
Ele então se levantou e olho para mim, analisando dos pés à cabeça. Intencionalmente, expulsou um tanto de fumaça em meu rosto e se sentou novamente.
— Não vendo respostas aqui, meu rapaz. E não conheço nenhuma loja que o faça.
A atitude rude daquele homem me irritou, mas não deixei transparecer meu incômodo. Eu precisava dele.
— Gostaria de saber se o senhor conhece uma mulher chamada Helena Vasconcelos? Ela já veio aqui alguma vez?
Quando pronunciei o nome da minha esposa o velho levantou seu olhar em minha direção e deixou escapar um leve e silencioso sorriso de canto de boca.
— Então quer dizer que finalmente a dívida foi cobrada? Eu já estava me cansando de esperar. — disse com um suave sarcasmo.
— Esperar? Então o senhor a conhece. O que minha esposa veio fazer aqui? E porque ela pronunciou este lugar antes de sua morte?
Eu tinha muitas perguntas a fazer e não conseguia organizar meu pensamento de forma que pudesse explicar melhor a ele o que eu queria saber, de fato.
— Quando se pede um favor ao Senhor da Morte, há que se pagar um dia. Com juros.
Não entendi o que ele dissera, mas continuei a ouvi-lo.
— Há alguns anos atrás, sua esposa veio até mim pedindo ajuda. Disse que seu esposo estava muito doente e que não poderia perdê-lo. Algumas pessoas ouvem os boatos e acreditam neles. E sua mulher acreditou que eu pudesse ajudá-la.
­— Eu realmente estive muito doente, à beira da morte, por causa de um acidente vascular cerebral. Passei semanas em estado de coma no hospital aqui de Marília. Os médicos já me consideravam um caso perdido.
— Sim. Helena, desesperada, veio até aqui dizendo que faria de tudo para que você fosse salvo. Ela ofereceu sua própria vida em troca da sua.
Sempre fui um ateu cético e ainda estava tentando entender toda aquela estória. E por mais que minha razão duvidasse daquilo tudo, meus sentimentos eram levados a crer.
— Eu sou um velho intermediador do destino. Faço tratos e acordos, mas não sou eu que cobro pelos favores prestados. Quando Helena ofereceu sua própria vida em troca de sua cura, ela sabia que um dia isso seria cobrado. O contrato era claro.
— Contrato? Do que está falando?
O velho se levantou novamente e subiu numa pequena escada para alcançar uma caixa no alto de uma prateleira.
— Aqui está. — disse abrindo a caixa e me mostrando um frasco de vidro com um dente dentro. — Esse dente selou o pacto de sua esposa. Uma vez feito, não há como voltar atrás.
Reparei que na caixa estava escrito o nome da minha esposa e tinha uma marca de sangue na tampa.
— Está querendo me dizer que o senhor ofereceu um pacto demoníaco para minha esposa para que ela trocasse sua vida pela minha enquanto eu estava doente? Isso não tem cabimento!
— Eu não ofereci. Ela veio até mim e fez o pedido. Como eu disse, sou apenas um velho intermediador.
— Mesmo que eu acreditasse em você, isso não explicaria o fato de dois filhos meus terem morrido também.
— Meu caro homem. Vejo que você resiste à verdade. Mas o que aconteceu não poderá ser mudado. O Senhor da Morte cobra caro por seus favores, como eu disse antes, com juros.
Não acreditei no que dissera o tal Frederico Pantoja. Agradeci a ele por ter cedido um pouco do seu tempo para mim e fui embora.
Dirigi cerca de duas horas. Uma chuva intensa caía e quando me aproximei da vila percebi que parte dela estava sem energia. Em frente minha casa, somente as luzes das sirenes refletiam por entre as árvores. Alguma coisa havia acontecido.
O último dos três filhos estava morto. A vizinha que tinha ficado responsável por ele enquanto eu viajava relatou que ele simplesmente enlouqueceu: subiu em uma árvore no quintal da casa e se agarrou nos fios de alta tensão.

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A vida me reservou esse triste caminho e infelizmente eu não pude salvá-los, pois descobri tarde demais o mundo sombrio que existe além do que eu acreditava. E agora, aqui, sentado no túmulo do meu garoto, cogito a possibilidade de Frederico ter me dito a verdade e amaldiçoo minha própria vida, que foi a causadora desse maldito comércio de almas.

© 2014 O Poeta e a Madrugada Traduzido Por: Girotto Brito - Designed By Girotto Brito.