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Decerto fui ingênuo e imaturo,
ao que me arrependo amargamente.
Hesitei em te deixar, fui negligente
ao aceitar que governasse tudo.
Tomaste de mim o meu mundo
e quando percebi já era tarde.
Agiste como uma fera covarde,
sem pena
sem remorso
sem alarde
lançou-me neste manicômio imundo.

Quando eu sair — e eu hei de sair —,
cobrarei de ti toda dissolução.
Essas paredes não me aprisionarão 
eternamente aqui.
Não queira estar por perto quando eu fugir,
pois vingarei todo o ranger de dentes,
pacientemente,
sem pena      
sem remorso
sem alarde
lançar-me-ei em tua carne,

Pois nesse hospício
o que me resta
é auspício.

Retrato de Jan Švankmajer.

Gotas de soro pingam lentamente,
continuamente a contar o tempo.
Tempo travado, pausado, lento
para o enfermo, para o paciente.

Jogado numa maca qualquer, tal pulha,
algemado como um louco, demente.
O braço inchado, latejante, dormente,
já tantas vezes penetrado por agulhas.

Num corredor vazio e sujo, abandonado
como um mendigo, escória, indigente.
Sem nome, sem história, sem parentes,
ele geme em seu leito, amordaçado.

Tudo ali é o que não é, é indiferente.
É noite, é sombra, é tempestade.
É e não é realidade
a dor que deveras sente.

Silêncio rompido pelo ranger de dentes
do homem, do bicho, do rejeitado
que, embora amarrado e amordaçado,
grita por dentro como qualquer gente.

Tudo em si é o que é:
É vida, é fuga, é vontade.
É e não é sanidade,
quiçá até um tanto de fé.

© 2014 O Poeta e a Madrugada Traduzido Por: Girotto Brito - Designed By Girotto Brito.