Minha farda manchada
Não marcha sozinha
— desacompanhada —
Levo comigo a pólvora e o isqueiro
Acendo pavios em barris cheios
De gente dinamitada

Minha bota rasgada
Não recua um só passo
— não admito o fracasso —
Avanço sobre o território inimigo
Sobre minas, ignoro o perigo
De qualquer estilhaço

Minha arma carregada
Não disparará uma só bala
— minha munição é a fala —
E voltarei da guerra com a espada limpa
Sobre os restos mortais de quem grita
Em trajes de gala.

E se eu lançar minha granada
Não será por grana
Não será por nada
Nem será por fama
Que será lançada.

© Girotto Brito 

Somos bígamos por natureza
Bígamos de coração

A nos relacionar
— senão —
Com o amor e o ódio
Com a estupidez e a razão
Com o trabalho e o ócio
Com a frieza e a emoção
Com a lucidez e o ópio,
Com o desprezo e a compaixão

Somos bígamos, amor
Bígamos de coração.


© Girotto Brito


Digo a ti estes versos, amor
Antes que me engula
Precisas tu da cura
Para o pecado da gula

E a ti, senador
Deixes de lado a avareza
Não vês que tua esperteza
Têm gerado a pobreza?

-“Inveja! Injúria!”
Disse-me o senador injuriado
Mas "sei bem que também
A luxúria é seu pecado"

Dito isto,
O homem ficou irado
E se não corro
Seria bofeteado

Pobre homem enganado
Percebo agora
Que a soberba
Também é seu pecado

Mas se tratando de pecado
Nem eu fujo da lista
Vou já deitar do seu lado, amor
E curtir contigo a preguiça.
© Girotto Brito

Depois dos tempos de tempestades
Os ratos saíram dos esgotos
Invadiram as universidades
Os animais escrotos

Vestiram-se de doutores
Mudaram seus odores
Armaram um Cirque du Soleil
Para disfarçar seus horrores

Mas ratos são ratos
E gatos são gatos
Não importa as cores

Voltarão para os seus buracos
Ou serão comida de gatos
Os tais ratos doutores.



Amor,
Sou amor-
daçado
A viver num coração
— partido —
Desmante-
lado
Oposto a contragosto
Entre-
laçado
Herdeiro de um amor
— antigo —
Ante-
passado
Mestre da dramaturgia, sou
Protótipo de ator-
mentado
Volte, amor
( Não há nada que justi- )
Fique do meu lado.




Eis que de tanto sonhar
Em voar, tornei-me pó-
eta
Criei asas
Nada-
de-
iras
Entrei para a classe seleta
Das chocadeiras
Dos ovos
De ouro

E nos des-
dobra-
mentos
— da escrita —
Choquei tesouros!

Como Ícaro,
Alço voo 
Com asas de cera

Como ver(-)me
As asas derretem
Ao tocar na fogueira.


Ignóbil homem de negócios
Que vive a permutar a vida
Na balbúrdia do mundo
O perdulário se esbanja 
A perfurar a ferida
De sua própria carne

Drena o sumo de sua essência 
Em atos efémeros
Pobre homem 
Debilitada consciência
Auferindo ilusórias vantagens 
Falta-lhe sapiência

Exalta o supérfluo 
Corpo inane
Sem espólio.


Aos sencientes
Aqui presentes
Serei lacônico no recitar
Visto que o oblívio
Não me deixa lembrar
Tudo o que queria 
À vós falar

A senescência do sentimento
Soa como cítara a tocar
Numa coalescência frívola
Embora límpida
A melodiar

Abandone a celeridade
E junte-se aos cágados
É o que tenho a aconselhar
Mestres da longevidade
À calcinar o tempo
O âmago ígneo
A suscitar.





“Não precisamos mais de você”, foi o que disseram. Depois de uma vida inteira alegrando corações, percorrendo países por todo o mundo, contando piadas e divertindo crianças, fora simplesmente descartado do Circo Abrazador. Não como os leões, camelos e elefantes que foram proibidos por lei, mas simplesmente porque achavam que Palhaços não eram mais atrativos nos Circos modernos.
Saiu do trailler do mágico, arrasado. O circo era sua casa, sua paixão, sua vida. Não tinha para onde ir e nem sequer sabia fazer qualquer coisa na vida que não fossem palhaçadas. As lágrimas escorriam pelo seu rosto fazendo borrar a maquiagem que levara horas para preparar e que não mais usaria. Sabia que àquela hora da noite todos estavam se aprontando para o espetáculo das 10. O mágico, os malabaristas, os músicos, os anões, as dançarinas e até Maria Luiza — a equilibrista que ele sempre amou, mas nunca foi correspondido. Todos estariam lá, menos Charlie, o Palhaço.
Deixou-se jogar no chão, se escorando num monte de entulho. Aos prantos, fitava as luzes do circo que piscavam aleatoriamente em diversas cores. Era realmente maravilhoso. A tristeza que sentia foi dando espaço à amargura. A amargura foi, de repente, se tornando solidão. A solidão, por sua vez, foi transformando-se em medo. E o medo, cada vez mais intenso, de súbito se tornou ódio. Um ódio insano e incontrolável. Um ódio doentio por aqueles que o desprezaram. Todos eles. Passou a mão no rosto para enxugar as lágrimas, borrando ainda mais a maquiagem, e levantou-se.
Já estava quase na hora de começar o show. As arquibancadas estavam cheias, os pipoqueiros circulavam entre as colunas de espectadores, os músicos se posicionavam com seus instrumentos e o mágico se preparava para iniciar seu espetáculo. Seria um belo espetáculo. Charlie o assistiu quase que por completo, espreitando por debaixo das arquibancadas, entre os pés da plateia. O show chegara ao clímax e as pessoas gritavam e aplaudiam o número mais importante da noite, em que anões, bailarinas, malabaristas, equilibristas e o mágico se apresentavam juntos ao som de 1812, de Tchaikovsky.
Chegara a hora. O Palhaço fechou todas as saídas da grande tenda despercebidamente e, com uma das tochas roubada dos cuspidores de fogo, começou incendiar a lona, correndo às gargalhadas ao redor do circo e ateando fogo em toda a circunferência. A risada histérica e doentia de Charlie se misturava ao som da música e gritos de desespero. As labaredas cresciam e cresciam. A lona se incendiava por inteira, fazendo chover plástico em chamas sobre as cabeças enlouquecidas. Tentavam correr do fogo, mas o fogo corria até seus corpos. Iam todos queimando num espetáculo primoroso que iluminava a noite como as luzes de nenhum circo jamais poderiam iluminar.

Sentado no chão, Charlie assistia ao fim do espetáculo. Divertindo-se como nunca. Divertindo-se como criança diante de um palhaço. E a alegria do Palhaço, no fim das contas, foi ver o circo pegar fogo.


A morte dos intelectuais 
Fora sequer celebrada
E com ela 
Fora também enterrada
A razão
A justiça
E a verdade inalterada

A razão
-- valor universal --
Que fora guia 
De todo o pensamento 
Humano
Intelectual
Deu lugar ao insano
Partidarismo
Afinal

E a verdade
Que fora 
E sempre será
Verdade
Tornou-se relativa
Sob a ótica 
Da atualidade

E se está morta a razão,
Como poderá o homem
Fazer justiça
Senão
Com as próprias mãos?

O povo necessita 
De mitos
De ilusões
É a necessidade
De ser enganado
Que grita 
Em seus pulmões!

E a ditadura do proletariado
É exaltada com estampido
Em nome do ideal democrático
Quando não
É senão
A tirania de um partido

Mas haverá de renascer os intelectuais
Mártires da razão
Entre os canalhas tais
Dispostos a morrer
Pelos valores universais
Haverá de surgir
Novamente
Os intelectuais.


Imagem meramente ilustrativa }

Minha amada que me desculpe
Mas hoje me espera aquela cerveja gelada
Pra descansar o corpo do trabalho árduo
E des(anu)viar a cabeça embaralhada

Já estou à caminho
E os amigos que me encontrem no local de sempre
Esquina da Rua Andriola
Bem ali, logo em frente  
Onde a cerveja é no ponto
E o churrasco, excelente!

Minha amada que me desculpe
Mas hoje não tenho hora pra voltar
Não é que eu não a ame
Mas hoje vou descansar
Conversar, conversar, conversar
E, claro, me embriagar

Traz mais uma, seu Zé
E dois pés de frango!
Não gosto muito dos pés
Mas não reclamo
Meus amigos adoram
Os petiscos de frango

Minha amada que me desculpe
Mas essa cerveja está maravilhosa
Talvez eu nem volte pra casa
Pra minha esposa amorosa

Meus Deus, o que estou dizendo?
É claro que vou voltar
Não vivo sem minha amada
Nem penso em lhe preocupar
Mas antes, mais uma cerveja
Certeza, vou me embriagar

Minha amada que me desculpe
Mas não há preço que possa pagar
Nem dinheiro que dê pra comprar
O prazer da mesa de bar

O sol surge no horizonte
E me dou conta que os amigos se foram
O sono chega, finalmente
Para casa vou cambaleante
Embriagado como os outros
Mas contente, contente 

Minha amada que me desculpe
No caminho, pus-me a baldear
Não é de meu feitio tais ações
Só em dias que me deixo embriagar

E o sofá já me espera, certamente
Como em outros dias de bar
O corpo, o móvel mais nem sente
De tão acostumado que está
E aos gritos frenéticos de minha amada
Ponho-me à repousar
Certo que quando acordar
Estará ela
Ali
À me amar.


O último dia do mês de Fevereiro era sempre ansiosamente aguardado pelos poucos habitantes da pequena vila de San Martín. O vilarejo de poucas famílias, isolado no vale entre as montanhas do leste, nada tinha de especial. Com suas ruas tortuosas, calçadas de paralelepípedos e uma dezena de casas que circundavam uma velha igreja, a vila orgulhava-se do único e especial evento que organizavam anualmente. Felizardo aquele que visitava o Carnaval de San Martín!
Acontecia ao entardecer, quando a escuridão começava a adentrar pelos becos e as lamparinas iam se acendendo. Os foliões iam saindo de suas casas com seus tambores, flautas, banjos e trombones, e as serpentinas caiam dos postes ao som das músicas carnavalescas. Todos com suas fantasias extravagantes e obrigatórias, dos mais variados personagens. Havia Pierrôs, Colombinas, Arlequinas, Capitães, Corallinas, Coviellos, Bobos da corte e malabaristas que equilibravam objetos e cuspiam labaredas.  
Apesar de todos serem conhecidos, naquela noite ninguém sabia quem era quem. Era regra estar mascarado. Todos brincavam, cantavam e dançavam anonimamente e para garantir que a regra se cumprisse plenamente, um vigilante fantasiado de Gárgula ficava na entrada do vilarejo com uma estante cheia de máscaras para os viajantes que ali chegassem.
Era raro viajantes aparecerem por ali, mas naquela noite um rapaz se aproximou da vila seduzido pela música e as luzes do baile que podiam-se enxergar do alto das montanhas.
— Seja bem vindo ao Carnaval de San Martín, meu rapaz. Escolha sua máscara e seja quem você quiser.
O rapaz acenou com a cabeça e cogitou passar sem pegar a máscara, mas o vigilante o interceptou e voltou a repetir o chavão:
— Escolha sua máscara e seja quem você quiser.
O rapaz olhou desconfiado e voltou-se para a estante de máscaras.
— Eu posso pegar qualquer uma? Tenho que pagar?
— Escolha a que você quiser, são gratuitas e obrigatórias para se entrar na festa.
O rapaz coçou a cabeça e começou a observar as máscaras. Eram muitas e de todas as formas. Heróis, vilões, personagens carnavalescos, monstros, animais e até rostos de pessoas desconhecidas, mas entre todas, uma chamou sua atenção de modo especial. Jogada num canto da estante, havia uma máscara de vidro, completamente transparente.
— E esta, o que é? — perguntou o viajante intrigado com a máscara que não esconderia seu rosto.
— Essa é a máscara que te torna quem você realmente é. É a máscara que tira todas as máscaras.
— E qual é a graça de ser você mesmo no carnaval?
O vigilante aproximou-se, encostando sua fantasia levemente no ombro do viajante.
— Você sabe quem você realmente é? — disse com um sorriso cínico que podia-se perceber mesmo dentro da fantasia.
— Claro que sei! Como poderia não conhecer a mim mesmo?!
— Sorte a sua. Eu não teria coragem de usar essa máscara.
— Bobagem!
O viajante pegou a máscara e levou consigo, colocando-a já no meio da festa. Um a um, os foliões foram paralisando ao vê-lo. Os flautistas foram parando de tocar, os tambores se calando, os banjos tocaram o último acorde e as danças cessaram. Todos os olhares se voltaram para o viajante. Olhares que exalavam pavor, asco e uma sinistra inquietude. O carnaval, de repente, se tornou o mais sombrio dos ambientes. 

Era a primeira vez que viam alguém completamente sem máscaras.



Dividia o asfalto em paralelepípedos
Pra que durante a viagem 
Pudesse sentir meus passos
Era meu desejo, meu objetivo

E os corações expostos
Ficava a observar
Contando as estrelas 
Que não poderia contar

E não podendo fugir daquela escuridão
Fingia que dormia
Admirando a imensidão
Da metrópole que me dividia

De norte à norte caminhava
Com a maleta de viagem que tinha
E quando a coisa apertava
A honestidade que me vinha
Era como estaca nos ossos

E me fazia lembrar das libélulas
Ah, que felicidade era aquela!?
Para cá eu voei
Mas para onde voaria você, libélula?

Sonhava voar para longe
E quem estivesse do meu lado
Seria varrido pelo vento do inverno
Que chegara atrasado
E ainda assim
Ao seu lado
Descalço, sentia frio
Ficava eu envergonhado
E contava as noites solitárias
No recanto do meu quarto

Mesmo assim
Para essa cidade eu viria 
E com todas as minhas forças
Admiraria os idiotas dessa metrópole
E amaria, sempre de pé
E cabeça erguida
Nessa metrópole que faz
Da minha vida tão sofrida
Agarrado a essa garrafa de indignação
Que me perfura o coração

E me faz lembrar das libélulas
Ah, que felicidade era aquela!?
Para cá eu voei
Mas para onde voaria você, libélula?


Poema adaptado da música japonesa TONBO, de Tsuyoshi Nagabuchi.


O tilintar da chuva no telhado
O esfriar do clima de repente
O sentir do orvalho na pele
O calor do edredom e chá quente
O uivar do vento entre as árvores
O suor dos corpos ardentes
O esquentar das palavras no ouvido
O arrepiar ao toque caliente

Adoro esse inverno 
que aproxima 
a gente.


Hoje preciso divagar
Perder-me por completo
E caminhar devagar
Entre nuvens de pensamentos
Repletos de vaga-lumes  

Hoje preciso me doar
Pois quem doa
Não pe(r)de
Perdoa por alcançar
O limiar da compaixão

Hoje preciso dançar
Lançar-me em seus braços
E divagar, devagar,
Em esquecimento completo
Certo de me apaixonar

Hoje preciso adoçar
O amargo presente beijado
E aca(l)mar o corpo
Em pe(r)nas macias
Decretar feriado

Hoje eu preciso amar
Des(a)fiar as fibras desse coração
E mergulhar, mergulhar
Em águas calmas 
Águas de redenção.

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