Minha terra não tem eira nem beira
Mas tem cachoeira e gente pra conversar
Pra sentar no pé da mangueira
Com pote de sal na soleira 
E faca pra descascar
Tem duas praças floridas
Um rio e praia bonita
Mesmo não sendo de mar

Minha terra não tem eira nem beira
Oh, saudade daquele lugar!
De gente humilde e guerreira
Que desce e sobe ladeira
Com roupa para lavar
Que enfrenta sol e poeira
Cansaço, chuva e lameira
Para o feijão cultivar

Minha terra não tem eira nem beira
Queira eu um dia voltar para lá
Pra comer daquele arroz com pequi
Que eu nunca encontrei por aqui
E nunca vou encontrar
Pra matar essa saudade
E acabar com essa vontade
Dos amigos reencontrar.


É com extrema vergonha e remorso que lhes narro alguns acontecimentos da minha vida. Acontecimentos estes que eu poderia guardar apenas para mim, mas que acho importante compartilhar, mesmo que a estória a ser narrada desperte a repulsa de muitos pela minha pessoa.
Quando criança eu morava em um sítio aos arredores da cidade de Vila Rica, interior do estado do Mato Grosso, e sempre tive um temperamento calmo, gentil e amoroso. Meus pais, agricultores, me criaram livre e me ensinaram desde cedo a tratar bem pessoas, animais e plantas, e eu, nunca os decepcionava. Com sete anos ganhei meu primeiro animal de estimação, um coelho, que eu o chamei de Papel, devido ao fato dele ser totalmente branco. Depois disso já tive um jabuti, um pato, dois gatos, um papagaio e até um bezerro. Cuidei de todos eles com muita dedicação e carinho e eles me retribuíram com o entretenimento e a amizade, e me acompanharam por anos.
Já adulto, me casei e fui morar na cidade de Barra do Garças, também no Mato Grosso. Minha esposa, que compartilhava da mesma vontade e carinho pelos animais, viu em mim o quanto aquela mudança estava afetando minha vida. Morávamos em um apartamento no subúrbio da cidade, sem árvores, rio, espaço, liberdade e, principalmente, sem animais.  E isso me fazia muita falta, principalmente porque Flávia, minha esposa, passava o dia inteiro fora de casa, trabalhando, e eu, desempregado.
Certo dia, Flávia voltou do trabalho trazendo três filhotes: um gato, um coelho e um cão. Foi uma surpresa e tanto. Fiquei muito feliz, e agradeci pelo seu gesto tão carinhoso. Ela não fazia ideia do quanto aquilo significava para mim.



Poesia é descrever a vida numa única palavra
Pode ser escrita ou pode ser cantada
É mulher bonita e perfumada
É sentir o cheiro de terra molhada

Poesia é boemia 
Daquelas de amanhecer o dia
É choro, riso, emoção
É festejar na folia

Poesia é amar e não ser amado
Conquistar sem ter lutado
É dizer e permanecer calado
É sorrir pelo que de fato lhe é dado

Poesia é a pintura do poeta
E o poeta 
Com o pincel na mão
É simples poesia.


O dinheiro sempre foi, para mim, uma utopia. Nascido em família pobre, eu, Frederico das Chagas, vivi de migalhas durante toda minha vida, e por ter que trabalhar exaustivamente para garantir meu sustento e de meu adoecido pai, não consegui estudar o suficiente para conseguir um bom emprego. Minha família é constituída apenas por mim e meu pai, Francisco das Chagas que, ironicamente, contraiu a Doença de Chagas há dez anos e vêm lutando contra a morte desde então. Minha mãe faleceu quando eu ainda era muito novo, não me lembro dela, e eu, sem mãe e com o pai doente, tive que começar a trabalhar muito cedo.
Há alguns anos, diante de um início de infarto, meu pai achando que não passaria daquele dia me chamou em seu leito no hospital e me disse: “Filho, não passe toda sua vida trabalhando como operário. Enriqueça! Custe o que custar. O dinheiro lhe trará a vida que almeja”. Aquele dia foi marcante para mim. Eu decidi naquele momento que seria rico, só não sabia como. Sem estudo, qualquer trabalho que me dessem seria com baixíssimo salário, eu não tinha dinheiro para montar meu próprio negócio, então, certo dia, andando pelo comércio da Rua 13 de Maio, entrei em uma casa lotérica e fiz minha primeira aposta. Desse dia em diante me tornei um jogador e passei a economizar os centavos que ganhava para jogar toda semana na loteria.
Apostar é uma tarefa que requer muita determinação, autocontrole e paciência. Determinação para abdicar de muitas coisas para poupar dinheiro para as apostas; autocontrole para que não se endivide gastando o que não tem; e principalmente paciência, já que não se pode ter a certeza de quando — ou se — vai ganhar.
Eu passei exatos sete anos, nove meses e três dias apostando semanalmente, e pensei muitas vezes em desistir, todavia fui perseverante. E ontem, quando fui conferir o resultado da minha última aposta, meu coração quase explodiu de euforia, apesar das pessoas ao meu redor não terem percebido absolutamente nenhuma reação da minha parte. Estava lá: 7 – 11 – 13 – 23 – 47. Eu tinha acabado de me tornar um multimilionário! A sorte sorriu para mim e me recompensou pelos anos de sacrifício.
Não contei a ninguém, pois quando se trata de dinheiro a ambição corrompe o homem como a ferrugem oxida o ferro. Nenhum amigo, vizinho ou conhecido ficou sabendo da minha sorte, nem mesmo meu pai. Não que eu desconfiasse do meu genitor, mas queria poupar seu pobre coração que poderia não aguentar tal notícia. Apenas fui para casa, tomei um bom banho, escolhi a melhor roupa entre as poucas que possuo, coloquei meu bilhete premiado na carteira e fui para o banco.
Os olhares das pessoas na rua pareciam me perseguir, como se soubessem do meu triunfo. Apressei o passo, meu coração estava palpitante e me sentia amedrontado. Não foi nem vinte minutos de casa até o banco e ao entrar me senti mais seguro. As câmeras, os seguranças e os vidros blindados me fizeram relaxar um pouco.
O Gerente era um senhor de cabelos brancos, gordinho e de fisionomia serena. Um pouco parecido com meu pai.
— Bom dia, no que posso ajudá-lo? — indagou-me o simpático gerente.
Eu debrucei sobre sua mesa de modo a ficar mais próximo dele e disse baixinho:
— Bom dia, eu ganhei o prêmio da loteria e gostaria de resgatar esse dinheiro e depositar na minha conta.
— Venha comigo. — disse o gerente e me levou para uma sala particular. — Primeiramente eu quero lhe dar os parabéns, meu rapaz! Que sorte, hein? Está com o bilhete premiado aí para que eu possa conferir?
— Obrigado, estou sim.
Ele pegou o bilhete e conferiu número por número. Estava tudo certo. Eu era o ganhador. E após uma rápida consulta no sistema do banco, ele me disse que eu não só era um ganhador como eu era o único ganhador. Levei o prêmio sozinho!
— Certo. Preciso que você retorne amanhã com cópias dos seus documentos, Senhor Frederico. E traga também o bilhete premiado. Cuidado com ele, se possível não conte aos seus conhecidos que você ganhou, pois desperta muita cobiça, até mesmo daqueles que achamos que nunca nos faria mal algum.
— Sim senhor. Ninguém além de nós dois sabe que eu ganhei. Estarei aqui amanhã às nove, sem falta.
Guardei meu bilhete e voltei para casa. Já fazia planos de como iria aproveitar todo esse dinheiro: Compraria alguns imóveis, um para morar e outros para alugar; Compraria um carro e uma moto, talvez um barco; Viajaria para Fortaleza, Natal, Buenos Aires, Londres e outros lugares que sempre tive vontade de conhecer; Voltaria a estudar; Abriria uma empresa; Procuraria um especialista em investimentos; Pagaria os melhores tratamentos para a doença do meu pai. Enfim, com o prêmio de vinte e quatro milhões daria para fazer muitas coisas que antes seria impossível.
 Pouco dormi nessa noite, todo aquele sentimento de euforia, medo e alegria me deixaram elétrico. Meu pai chegou a estranhar meu comportamento, mas eu desconversei e disse que não era nada.
Às nove da manhã, em ponto, eu já estava no banco e o simpático gerente já me aguardava em sua mesa e me recebeu muito bem. Entreguei as cópias dos meus documentos a ele e preenchi alguns formulários. Depois de assinar tudo que era necessário, ele me chamou para ir à sua sala tomar um café, e eu, naquele momento tão feliz em minha vida, não rejeitei o convite. Quando cheguei à sala da gerência, estranhei a presença de dois seguranças e tentei voltar, mas mal me virei e fui golpeado por um deles.
 Acordei dentro do cofre do banco, amarrado e amordaçado. Levaram todos os meus pertences: Carteira, relógio, celular, documentos e, principalmente, o bilhete. Não sabia exatamente há quanto tempo eu estava ali, mas eram horas. Tinha sede e fome. Deviam estar esperando anoitecer para me matarem, assim ficaria mais fácil tirar meu corpo dali sem que alguém percebesse. Como eu pude ser tão ingênuo? Deveria ter contado ao meu pai, ou a alguns poucos amigos mais próximos.  Meu medo e desconfiança me colocaram naquele lugar.
Ouvi o barulho da porta se abrindo. O velho gerente entrou no cofre acompanhado dos dois homens.
— O coloquem no carro e não deixem que ninguém os veja. — deu a ordem.
Fui jogado no porta-malas de um Monza preto e levado para um sítio afastado da cidade. Pelo menos foi a conclusão que eu cheguei após sentir o carro trepidando por causa da estrada sem asfalto e pelo tempo de viagem.
Agora estou aqui, amarrado em uma árvore, com frio, fome, sede e esperando a inevitável morte. Meus imóveis, carros, barcos e as tão sonhadas viagens, serão apenas alguns sonhos de um pobre operário que achou, inocentemente, que poderia realizá-los. E meu pai, pobre homem, que tanto tive medo de perder, o que será dele sem mim? Maldito seja o dinheiro, que me fez acreditar em sua falsa promessa. A promessa da felicidade.

Eles voltaram. Aqui finda a história deste pobre ganhador.


Aos que me desejaram o fracasso,
Retorno com a vitória
Cavalgando o garanhão da glória
Empunhando minha espada de aço

Cansado e ferido
Destemido guerreiro de muitas batalhas
Trago no peito as medalhas
Por ter outrora sofrido

Recebo agora a menção honrosa
Por ter voltado com vida
À minha terra querida
À minha esposa amorosa

Mas não se esqueçam dos que não voltaram
Homens fortes desta terra
Que os filhos perderam pra guera
Guerreiros que muito lutaram.


À mulher eu deixo a rosa,
Símbolo das paixões que elas desejam
Dos amores que almejam
E dos sonhos que planejam.


Fernando comemorava um gol do Bragantino, seu time de futebol do coração, quando recebeu uma ligação do seu chefe.
— Você precisa ir até Santa Luzia. Há muito tempo chega rumores de graves casos de violência naquela vila, mas nenhum jornal até agora foi investigar e fazer a cobertura necessária.
— Mas, chefe! Falaram-me que a estrada de acesso para lá está horrível: muita lama, buracos e pontes quebradas. Tem certeza que é realmente rentável essa matéria?
— Saberemos quando a matéria estiver publicada. Agora, só quero que vá até lá e faça uma investigação minuciosa dos recentes assassinatos ocorridos. Suspeitam que alguém está tentando abafar o caso.
O jornalista sabia que era inútil tentar fazer com que Marcos, seu chefe, mudasse de ideia. Era teimoso como uma mula. Então aceitou fazer a tal matéria e imediatamente ligou para Camila, sua assistente.


Sobre o teu encanto, canto
Mas não me espanto com teu gosto amargo
Visto-me com o santo manto
Que me esconde tanto dessa dor que alastro

E se de ti me afasto, passo
Que a faço crer que meu amor não tem
Joga então teu laço, eu peço
Mas não confesso, que sofro bem

E quando soluçar, devagar
Não quero estar longe, nem perto
De certo que quero estar a cantar
Para enfim acalmar esse amor tão inquieto.



Essa é a quarta vez que venho a esse maldito cemitério. Dessa vez, para enterrar meu último filho. Primeiro foi o mais velho, logo em seguida minha esposa e o caçula, e agora, para acabar com o pouco de força que ainda me restava, Felipe se foi. Tenho vivido a dor, incessantemente, todos os dias desses últimos três anos.
Dessa vez eu estava sozinho, ninguém viera me ajudar a sepultar meu filho, pois já não me viam mais como antes. Os moradores desta vila passaram a acreditar que eu era um sinal de má sorte, que carregava comigo o espírito da morte. De meus próprios pensamentos é tolice falar, já nem sei mais quem sou: um homem destruído pelas almas lhe tiradas, os amores roubados, o emprego destituído e a falta de vontade de viver. Inacreditavelmente, a causa das mortes ainda não foi descoberta, apenas minha família foi afetada por esse mal súbito.
Tudo começou no inverno de 1989, quando eu e minha família nos preparávamos para o natal. Helena, minha esposa, tinha saído e Henrique e Pedro estavam na escola. Em casa, estávamos eu e Alexandre, meu filho mais velho, limpando e organizando os livros da nossa pequena biblioteca quando, subitamente, ele começou a rasgar as páginas dos livros e resmungar palavras sem sentido. A princípio achei que fosse algum tipo de brincadeira, mas logo percebi que seus olhos tremiam freneticamente e sua pupila estava dilatada. De repente, ele começou a comer as páginas soltas e eu, já tomado de pânico, tentava desesperadamente impedi-lo. Tomei tudo que estava em suas mãos e o arrastei para o sofá. Ele tremia e sua boca espumava enquanto ainda falava palavras aleatórias como: Rua, Setembro e Cruz.
Corri para a sala de jantar, onde estava o telefone mais próximo, mas não consegui completar a ligação. Ouvi um estrondo na biblioteca e voltei correndo. Alexandre havia quebrado o vidro da janela e cortado sua própria garganta.
Fiquei em estado de choque. Meu menino, que sempre fora tão alegre e são, de repente comete suicídio durante um súbito ataque de loucura. Não havia explicação para aquele ato de total demência. Quando Helena chegou, a polícia já realizava a perícia e desde esse dia minha esposa nunca mais foi a mesma. Estava sempre calada, depressiva e nunca me olhava nos olhos. Em nenhum momento ela me culpou pelo que aconteceu, mas também não me absolveu da culpa.
Por um ano e cinco meses nossa família viveu silenciosamente, como em um luto prolongado. Helena cada vez mais triste e reclusa no quarto. Certo dia, quando voltava de uma caçada, encontrei-me com Felipe na estrada. Ele gritava e chorava: Papai! Papai! Mamãe está louca! Imediatamente, coloquei-o no carro e fomos para casa.
Quando cheguei, o corpo de Pedro estava estendido no chão do pátio com várias perfurações. O sangue escorria por entre as frestas do piso de madeira e uma faca se encontrava jogada ao seu lado. Tentei reanima-lo, mas era tarde demais, já estava morto. Entrei então na casa à procura de Helena, mas não a encontrei, liguei então para a polícia, que logo chegou.
Depois de alguma busca, minha esposa foi encontrada perto da casa, no lago, também sem vida. Afogada.
Abalado, passei semanas tentando entender o que levaria Helena a matar nosso filho e depois se matar. Depressão ou algum distúrbio psicológico, talvez. O fato era que só restávamos eu e Felipe. E eu tinha que ser forte para cuidar dele sozinho após tantos traumas.
Depois de algum tempo, Felipe me contou que sua mãe, durante sua crise de loucura, pronunciava três palavras repetidamente: Sete, Malta e Azul. Isso me deixou muito intrigado, pois Alexandre também teve o mesmo comportamento antes de morrer.
A polícia já tinha me interrogado diversas vezes, mas depois de alguns meses resolveram encerrar o caso. Aparentemente concluíram que a culpada pela morte de Pedro não teria como pagar pelo crime cometido, já que tinha se suicidado. No entanto, a população da vila ainda tinham suas dúvidas quanto ao culpado e quando eu saía de casa todos olhavam e comentavam sobre as mortes. Eu podia sentir os olhares que me crucificavam.
Certo dia me veio à mente as palavras ditas por Alexandre e Helena e comecei organizá-las de modo que fizessem algum sentido. O único resultado plausível foi:

Rua Sete de Setembro, cruz de malta azul.

Na vila eu sabia que não havia nenhuma rua com esse nome, então fui até Marília, a cidade mais próxima. Lá, encontrei a tal Rua Sete de Setembro e, depois de algum tempo caminhando e perguntando, me falaram de uma pequena loja de penhores no fim da rua que possuía em sua fachada um brasão com uma cruz de malta.
Chegando lá, uma Cruz de Malta azul realmente acompanhava os dizeres talhados em madeira:

Frederico Pantoja  Loja de Penhores

O que chamavam de loja, na verdade, não passava de uma sala estreita e escura, abarrotada de coisas velhas por todos os cantos. Prateleiras ocupavam praticamente todas as paredes e nos fundos havia um balcão.
— Bem vindo à minha humilde loja, senhor. No que posso ajudá-lo? Tenho relógios, livros e muitos outros artefatos. — disse repentinamente um homem que se encontrava atrás do balcão.
Aparentava ter cerca de sessenta anos, suas vestes estavam velhas e fumava um cachimbo bastante comprido.
— Não vim aqui à procura de artefatos, senhor. Na verdade, procuro respostas.
Ele então se levantou e olho para mim, analisando dos pés à cabeça. Intencionalmente, expulsou um tanto de fumaça em meu rosto e se sentou novamente.
— Não vendo respostas aqui, meu rapaz. E não conheço nenhuma loja que o faça.
A atitude rude daquele homem me irritou, mas não deixei transparecer meu incômodo. Eu precisava dele.
— Gostaria de saber se o senhor conhece uma mulher chamada Helena Vasconcelos? Ela já veio aqui alguma vez?
Quando pronunciei o nome da minha esposa o velho levantou seu olhar em minha direção e deixou escapar um leve e silencioso sorriso de canto de boca.
— Então quer dizer que finalmente a dívida foi cobrada? Eu já estava me cansando de esperar. — disse com um suave sarcasmo.
— Esperar? Então o senhor a conhece. O que minha esposa veio fazer aqui? E porque ela pronunciou este lugar antes de sua morte?
Eu tinha muitas perguntas a fazer e não conseguia organizar meu pensamento de forma que pudesse explicar melhor a ele o que eu queria saber, de fato.
— Quando se pede um favor ao Senhor da Morte, há que se pagar um dia. Com juros.
Não entendi o que ele dissera, mas continuei a ouvi-lo.
— Há alguns anos atrás, sua esposa veio até mim pedindo ajuda. Disse que seu esposo estava muito doente e que não poderia perdê-lo. Algumas pessoas ouvem os boatos e acreditam neles. E sua mulher acreditou que eu pudesse ajudá-la.
­— Eu realmente estive muito doente, à beira da morte, por causa de um acidente vascular cerebral. Passei semanas em estado de coma no hospital aqui de Marília. Os médicos já me consideravam um caso perdido.
— Sim. Helena, desesperada, veio até aqui dizendo que faria de tudo para que você fosse salvo. Ela ofereceu sua própria vida em troca da sua.
Sempre fui um ateu cético e ainda estava tentando entender toda aquela estória. E por mais que minha razão duvidasse daquilo tudo, meus sentimentos eram levados a crer.
— Eu sou um velho intermediador do destino. Faço tratos e acordos, mas não sou eu que cobro pelos favores prestados. Quando Helena ofereceu sua própria vida em troca de sua cura, ela sabia que um dia isso seria cobrado. O contrato era claro.
— Contrato? Do que está falando?
O velho se levantou novamente e subiu numa pequena escada para alcançar uma caixa no alto de uma prateleira.
— Aqui está. — disse abrindo a caixa e me mostrando um frasco de vidro com um dente dentro. — Esse dente selou o pacto de sua esposa. Uma vez feito, não há como voltar atrás.
Reparei que na caixa estava escrito o nome da minha esposa e tinha uma marca de sangue na tampa.
— Está querendo me dizer que o senhor ofereceu um pacto demoníaco para minha esposa para que ela trocasse sua vida pela minha enquanto eu estava doente? Isso não tem cabimento!
— Eu não ofereci. Ela veio até mim e fez o pedido. Como eu disse, sou apenas um velho intermediador.
— Mesmo que eu acreditasse em você, isso não explicaria o fato de dois filhos meus terem morrido também.
— Meu caro homem. Vejo que você resiste à verdade. Mas o que aconteceu não poderá ser mudado. O Senhor da Morte cobra caro por seus favores, como eu disse antes, com juros.
Não acreditei no que dissera o tal Frederico Pantoja. Agradeci a ele por ter cedido um pouco do seu tempo para mim e fui embora.
Dirigi cerca de duas horas. Uma chuva intensa caía e quando me aproximei da vila percebi que parte dela estava sem energia. Em frente minha casa, somente as luzes das sirenes refletiam por entre as árvores. Alguma coisa havia acontecido.
O último dos três filhos estava morto. A vizinha que tinha ficado responsável por ele enquanto eu viajava relatou que ele simplesmente enlouqueceu: subiu em uma árvore no quintal da casa e se agarrou nos fios de alta tensão.

♠♠♠

A vida me reservou esse triste caminho e infelizmente eu não pude salvá-los, pois descobri tarde demais o mundo sombrio que existe além do que eu acreditava. E agora, aqui, sentado no túmulo do meu garoto, cogito a possibilidade de Frederico ter me dito a verdade e amaldiçoo minha própria vida, que foi a causadora desse maldito comércio de almas.


Saí de casa às pressas. Não contei à minha mulher aonde ia e nem o que havia naquele bilhete. Já passava das onze horas da noite e fazia frio, as ruas estavam desertas e os becos escuros eram um convite a todos os tipos de violência e clandestinidade. Há muito tempo eu não via meu amigo Leandro, para falar a verdade, minha última lembrança dele é dos tempos de faculdade, quando saíamos para beber e nos divertir pelos bordéis da cidade. Depois disso ele se mudou para o interior e eu me casei. Agora, após doze anos, ele retorna.
O bilhete que chegou a minhas mãos por meios de um entregador de gás era bastante objetivo:

Jonas, preciso de você. Encontre-me à meia noite de hoje na Rua Augusta. Vá sozinho. Não conte a ninguém.
Leandro Albuquerque Novaes
Fiquei preocupado, o tom da mensagem era séria e indiretamente parecia indicar que ele estava com problemas. Sérios problemas. No entanto, fiquei feliz, pois achava que nunca mais o veria.




Brígida acordou com um gosto amargo na boca. Estava escuro e não conseguia identificar onde estava. Sua cabeça doía e não se recordava do que tinha acontecido. Levantou-se lentamente e procurou uma saída, em vão, não havia janelas e a única porta estava trancada. Entrou em desespero e começou a gritar pedidos de socorro, mas ninguém atendia seu chamado. Sentia fome e sede. Lembrou-se então de ter saído de casa para se encontrar com seu namorado em um bar da Vila Fátima, mas parece ter sido sequestrada no percurso. Pensava em sua família e no que lhe aconteceria, quando esbarrou em algum objeto no canto da parede. Era uma caixa, uma pequena caixa de papelão lacrada com fita adesiva. Brígida a abriu com esperança que aquilo pudesse ajudá-la de alguma forma, mas tudo que encontrou lá dentro foi um frasco contendo um líquido, uma lanterna e um bilhete.

Saudações, cara hóspede. Nessa caixa lhe ofereço o poder da escolha. Diante da atual situação em que se encontra, poderá beber do veneno que lhe concedi e terás a liberdade, ou pode recusar-se e esperar que alguém a encontre. Escolha bem.
Sr. Anfitrião

Teve então a certeza de que havia sido sequestrada. Brígida, aos prantos, pensou muito no que deveria fazer e por muitas horas não conseguiu tomar decisão alguma. Se ficasse ali morreria de fome e sede, e se tomasse daquele veneno também poderia morrer. Decidiu então beber aquele líquido, era a única chance. Ela poderia ser solta após ingerir o veneno e procuraria um hospital com o máximo de urgência. Tinha decidido.
— Eu vou beber, seu desgraçado! Está feliz? — gritou desesperada e tomou todo o líquido do frasco.

♠ ♠ ♠

A tarde estava chuvosa e Charles voltava para sua casa após ter ido comprar cerveja e carne para fazer um churrasco. Era um sábado chuvoso, ele tinha marcado de assistir o jogo do seu time com os amigos. Como morava no sítio, tinha pegado a PA-308 que era o acesso mais rápido à cidade e, quando fez a curva no quilômetro 171, assustou-se ao ver um corpo jogado no acostamento da rodovia. Parou o carro bruscamente e desceu para verificar o que havia acontecido. Era uma mulher e ainda estava viva, mas desacordada e não respondia aos seus sinais. Colocou-a no carro e a levou para o hospital na cidade.
— Sinto muito senhor, ela não resistiu. Fizemos o que pudemos para salvá-la, mas ela sofreu vários ataques cardíacos e veio a óbito. O que o senhor é dela?
— Não a conheço. Encontrei-a caída na estrada, próximo de Vila Fátima, e a socorri. Não tinha documento, nem qualquer identificação. O doutor sabe qual foi a causa da morte?
— Não. Ela não apresenta marcas de agressão, nem qualquer indício de violência. Pode ter sido morte natural decorrente de problemas cardíacos, mas não posso lhe dar certeza ainda. O corpo será encaminhado ao Instituto Médico Legal para ser periciado. Enquanto isso, aconselho que faça um boletim de ocorrência na polícia, registrando o caso. Afinal, você é a única testemunha da situação em que ela foi encontrada.
— Sim, farei isso agora.
Naquele dia Charles não teve mais ânimo para o churrasco. A imagem daquela mulher morta lhe tirou o sono durante dias. Quando a perícia foi concluída todos os jornalistas da cidade vieram à sua casa e no dia seguinte os jornais noticiavam o caso.

“VÍTIMA DE ENVENENAMENTO É IDENTIFICADA: BRÍGIDA VASCONCELOS DOS SANTOS”
“MORTE POR ENVENENAMENTO INTRIGA MORADORES DE VILA FÁTIMA”
“PROFESSOR É O PRINCIPAL SUSPEITO DO CASO BRÍGIDA VASCONCELOS”

Morte por envenenamento foi o laudo final, e ele era o único suspeito. Foi chamado à delegacia para depor, e em seguida levou a polícia ao local onde a encontrou a vítima. Foi liberado logo em seguida, pois não encontraram ligação nenhuma entre a vítima e Charles. Brígida foi identificada como namorada de um empresário do ramo têxtil da cidade vizinha, era trabalhadora, sem inimizades e não possuía familiares vivos. Um caso bastante complicado para a polícia local que passou a dividir a suspeita também com o namorado da vítima.
Depois de meses, o caso caiu no esquecimento. O namorado de Brígida tinha álibis que comprovavam que ele estava no bar no momento em que ela foi morta, excluindo assim as suspeitas sobre ele, e Charles não fora indiciado por falta de provas e voltou a trabalhar normalmente. No entanto, a vontade de descobrir o motivo da morte daquela mulher o consumia. Passava horas, todos os dias, pensando em como ela teria parado ali e quem a tinha envenenado.
Certo dia, passando pelo local onde ele havia encontrado Brígida, resolveu parar. Encostou seu carro no acostamento e sentou na mureta de proteção da rodovia. Era quase noite, e a lembrança de tê-la encontrado ali o incomodava muito. Ficou quase meia hora observando os carros passarem, a beleza das matas e pastos das propriedades rurais do local e, quando já se dirigia para o carro, um brilho no meio dos arbustos chamou sua atenção. Era um pequeno frasco de vidro e continha um papel em seu interior. Curioso, retirou o papel e se surpreendeu com o conteúdo do bilhete. Ela estava levando aquele frasco quando caiu na estrada e provavelmente o local onde estava presa fica não muito longe daqui, pois, envenenada, não poderia ter caminhado por muito tempo do cativeiro até a estrada — foi o que pensou.
Charles correu até o carro e pegou sua lanterna. Já tinha anoitecido e uma suave chuva acabara de se iniciar. Entrou na mata justamente onde tinha encontrado o frasco e procurou refazer os possíveis passos da mulher envenenada, caminhando pelos locais de mata menos densa. Andou por uns vinte minutos e já pensava em voltar, pois a chuva forte e a escuridão não o deixavam enxergar e estava receoso em se perder quando avistou uma luz fraca entre as árvores. Uma casa — pensou. Dirigia-se lentamente em direção à luz quando ouviu um estalo atrás de si.

♠ ♠ ♠

Charles acordou com um gosto amargo na boca. Era sangue. Estava escuro e não conseguia identificar onde estava. Sua cabeça doía e não se recordava do que havia acontecido. Levantou-se lentamente e procurou uma saída, em vão, não havia janelas e a única porta estava trancada. Gritou incessantemente por socorro, mas ninguém parecia lhe ouvir, seu celular não estava mais em seu bolso e seus documentos haviam sido roubados.
Charles tropeçou. Era uma caixa, uma pequena caixa de papelão. Ao abrir ele encontrou o mesmo frasco, sua lanterna e um bilhete com os dizeres:

Saudações, meu novo hóspede. Nessa caixa lhe ofereço o poder da escolha...

Charles já conhecia o conteúdo do bilhete, e fez sua escolha.
O Pescador, óleo sobre tela por Henry Scott Tuke (1858-1929)

Embora exausto, após 14 horas de árduo trabalho, ele não conseguia sequer pensar em ir para casa dormir. Xavier estava intrigado com os acontecimentos recentes de sua pequena cidade, e a população exigia dele respostas pelas mortes em circunstâncias nunca antes presenciadas por aquelas bandas. Seu posto de Delegado sempre fora muito tranquilo e, quase sempre, se resumia em resolver brigas de bares ou desentendimentos familiares, mas dessa vez as coisas mudaram: em menos de dez dias, três corpos encontrados, todos à margem do Rio Caeté, amarrados com linha de pesca em árvores do mangue e com vários anzóis perfurando partes dos corpos.
O primeiro corpo encontrado foi o da adolescente Eva Kátia, dezesseis anos, filha de uma professora. Foi um choque para a pacata cidade e o prefeito logo decretou luto oficial devido à brutalidade do assassinato. A primeira suspeita foi a de um possível estuprador; no entanto os peritos da capital descartaram qualquer chance da garota ter sido molestada. A morte ocorreu por enforcamento, devido à pressão exercida no pescoço da vítima pelas linhas de pesca. O motivo? Ainda não fora esclarecido. A garota era exemplar em casa, na escola, e não possuía inimizades. Saíra para ir à casa de uma amiga e desaparecera no percurso.
As duas vítimas seguintes foram Pedro da Luz, dezenove anos, filho de pescador, e Jussara Martins, vinte e três anos, secretária da escola onde Eva Kátia estudava. Ambas em circunstâncias muito semelhantes − saíram à noite para visitar alguém e não voltaram.
Xavier estava naquele momento acompanhando o trabalho dos peritos às margens do rio, onde encontraram a terceira vítima. Até o momento não havia nenhum suspeito, apenas dúvidas e muita pressão para que resolvessem logo esse caso. Afinal, quantos mais iriam morrer?
Terminado o trabalho, retornou para sua casa. Já era noite e chovia muito. Tomou um banho, jantou e se preparava para dormir, quando seu cachorro começou a latir freneticamente. Xavier sabia que não era normal seu cão fazer tal estardalhaço e resolveu verificar o motivo daquilo. Quando saiu, o animal já havia parado de latir, mas estava farejando um embrulho jogado em sua garagem. A pequena caixa de papelão, amarrada com linhas de pesca, provocou calafrios no delegado, pois ele sabia – ou imaginava − quem havia deixado aquele pacote ali.
Na caixa havia apenas anzóis molhados em sangue e um papel sujo, com os dizeres:

Quando o silêncio faz ouvir o pensamento
e o vento frio corta a carne embranquecida,
da penumbra ela surge impiedosa,
Do inferno, em cinzas, renascida.
Tenha uma boa noite, Dr. Xavier.

A mensagem era clara, mas ao mesmo tempo enigmática. Clara, pois não deixava dúvidas de quem a havia escrito, mas enigmática, por não dar pistas de futuras vítimas. O fato de ter sido enviado diretamente a ele o fazia crer que também poderia ser uma futura vítima, ou o assassino estava apenas querendo testar a perspicácia da polícia. No dia seguinte, Xavier entregou tudo aos peritos e pediu para que averiguassem o material.
A população estava em pânico por causa do Pescador – como chamavam o assassino pela cidade – e já havia cinco dias desde que encontraram a última vítima. Os moradores evitavam sair à noite.
Naquele mesmo dia, Xavier recebeu uma ligação da capital informando que conseguiram digitais no bilhete; no entanto, não haviam encontrado digitais iguais no cadastro da polícia. Outros detalhes encontrados pelos peritos foram leves sombras quase que imperceptíveis de palavras em inglês, provavelmente por aquele papel ter sido arrancado de alguma contracapa de livro escrito neste idioma. Dessas palavras, a perícia conseguiu identificar apenas três: death, fear e end. O que chamou a atenção do delegado, não só por seus significados, mas por alguém ler livros em inglês naquela pequena cidade. Xavier não conhecia ninguém que dominasse esse idioma por ali.
O resultado da análise pericial deixou o delegado bastante pensativo e, após várias investigações, ficou sabendo de um casal americano que morava em um sítio à margem do rio, descendo cerca de sete quilômetros. Esse casal se mudara para lá há mais de duas décadas e vinham sempre na cidade, mas se isolaram depois que seus dois filhos morreram. Desde então, só alguns pescadores relatam ter os visto. Xavier não pensou duas vezes, pegou um barco emprestado e desceu o rio em busca do casal.
Já no fim da tarde, avistou a cabana mencionada pelos moradores. Estava bem velha, com sinais de abandono, mas ele sabia que havia alguém morando ali. Havia uma canoa ancorada no barranco, roupas estendidas no varal e alguns porcos nas proximidades da cabana. Quando se aproximou, avistou uma senhora sentada numa varanda consertando uma velha rede de pesca. Numa caixa, ao seu lado, muitas linhas e anzóis de diversos tamanhos.
– Há muito tempo não recebo visitas. Veio rir da minha desgraça também?
Disse com o forte sotaque americano.
– Não, senhora. Chamo-me Xavier, sou delegado e vim conversar com seu esposo. Ele se encontra?
– Se veio falar com o Charlie então devia ter vindo há cinco anos. Meu marido está morto, delegado.
– Sinto muito, não soube do falecimento. Então vive somente a senhora aqui?
Xavier reparou numa pequena estante de livros empoeirados no interior da cabana. Alguns, inclusive, com títulos em inglês.
– Não. Tenho a companhia dos meus meninos – fez um movimento acenando para os porcos – e da minha arte.  Sou uma mulher velha, delegado, vivo da pesca e da criação de porcos. Não creio que posso ajudá-lo.
– Como a senhora se chama?
– Dorothy McButch.
– Muito bem Dona Dorothy, se me permite só mais uma pergunta: Têm notado algo estranho nessas últimas semanas por aqui? Pessoas estranhas, talvez?
– Delegado, desde que perdi meus filhos nada mais é normal para mim. Os dias são longos e cheios de dor. Vivo nessa terra estranha, todos são estranhos.
Xavier pensou em pedir autorização para entrar na casa, mas achou ser desnecessário, afinal, o que poderia uma velha solitária esconder? Ela não tinha condições físicas suficientes para que a enquadrassem como suspeita. Após despedir-se, o delegado voltou à cidade. Já era noite.
Na madrugada seguinte, Xavier recebeu outra ligação.
– Dr. Xavier?
– Sim, quem fala?
– É o soldado Leonardo, senhor. Desculpe ligar a essa hora, mas temos um problemão aqui!
– O Pescador?
– Sim, senhor, acabaram de encontrar a filha da Dona Nazaré lá na ponte, como os outros. Já desloquei alguns homens nossos para lá. Acho bom o senhor ir também.
– Já estou indo. Obrigado por me informar.
Dessa vez o assassino foi bem mais ousado. Quando o delegado Xavier chegou ao local onde se encontrava a vítima – em uma das pilastras de sustentação da ponte que atravessava o rio –, já estavam lá alguns policiais e um pequeno barco com três homens que pescavam por ali e acabaram encontrando a garota. Na pilastra, escrito com o sangue da própria vítima, eles liam:

A este povo deixo minha obra prima. Gerações passarão e se lembrarão do dia em que anzóis romperam a carne de seus herdeiros.

Após aquele episódio, o governador do estado enviou dezenas de policiais e investigadores para tentar descobrir a identidade do Pescador, mas em vão. Os assassinatos pararam, e com o tempo a rotina daquela cidade voltou ao normal. Xavier continuou como delegado daquela cidade por mais dezoito anos, quando se aposentou. Depois disso, comprou um sítio à beira do rio, onde passou a viver com sua esposa. O delegado que assumiu seu cargo era bem mais jovem e exercia exatamente o mesmo papel de Xavier, o de resolver as brigas nos bares e entre familiares.
Seis verões depois, numa noite bastante chuvosa, Xavier tinha acabado de chegar à sua casa, tomou seu banho, jantou com sua esposa e se preparava para dormir quando ouviu os latidos de seus cães. Não pode ser, pensou. Quando saiu para verificar o que os incomodava tropeçou em um pacote. Novamente o embrulho. As linhas. Os anzóis. O recado.


Esta cidade clama por minha arte,
tenha uma boa noite, Dr. Xavier.

Ele estava de volta.

O Pescador.



...

Depois de conversarmos sobre nossas vidas e curtirmos um ao outro entre beijos e abraços levei Jéssica à sua festa e me despedi já que meu pai e minha irmã já me aguardavam no carro. “Vou à sua casa amanhã te ver” ela disse ao entrar em sua casa. Eu entrei no carro e fomos embora. Meu pensamento naquele momento estava confuso, não sabia realmente o que sentia, sabia apenas que era algo bom e que mexia comigo de alguma forma. Ela era linda, estava presente, carinhosa e identificava-se comigo de forma peculiar.

Meu pai dobrava a esquina de casa quando recebi uma mensagem em meu celular. Era Fernanda:

“Boa noite amor, estou de folga e irei passar quatro dias contigo. Estou muito feliz. Chego aí amanhã à tardezinha. Te amo.”

Fiquei atônito! Fernanda e Jéssica estariam em casa no mesmo dia e provavelmente no mesmo horário. Nunca tinha passado por situação semelhante. Não havia como impedir. Eu queria que Fernanda viesse, pois estava com muita saudade dela e ao mesmo tempo temia pela sua vinda, pois não queria magoá-la. E como evitar que se encontrassem? Essa pergunta martelava em minha cabeça quando minha mãe, vendo em meu semblante uma demasiada preocupação, perguntou o que estava acontecendo, e porque eu tinha voltado diferente da festa. Denise então interferiu e contou a ela que eu tinha ficado com a aniversariante.

— Então é por isso que está preocupado?

— Não mãe. Não estou preocupado com o que aconteceu hoje, mas sim, com o que pode acontecer amanhã.

— Como assim? O que pode acontecer?

Contei então a ela sobre a mensagem que acabara de receber de Fernanda e sobre o possível encontro entre ela e Jéssica, e disse da minha preocupação em não ferir nenhuma delas. Minha mãe me olhou com seus olhos pacientes e sábios, e sorriu.

— Vocês jovens, sempre trocando os pés pelas mãos. E o que pensa em fazer? Vai terminar com Fernanda para ficar com a Jéssica que mora aqui ou pretende continuar seu namoro à distância?

— Não sei mãe.

E realmente eu não sabia. Amava Fernanda, mas a distância e o tempo que passávamos separados havia se tornando uma pedra em nosso namoro e de repente sentia um sentimento novo por Jéssica, que não sabia interpretar ao certo naquele momento.

— Quantos dias Fernanda vai passar aqui?

— Quatro dias. Mas acho que ela não vai dormir aqui em casa, pois deverá ficar na casa de sua tia.

— Então decida o que irá fazer. E faça a escolha certa. Estarei aqui se precisar.

— Obrigado mãe.

Fui dormir pensando no que iria fazer e cheguei a uma conclusão. Iria evitar todas as maneiras possíveis que Fernanda viesse à minha casa, pois assim não haveria tanta chance de Jéssica aparecer e encontrá-la aqui. Precisaria da ajuda da minha mãe, e arquitetando planos para o dia seguinte deixei-me seduzir pelo sono.

"Estava andando numa estrada à noite, a lua clareava a ponto de permitir que enxergasse perfeitamente a mata densa e tenebrosa que contornava o percurso que seguia. O vento frio fazia estalar galhos e ruídos assustadores surgiam vez ou outra da sombra das árvores. Cheguei numa bifurcação, onde a estrada da esquerda era estreita e curva, e a da direita era larga e retilínea a ponto de poder enxergá-la sumir no horizonte escuro. Parei por um instante para pensar sobre qual direção tomar, mas comecei a ouvir gritos distantes vindos de trás. Sem coragem de olhar, segui pelo caminho da direita que parecia ser mais fácil e seguro. Corria perdido, desesperado e com medo quando senti uma enorme pata rasgar minhas costas".

Nesse momento eu acordei, e percebi que o pesadelo, apesar de parecer real, tinha sido apenas um pesadelo, e que eu tinha nele tomado o caminho errado. Eram 08:30 da manhã. Levantei e olhei o celular, tinha outra mensagem de Fernanda:

"Boa dia amor, vou ficar na casa da minha tia Lourdes, pois ela me convidou. Consegui pegar o ônibus das 20:00 e devo chegar uma hora mais cedo. Te amo. Bjo"

"Que ótimo amor, estarei te esperando na rodoviária às 16:00 então, se chegar antes me liga. Te amo."

Retornei então a mensagem e fui escovar os dentes e tomar um banho. Estava ouvindo "All my loving" quando minha mãe bateu na porta do quarto avisando que Jéssica estava na sala querendo falar comigo. Vesti uma roupa e saí. Ela deu um excitante sorriso logo que entrei no cômodo. Parecia estar muito feliz com o fato de estarmos juntos, e eu, embora também estivesse, não demonstrava isso diante da minha situação. 

— Bom dia — disse a ela.

— Bom dia, dormiu bem?

— Mais ou menos. Tive um sonho muito estranho. Depois eu te conto como foi.

Sentei ao lado dela no sofá e beijei-lhe.

— Quer tomar café? Minha mãe faz um bolo delicioso. Você não vai resistir. — disse sorrindo.

— Mas é claro, aí você aproveita e me conta sobre seu sonho.

— Então vamos.


Sentamo-nos à mesa e comecei a contar-lhe os detalhes do sonho. Sobre a estrada, a escuridão, o medo, os gritos, e por fim, a pata dilacerando minhas costas. Ela ficou intrigada com o sonho e disse que deve estar ligado com alguma situação que eu estou vivendo. Eu apenas concordei com a cabeça.

Continua...

Acompanhe toda a história:
Mais vale um na mão que dois voando [Parte 03]

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