Tua figura
Toda nua
Se insinua 
Ao meu olhar
Como quem 
Quer disparar
A bala 
- letal -
Da sedução

Tua fúria
De luxúria
Se mistura
Ao meu rosnar
Como quem 
Quer rasgar
A carne
- sangrenta -
Da paixão

Teu orgasmo
Tão fantástico
Se faz mágico
Ao meu gozar
Como quem 
Quer repousar
Em meu peito
- ao som -
Do coração

Tua vinda
Toda vida
Tão querida
Ao meu pensar
Veio, enfim
Expulsar
As marcas
- profundas - 
Dessa solidão. 




Na contra-mão das palavras
ouvidas no tempo,
do vento das letras
em páginas - amareladas -
da vida, percebo 
enfim
o que é a Morte

E me apaixono inteiramente
pelo seu ato de desapego,
de livrar-se 
de qualquer 
dor
de qualquer 
desamor,
de qualquer
amargor

Lançar-se plenamente
no vazio 
do in-sentimento
e esvaziar-se
da água - suja -
da vida.




I

Amortecendo a saudade
em lençóis 
de lembranças 
escassas

A morte sendo vontade
entre as quatro
paredes
do quarto

II

Em fraque sendo verdade
Sem fraque
levado
ao fracasso

Enfraquecendo a vaidade
em nós
de corda
de aço

III

Empobrecendo a cidade
entre becos
imundos
que nasço 

Em pobre sendo vantagem
o ônus
de março
à março

IV

Apodrecendo a cultura
nas entranhas
dos castelos
de aço

O podre sendo figura
entre escudos
de tudo
que é vago

V

Anoitecendo a linguagem
entre linhas
da literatura
que faço

A noite sendo vertigem
no lançar
dos corpos
no espaço.


Amor tecido em seda, 
Feliz cidade
des(a)fiando almas
na eternidade

Amor ter sido presa,
Felicidade
Carnaval de Aleg(o)ria
na eterna idade

Amortecido o sonho
Fê, li: cidade!
V(e)ia do contemporâneo
Éter na idade

Amor, tecido, lágrimas,
felicidade
Sou d(r)ama da vida,
da eternidade



Hoje a lua está em festa
E tardará raiar o dia
Neste encontro de poetas
Areia faz serenata
O mar canta tocata
O vento faz sinfonia

E a poesia?
Ah, o que seria de nós sem a poesia?!

Seríamos sonhos inalcançáveis
Interrompidos sempre
Antes do final
Palavras inaudíveis
Ditas no barulho 
do carnaval
Sentimentos imperceptíveis
Na frieza de tudo
que é normal

Mas, não.

Hoje a lua está em festa
E tardará raiar o dia
Neste encontro de poetas
A praia 
Inteira
É Poesia.


Poema dedicado ao SARAU DA LUA MINGUANTE, realizado em 31 de janeiro de 2015, na Praia de Ajuruteua, Bragança, Pará.

Amar
não é
beijo
em banco
de praça
não é 
queijo
com goiabada
nem marmelo
nem marmelada
tudo isso
um dia
acaba
O amor
não é 
conto
de fadas

Amar
é vida
contínua
e compartilhada
é caminhar
por toda vida
acompanhada
é rosa
branca
regada
Amor
é carinho,
respeito
e mais
nada.



Mutatis mutandis
Rompendo a estagnação
Dos processos que não procedem
Dos ponteiros que não giram, senão
Em sentido contrário
Como se pudessem assim
Retroceder 
O pouco de mim

Ad argumentandum
Revendo paradigmas
De jovens enragés viris
De velhos conceitos hostis, senão
Em sentido retrógrado
Como se quisessem assim
Enraizar
O tudo de mim

Mutatis mutandis
Dos processos que não procedem
Mutatis mutandis
Dos princípios que nos refletem. 



Faltavam cinco minutos para as sete horas, quase a hora planejada. Subia pela escada estreita e escura que se contorcia entre os apartamentos fechados do velho edifício Marchan, frente à Praça da República. Até ali se sentira bem, mas a cada degrau avançado sua espinha tremia e arrepiava só de pensar no que estava prestes a fazer. Pronto, chegara ao sétimo andar, frente ao apartamento 707. Ele ofegava. Por um momento parou frente à porta de madeira já meio empenada e danificada por cupins, observou o tapete de boas vindas logo abaixo, o corredor estreito, escuro e silencioso. “Esse é o momento. Não terei outra oportunidade”, pensou.
Havia planejado tudo há meses, cada detalhe, e estava surpreso consigo ali naquele momento, pois em nenhum momento acreditou que iria concretizar o plano. Aliás, ainda não acreditava que seria capaz. Com o casaco limpou o suor que escorria pelo rosto e que poderia transparecer nervosismo, ajeitou a machadinha presa por um laço sob o casaco de lona e respirou fundo. Deu três batidas na porta e chamou pela anfitriã: “Dona Mariiiia!”. Esperou, silencioso, tentando ouvir qualquer reação do outro lado da porta, mas nada. Tornou a bater mais três vezes e chamar novamente. Alguns segundos se passaram até que a maçaneta da porta se mexesse.
A porta se abriu numa fresta minúscula, e do escuro dois olhos penetrantes e desconfiados fixaram nele. Temendo que a velha se assustasse por estarem os dois a sós, ele retirou o chapéu e tratou logo de se apresentar.
— Boa noite, dona Maria. Lembra-se de mim? Seu inquilino lá da Rua General Gurjão. Gostaria de falar com a senhora.
A velha continuou a olhar fixamente para o rapaz, analisando-o dos pés à cabeça com aqueles olhos atentos e desconfiados, como se soubesse o motivo da visita. E ele, incomodado com a vistoria, tentava parecer o mais natural possível.
— Não se lembra de mim, senhora? Estive aqui há alguns meses.
— Lembro-me bem. Mas o que faz aqui há essa hora? Está louco?
— Não, senhora. Só vim lhe trazer aquele relógio, lembra-se que eu tinha avisado que viria?
Por mais alguns segundos a velha buscou na memória a lembrança do encontro que tiveram e realmente se lembrou de que ele havia prometido trazer um objeto de valor para lhe pagar alguns meses de aluguel. Ele, já se arrependendo de estar ali, pensou em dar meia volta e ir embora. Estava pálido, trêmulo, e já não raciocinava com exatidão todos os detalhes do minucioso plano que estava para concretizar. Quando fez menção em se virar, ouviu a corrente da porta se desprender.
— Entre, rapaz. Vou pegar um pouco de café para você. Está parecendo febril.
“Realmente, não devo estar com a melhor das aparências”, pensou. Sentou-se numa poltrona de madeira, revestida em couro, na parede logo à direita. Enquanto esperava tornou a observar o cômodo com suas estantes de livros cobrindo toda a parede à frente dele, uma mesinha de centro feita de madeira com tampa de vidro sobre um tapete com desenhos geométricos em vermelho e preto. A luz entrava fracamente no cômodo, vinda de um abajur aceso numa sala ao lado. Tudo muito bem organizado e limpo era o que podia observar, mesmo com a pouca claridade. Os livros separados por seções, e as seções por autores em ordem alfabética. Na sala ao lado havia uma mesa de madeira com seis cadeiras, uma mesinha de canto onde estava o abajur e alguns quadros pendurados em duas paredes opostas. Não se podia ver claramente as pinturas dos quadros, mas era certamente paisagens de praias, campos e cavalos. Era uma sala de jantar. Na parede entre as paredes dos quadros havia uma porta aberta que dava acesso a uma pequena varanda.
Ele olhou no relógio e torceu para que ela não demorasse a trazer o café. Tinha que ser rápido o suficiente para que tudo estivesse concluído até às oito. Ainda era sete e quinze.
— Espero que não tenha adoçado demais. — disse a velha retornando à sala — Então, se trouxe o relógio me mostre para que eu possa avaliá-lo.
Ele pegou a xícara de café, deu um gole e a colocou na mesa de centro. Enquanto ela sentava no sofá ao seu lado, ele retirou um embrulho feito com partes de uma caixa de sapato e muitos barbantes e entregou a ela. A velha estranhou a forma como o relógio fora embrulhado, mas tratou de virar-se para a mesa de centro para apoiar o pacote e tentar desatar os tantos nós que foram feitos. “Agora é a hora”, pensou o rapaz ao ver a velha praticamente ajoelhada de costas para ele. Retirou silenciosamente a machadinha de dentro do casaco. Suas mãos tremiam. Apoiou-a bem e de súbito se levantou para dar o golpe fatal.
Um segundo foi o tempo necessário para destruir todo o plano de meses. Aquele segundo em que a velha se virou e olhou penetrantemente no fundo dos olhos do rapaz, com a expressão na face que só conhece quem já esteve frente a frente com a morte. A machadinha erguida, pronta a lançar-se fulminante no crânio da velha, cessou. Tremulou e baixou. Aquele instante foi único e suficiente para lembrar o rapaz da loucura que estava prestes a cometer, dos princípios adquiridos que estava prestes a ignorar, da angústia, dos lamentos, da auto piedade e do auto julgamento.
A machadinha caiu sobre o sofá. A velha, de pernas trêmulas, viu-se sem forças para qualquer tipo de reação, e ficou a contemplar o jovem andando lentamente. Primero pela sala, depois se dirigiu até a sala de jantar e por fim até a varanda. Ele olhou no relógio, eram sete e vinte e nove. Virou-se de frente para a velha, ainda escorada na mesinha de centro, e pediu perdão.
Era verdadeiro, não, era mais que verdadeiro. Ela podia sentir. Não foi um pedido de desculpas qualquer, foi um pedido que se faz no ápice das emoções, em momentos extremos de arrependimento.
A velha buscou forças nos músculos para se levantar e conversar com o rapaz, mas antes que qualquer força pudesse surgir ele deu dois passos para trás e lançou-se do sétimo andar do edifício. Alguns segundos de absoluto silêncio se passaram até se ouvir um grande barulho do corpo se chocando com a lataria de um carro qualquer estacionado na rua.
Aos poucos ela conseguiu se pôr de pé e foi até a varanda. A rua que estava deserta começava a encher-se de gente amontoando-se umas nas outras para ver o corpo do homem que despencara do céu. Muitos olhavam para cima, tentando adivinhar de qual andar teria ele caído. Um carro da polícia chegou alguns minutos depois e os policiais esforçavam-se para afastar os curiosos da cena do “crime”.
A velha saiu da varanda ainda trêmula por tudo que havia acontecido e agradecendo aos céus por ter poupado sua vida. Ao passar pela sala viu a machadinha sobre o sofá e o pacote ainda cheio de nós sobre a mesinha de centro. “Então o embrulho era só uma distração”, ela pensou. Mas não era. Quando conseguiu desatar os nós, um genuíno relógio de prata estava realmente lá. 

No fim das contas, sabendo de suas limitações morais, não foi apenas um plano arquitetado por meses pelo rapaz, mas dois.



E é tentando encontrar 
Um caminho
Que me encontro
Ainda perdido 
Na complexidade das descobertas
Ainda descobrindo 
Em parcelas modestas
Cada passo
Cada palavra
Cada sorriso

E é tentando descobrir
A verdade
Que me descubro
Imperfeito
Homem feito, menino
Recitando versos
Escrevendo frases
Frases avulsas
Frases distintas
Frases apenas

E é tentando não enlouquecer
Neste mundo
Que me inundo
Dos pés à cabeça
Submerso no universo da dúvida
Mergulho em ares
Respiro em mares 
Sem ar
Sem par
Sem amar

E é tentando entender
O caos
Que me guio
Andando às cegas
No sombrio dos bairros boêmios
Bebendo fantasias
Comendo heresias
Sem tempero
Sem pudor
Sem magia

E é tentando que tento
Sem parar
Pois, 
Que me resta
Senão tentar?




Ele chega como quem não quer nada, mostra sua aparência invejável, vai te seduzindo com um papo encantador e sem que você perceba fará parte da sua vida, ditará suas ações e lhe mostrará grandes planos para o futuro. No entanto, a qualquer custo tentará esconder seu tenebroso "passado" manchado de sangue. Apresento-lhes o Socialismo.
O discurso socialista da igualdade de oportunidades e da descentralização do poder econômico é muito bonito e sedutor, mas não passa de um discurso utópico e sentimentalista que esconde a verdadeira face do socialismo real que é aquele que, de fato, é posto em prática por todo o mundo. Para o historiador Gilberto Cotrim, trata-se de um "socialismo autoritário", devido ao terror político implementado pelos diversos regimes socialistas que existiram e ainda permanecem em alguns países no mundo. Somando por baixo, os regimes socialistas que se instalaram na URSS, China, Camboja, Coreia do Norte, Vietnã, Cuba e Etiópia, são responsáveis diretos pelo assassinato de cerca de 15 milhões de pessoas (essa é a estimativa mínima, pois pode chegar a mais de 100 milhões), e se for contado as mortes indiretas causadas pela miséria, violência civil, e demais fatores sociais gerados por esses regimes o número vai às alturas.
Apoiado na defesa contra o Capitalismo, que julgam ser um modelo econômico onde um pequeno grupo de burgueses concentram grande parte do capital explorando a grande massa pobre, o socialismo mantém essa ideia medieval de que se alguém ganha dinheiro ele está obrigatoriamente fazendo com que outros percam, o que já deixou de ser uma verdade há muito tempo. É fato que em sociedades passadas, onde a economia era fechada, para que alguém enriquecesse outros teriam que empobrecer. No entanto, não vivemos mais esse isolamento econômico. Com a globalização econômica surgiu o que chamam de economia dinâmica, onde o capital não só circula livremente entre as nações como é criado constantemente. Empresas de tecnologia formadas por dois ou três indivíduos podem ficar milionárias da noite para o dia com a criação de um simples software utilitário. Um autor pode se ver rico em poucas semanas por causa das vendas de seus livros no mundo inteiro. Hoje, é perfeitamente possível uma sociedade onde todos enriquecem (em vários níveis de riqueza, obviamente), e alguns países (Canadá, Finlândia, Coreia do Sul, Japão...) têm mostrados que o capitalismo pode sim ser aplicado de forma eficiente, minimizando a desigualdade social e proporcionando qualidade de vida aos cidadãos, sem totalitarismo, sem genocídios e sem submissão da massa à um Estado Majoritário.
O velho e sedutor discurso socialista, apesar de já ter mostrado na prática inúmeros fracassos e atrocidades contra a humanidade, ainda seduz muitas nações capitalistas, justamente aquelas onde o falho sistema político e cultural não permite que o capitalismo se desenvolva em essência e mostre à que veio. Países assim, em que a política prejudica mais do que ajuda, tende a fomentar cada vez mais a crença de que o socialismo pode ser uma solução, mesmo a história já tendo mostrado que não.
E finalizo com uma citação do escritor Flávio Quintela: "Quem explora o pobre não é o empresário, para o qual quanto mais mercado consumidor melhor, e sim o Estado, para o qual quanto mais miséria e ignorância melhor."


Não lembro ao certo em qual das noites de outono
Nem mesmo se o sono houve de perturbar minha mente
O que lembro 
vagamente
é que realmente houve o encontro
com a mitológica serpente,
Capiroto
Satanás
ou qualquer nome que venha à mente

E disse-me o anjo caído:
Sem minha presença entre os mortais
não haveria a grandeza humana!

"Blasfêmia!", eu teria dito,
mas antes do soar do apito 
sua voz insana insistiu em me interromper:

O que serias de ti, poeta, 
sem uma ponta de orgulho e vaidade?
Como haveriam de nascer os Papas e Santos
sem um mínimo de luxúria na Terra?
Como prosperariam os povos
sem uma dose da sutil avareza?

Sem me dar tempo à resposta
partiu sem deixar saudade
e ainda hoje relembro o encontro
do dia em que o próprio mal
destilado da sabedoria ancestral 
me ensinou o valor da maldade 
Da bondade dos maus
e da maldade dos bons.



Há tempos que se fala em respeito às diferenças, mas o que se ensina em todos os lugares é a homogenização de tudo. Tornou-se um pecado mortal diferenciar o belo do feio, o "burro" do inteligente, o doente do saudável, o rico do pobre, o lobo do cordeiro, etc. A política da igualdade vêm injetando no ideológico social a criminalização da diferenciação, nos fazendo acreditar que todos são iguais sob a alegação de que isso se trata de "respeitos às diferenças". Uma ova! Respeito às diferenças é aceitar que elas existem e não negá-las. Essa concepção equivocada deturpa nosso discernimento e nos faz tomar decisões extremamente insanas, como é o caso da escolha dos nossos representantes políticos. Acreditar que "qualquer um" pode assumir o mais alto cargo do executivo desde que tenha boas intenções é igualizar todas as competências de quem se propõe a disputar o cargo. É desmerecer todas as qualificações, estudos, planejamento, preparação e projetos pela crença de que ter boa intenção é o suficiente. Como se soubéssemos quem, de fato, tem boas intenções. É acreditar que para ser o artilheiro do campeonato basta estar em campo e querer fazer gols. 
Nós, brasileiros, já estamos tão acostumados com as inversões de valores e ações que já nem notamos mais que nossas casas estão cercadas de grades, muros, cercas elétricas, etc. Nós, que deveríamos ser livres, construímos por conta própria nossas prisões particulares. Nos encarceramos como porcos no chiqueiro, amedrontados pelos lobos que rondam nossas casas. Nós, que fomos desarmados por quem nos representa, enquanto estes mesmos permitem que os criminosos andem livremente pelas ruas com suas armas em punho. Direito de defesa? Pra quê? Tornou-se crime tentar se defender. Defesa, hoje, é um privilégio apenas para quem comete o crime, a vítima que se dane nos processos intermináveis do judiciário.
De fato, olhando através dos olhos dos lobos, parecemos mesmo uma vara de porcos. Todos iguais. Nem mais bonitos, nem mais feios; Nem mais inteligentes, nem mais "burros". Apenas porcos aprisionados e prontos para o abate.



É inegável a importância que cada eleição tem para o brasileiro, pois são essas pessoas a quem damos o poder direto de coordenar nossas vidas e as vidas das pessoas que amamos que poderão nos beneficiar, como cidadãos, ou prejudicar cada passo do nosso desenvolvimento individual e coletivo. No entanto, vejo na grande maioria dos brasileiros um descaso hereditário e incentivado pela política, onde é comum ouvirmos depoimentos como "tanto faz, todos eles roubam, mesmo", "bandido por bandido, eu voto é nulo" ou "já estou se saco cheio de política, quando acaba as eleições?". Esse descaso já é perceptível ainda quando o cidadão não passa de uma criança e ao se ver frente a um teste escolar, abandona e sai da sala, ignorando a importância daquela avaliação em sua vida.
A política é uma das coisas mais fascinantes que existem, mas infelizmente o brasileiro aprende a, desde cedo, odiá-la. Dizem que é por causa da falta de credibilidade dos nossos políticos, dos constantes escândalos de corrupção, das melhoras que nunca chegam, das promessas não cumpridas, mas, de fato, odiamos a política porque somos educados a odiá-la. Fomos e somos doutrinados num sistema de educação e sociedade em que ler é hobby, quando deveria ser necessidade; A televisão, que deveria ser um hobby, é uma necessidade e não falta na casa de nenhum brasileiro, mesmo os mais paupérrimos. E nos programas de TV, uma avalanche de futilidades ocupam quase toda a programação, deixando pouquíssimo espaço para alguns programas educativos e conscientizadores na madrugada. A internet que deveria ser uma poderosa ferramente de aquisição e desenvolvimento do conhecimento, não passa de uma realidade virtual de interação coletiva e compartilhamento de futilidades. Nossos professores advertem: "Ler é preciso!", quando nem eles mesmos leem. Crescemos cercados pela cultura do entretenimento: desenho animado, filmes, novelas, futebol, festas, reality shows... Entretenimento que anestesia nossas vidas, tornando-as tão absurdamente cômodas que embrenharmo-nos nos estudos da sociedade, da política, das causas futuras e buscar contribuir de alguma forma ao futuro da humanidade passa a parecer uma causa desnecessária e fútil.
O descaso que o brasileiro tem pela política é o mesmo descaso que cada um tem por suas vidas. É a confirmação de que aquele sentimento espiritual que nos encaminha a uma contribuição única que cada ser humano tem a oferecer em vida à humanidade, já não existe mais. O que sobrou foi apenas o ócio, o comodismo e uma esperança utópica de que as coisas melhorem por si só.




Palavra
Que desfia a carne da alma
Com lâmina de fino corte
Que me ilude,
me entristece,
me mata e me faz forte

E a morte que me cerca,
que me fere,
e desafia a sorte
desse homem forjado de palavra

Não é à toa que me faço
em traços,
em garranchos
E desfaço a palavra que me foi dita
Pra curar a ferida que se fez em meu peito

E assim tenho feito
Uma palavra atrás da outra
Desfiando almas
Iludindo corpos
mortos de tanta palavra.


É pétala a flutuar no vento
sem rumo, 
sem prumo,
sem destino,
como um felino que procura a caça

É criança a brincar na chuva
sem culpa,
sem medo,
sem segredos,
nem receio da bronca dos pais

É tocar a música preferida
no violão
velho
desafinado
e reviver aquela lembrança tão querida 

Liberdade É cão sem dono
sem coleira,
sem grades,
sem castigo,
a correr pelas esquinas da vida

É bicho solto!

© 2014 O Poeta e a Madrugada Traduzido Por: Girotto Brito - Designed By Girotto Brito.