Nos invernos chuvosos de vidraças embaçadas
Foram tortuosas horas de estupor noturno
Meu corpo frágil, tísico e taciturno
Deitou-se sob o céu, amortalhado

No peito, um incômodo chiado
Arranhando o âmago tuberculoso
Na alma deste horrífico lamentoso
Resquícios de vida, ignorados

Tomo um chá na madrugada fria
Um brinde solitário, uma agonia
Deste defunto ainda não enterrado

Brindo aos mortos e também aos vivos
Aos enfermos, aos esquecidos 
Brindo ao repouso dos corações dilacerados.

"Os Bêbados", pintura de José Malhoa, 1907.


Entre becos e estreitas vielas
De velhas e imundas casas verde-amarelas
Moram os bêbados e aleijados
Moram os cornos e falsas donzelas
Entre moscas e urubus famintos
Nas favelas, nos labirintos
Moram as putas e suas crianças
Também mulheres e homens distintos
Nesta morada de ratos e ratazanas
Onde esgotos e ruas não se diferem
Vivem os homens, também as damas
As prostitutas em suas camas
E os vagabundos pelas calçadas
Vivem pedindo, ao que respondo:
“— Não tenho nada!”
“— Não temos nada!”
Somos famintos na madrugada
Todos, um bando de errabundos
Sem rumo, sem metas
Somos nada no mundo
Aprisionados por quem nos cerca
Somos todos ratos do subúrbio
Mergulhados nessa merda toda
Que nos sufoca numa pobreza eterna
E nossos filhos e nossos netos
Não terão casa, não terão teto
Nem direitos, nem alfabeto
Senão como nós, seus pais e avós:
Apenas falsos libertos
Cheios de vermes e solitárias
Vivendo essa vida ordinária
Que nos consome
Mais que nossos próprios vermes
Que nos corrompe
Mais que nossos próprios chefes
Ao que respondo:
“— Não tenho nada!”
“— Não temos nada!”
Somos famintos na madrugada.


No teu último suspiro... vi-me em teus olhos
Enxerguei na tua retina minha própria morte

Sacrifiquei tudo que eu mais amava
E enterrei contigo minha pouca sorte

Os nossos dias foram tão felizes
E agora estamos aqui, abraçados

Não como no calor de outrora
Mas agora, dois corpos gelados

O teu, porque o sangue não corre
E mesmo o coração já não bate

O meu, da frieza cruel, assassina
Embora no peito ainda bata um coração escarlate.



Não sou destas águas
Nem destes banhos
Não me criei por estas bandas
Tampouco vivi aqui minha infância

Mas me sinto abraçado
Como todos os filhos legítimos do Caeté

Não fui moleque do mangue
Nem girino de Igarapés
Não me vestiram de Marujo
Tampouco o Santo beijei os pés

Mas me sinto acolhido
Como todos os Marujos de São Bené

Não aprendi a catar caranguejo
Nem viajei nos vagões do trem
Não estudei no Mâncio Ribeiro
Há pouco daqui não conhecia ninguém

Mas me sinto um legítimo bragantino
Que é que esta terra tem?

Não sou ribeirinho dos canais de Ajuruteua
Nem ao menos sei pescar de rede
Não acredito das crendices populares
Tampouco da fé mato minha sede

Mas me sinto carinhosamente beijado
Pela atmosfera sempar caeteuara

Vim de longe
De muito longe
Onde as águas são doces
E os amores foram salobres

Mas o tempo me trouxe
Para esta terra de água salgada
Onde encontrei o sossego
Onde encontrei minha amada.

Ilustração: "The grave of Lenore", de Abigail Larson.

Foi uma vez: eu caminhava, à meia-noite erma e sombria,
a procurar a tumba de Lenora entre outras tumbas tais,
e, entre estátuas e sepulturas, uma estranha sombra figura
tão rápida por meus olhos que mal pude enxergar.
“Quem será?”, pus-me a questionar, “que vem à mim atormentar”.
Nada será, nada será.

Lembro-me como se fosse hoje. Era noite de lua minguante
e velhas carpideiras iam um velório alegrar, a cantar.
E os poetas mortos pareciam recitar sonetos em suas catacumbas.
Ruídos sombrios pareciam surgir de todo lugar, mas, a olhar,
Tudo que via eram cinzentas sepulturas, inertes e silenciosas.
Apenas isso e nada mais.

O vento gélido a rugir na noite nublada, a garoa a cair
em meu casaco velho como as lembranças que guardo de Lenora.
De quando dizia “Tu és teimoso, Edgar” e eu, raivoso, fervia.
Ah! Que saudade trago de Leonora, a mais bela que a aurora,
senhora que agora jaz sob meus pés, a ser devorada pelos vermes.
E em breve, nada será.

Os galhos secos de árvores mortas arfavam em lúgubres movimentos,
E as carícias do vento frio me davam súbitos calafrios.
E novamente, tão veloz que mal pude enxergar, da escuridão,
Um estranho ruído pôs-se a gelar meu coração
Frente à lápide, ajoelhado, em oração tentei me acalmar:
Nada será, nada será.

Um chacoalhar de galhos e negros corvos puseram-se a voar
na névoa escura e densa a me assombrar, os ossos tremiam
e passei a sondar a escuridão à volta, nenhum ser vivo à solta.
De súbito, um silêncio estarrecedor, os galhos se calaram
e pude jurar ter ouvido uma voz que repetia: “Lenora! Lenora!”
Depois, silêncio e nada mais.

Com o espírito envolto em pânico, corri sem rumo entre as colunas
de tumbas negras enfileiradas, quando, de repente, do nada,
as vozes voltaram a soar nos tímpanos na madrugada.
“Não é real”, pensava então. “Deve ser apenas uma alucinação.
Mantenha a calma! Para tudo há uma explicação.
Não deve ser nada, e nada será”.

Mas antes que pudesse me acalmar, da noite escura e sombria
surge a figura esguia de uma criança a chorar sentada na sepultura.
Tímida e chorosa, a pequena resmungava alguma coisa
que não se podia entender, e, naquela hora já curioso, digo:
“Que fazes tu aqui, criança, nesta noite escura e tenebrosa?”
E chorosa, disse: “Nada demais”.

Sentei então sobre um defunto vizinho e fiquei-lhe a observar
os negros cabelos sobre o rosto invisível à luz do meu olhar,
as vestes sujas e rasgadas, como quem acabara de se desenterrar.
“Não tens pais”, pergunto, “que lhe possam acolher em noite fria?
Este torvo cemitério não é lugar pra ti, guria”. A que me responde:
“Apenas deixe-me e nada mais”.

Inquieto em ver tal ser infante naquele antro infernal
Aproximei-me lentamente, de modo tal, que não pude ser notado,
e, ao seu lado, toquei-lhe os ombros frios e amargurados.
“Mísera!”, exclamo, “Tu não podes ser quem amo!”
Fiquei incrédulo ao ver minha amada Lenora, a mais bela que a aurora.
 Lenora estava morta e nada mais.

Sob a luz pálida e escondida da lua minguante que regia a noite,
inerte e silenciosa, a pequena Lenora me olhava com frieza, temerosa.
E em seu rosto, a lembrança aterrorizante da morta amorosa.
“Diga-me”, digo, “Que és tu senão a encarnação do perigo?
Volte para o lugar de onde veio e não me leves contigo!”
E ela responde: “Nunca mais”.

E lá ficou! Noite após noite a me esperar, sentada em sepulcros,
sempre à chorar, desenterrada da escuridão onde os corvos nascem.
Alma não amada, maldade encarnada na figura de minha amada, Lenora.
Criança descarnada, de olhar medonho e sombrio, que me assombra
em sonhos e que, desde então, roubou minh’alma e fez-me saber que minha vida
nada será, nunca mais! 


* Releitura de Girotto Brito do poema "O Corvo", de Edgar Allan Poe.


Tua sombra faz figura à luz da escuridão
Teus traços me assombram
Envoltos na penumbra do teu quarto
Solitária entre a multidão

Do pouco que enxergo, guardo
Bem fundo na memória de mim
Guardo o teu olhar profundo
Que me penetra, afim

De vasculhar-me por inteiro
Do âmago, descobrir meus segredos
Fazer de mim um ser sombrio
Metade nada, metade cheio

Venha, dama dos meus sonhos!
Vem fazer de mim teu mausoléu
Enterra-me em ti, nos teus seios fartos
Mostra-me teu céu

Estou disposto a viver contigo a escuridão
Morar no teu colo de frenesia
Sentir tua pele fria tocar a minha
Compartilhar da tua melancolia e maldição.


© Girotto Brito


O poeta e contista Girotto Brito lançará no dia 06 de junho seu primeiro livro de poesia durante a XIX Feira Pan-amazônica do Livro, em Belém do Pará. Intitulado “Os três lados da moeda: vida e morte em poesia”, a obra reúne uma seleção de poemas divididos em três temáticas, ou lados de uma mesma moeda — a existência humana — e conta com o prefácio de um dos escritores paraenses mais reconhecidos da contemporaneidade, o também poeta e contista Franciorlys Viana. Os três lados tratam da natureza sentimental, social e artística do homem, respectivamente, trabalhando conceitos, sentimentos e experiências cotidianas através da poesia.
O lançamento será às 20h no Estande do Escritor Paraense, justamente no mesmo dia em que estará sendo celebrado, na Feira, o “Dia do Cordel”.
A Feira Pan-amazônica do Livro deste ano acontecerá entre os dias 29 de maio e 07 de junho, e homenageará o escritor Ariano Suassuna e, como país, o Japão. Espera-se um público superior a 400 mil pessoas e um total de mais de 900 mil livros vendidos.

Evento: Lançamento do livro “Os três lados da moeda”, de Girotto Brito
Data: 06 de junho de 2015
Horário: 20h
Local: Estande do Escritor Paraense, XIX Feira Pan-amazônica do Livro, Hangar, Belém, Pará.



Trabalha de boca em boca
Anestesia a dor dos pacientes
Há quem diga que é louca
Ela não se importa, é (in)diferente

Vive de obturar os egos
De restaurar o esmalte dos dentes amarelos
Disso faz nascerem sorrisos
Coinci-
   - dente -
     - mente
Lindos

Juliana extrai o siso das almas
Te deixa de queixo caído
Deita-te na cadeira de Juliana
Serás outro homem, agradecido.

{ Ilustração de Girotto Brito }


Fêmea ludibriante
De odor suave feito fruta
Encantadora de serpentes
Provocadora astuta

És caçadora feroz
E eu, a presa
Predadora algoz
Da natureza

Escolhe bem
Cada vítima indefesa
Seduz em hipnose
Mostra-te em beleza

Devora os corações
Desforra os corpos nus
Desova os corpos mortos
Sinta-te, seduz!

Tu és vaidade inteira
Vaidade inteiramente
Crevez chiens, si vous
N’êtes pas contents!


© Girotto Brito


A poesia, gênero lírico que foi por milênios o carro-chefe dos gêneros literários, definida por Paul Valéry como a “[...] arte baseada na linguagem, mas de significados mais amplos”, encontra nos tempos atuais enorme resistência de consumo. Embora a poesia contemporânea tenha mostrado inovações, explorando a Web e os recursos midiáticos não apenas em termos de divulgação, mas também a que se refere à criação, os poetas, de modo geral, reclamam da desvalorização do gênero no mercado editorial.  
A era moderna da literatura é marcada pela grande exploração do livro como produto, não como arte. Os livros são expostos nas estantes das livrarias como desodorantes no supermercado, onde a beleza do frasco, por vezes, se torna mais atrativo que o perfume escondido em seu interior. Nesse cenário, a poesia acabou se tornando o desodorante de odor sublime, mas de embalagem ultrapassada aos padrões atuais, expostos em pequenas quantidades num canto qualquer da prateleira e consumido apenas por um pequeno grupo de pessoas que ousaram conhecer o cheio por trás da embalagem feia ou que também são produtores de desodorantes.
Na contramão das acusações, devemos nos perguntar se o setor editorial carrega a culpa integral dessa desvalorização, se a poesia contemporânea perdeu espaço por estar perdendo ser caráter artístico em prol de uma adequação ao mercado, se os poetas modernos não estão conseguindo se adequar aos novos consumidores, se os novos consumidores não estão preparados para assimilar o que está sendo produzido, etc.
Acredito que todos carregam sua parcela de culpa, editoras, poetas, leitores, empresários e governos. Desde o ensino literário oferecido na pré-escola até os altos investimentos empresariais do setor, todos são culpados. E o poeta, como parte do processo, também é culpado.
“A força de uma vida que se renda definitivamente à Arte a ponto de confundir-se com ela parece ser o caminho buscado por alguns dos poetas brasileiros contemporâneos, que vivem sob a égide do colapso de expectativas.”, escreveu Stella Maria Ferreira, fazendo-nos refletir sobre a condição puramente artística que o poeta dá ao seu trabalho e que talvez seja o maior dos erros da atualidade. O poeta contemporâneo tem que ser mais do que artista, mais do que escritor, mais do que contemplador do mundo: tem que se dedicar à intelectualidade. E digo mais, se o papel do intelectual na história é o de defender os valores universais e desinteressados — verdade, razão e justiça —, o papel do poeta deve ser exatamente o mesmo, mas da forma mais bela que seu espírito conseguir versar. Quem sabe assim, leitores, governos e empresários passem a olhar de maneira diferente para os poetas e seu poder de mudar a sociedade através da opinião, da crítica, do pensamento e, ainda assim, da arte.


Artigo escrito por Girotto Brito em 16 de abril de 2015.


Comportou-se com hipocrisia
A dama do trono dourado
Fingiu toda a vida
Falsificou alegria

[ Tudo falsificado! ]

Desleal a si mesma
Fingiu tamanha amorosidade
Farsante e traiçoeira
Quis virar a mesa

[ Toda falsidade! ]

Proditória mulherzinha
Dessas que encenam tudo
Pérfido amor
Rainha bandidinha

[ Enganou todo o mundo! ]



© Girotto Brito


  
A cena que encontramos quando chegamos à beira da Lagoa Morgat foi de completa destruição. Do antigo galpão em construção restaram poucas paredes em pé, ferragens e máquinas se amontoavam retorcidas e ainda quente, derramando óleo no chão de terra vermelha, revirada. Minha equipe fazia a vistoria do local à procura de sobreviventes ou, pelo menos, alguma informação relevante que pudesse nos servir. À pouco mais de trinta horas, notícias assustadoras se espalhavam na internet sobre máquinas de guerra, em várias parte do mundo, que invadiam cidades e vilas, destruindo sem qualquer justificativa qualquer forma de vida que encontrassem pela frente. Eu mesmo cheguei a assistir alguns vídeos amadores postados na rede que mostravam os ciborgues em verdadeiras cenas de guerra, embora a qualidade ruim dos vídeos não deixassem distinguir com exatidão como são essas máquinas. Os ataques aconteciam em vários países ao mesmo tempo e os governos convocaram as forças armadas para combater essa ameaça.
Dois dias à procura dessas máquinas e nenhum confronto direto com soldados tinha sido registrado até esse momento em nosso país. De alguma forma ainda desconhecida eles apareciam e devastavam cidades pequenas, ainda desprotegidas, mas tudo indica que dessa vez um grupo de soldados havia chegado no exato momento em que os ciborgues migravam para a cidade de Monsenhor Acan, interceptando-os no caminho, aqui, na beira da lagoa. Embora não haja corpos ou qualquer vestígio da presença de militares no local, os sinais de que houve aqui uma batalha são visíveis, e nos informaram por rádio, há vinte minutos, que uma equipe do esquadrão Centauro não retorna contato há mais de quatro horas.
— Comandante! Comandante! Venha ver o que encontramos. — gritou um soldado das ruínas do galpão.
Terminei de enviar uma mensagem ao centro de comando e fui até o local onde soldados se aglomeravam para ler um texto rabiscado numa das paredes que ficaram em pé. Escrito com uma lasca de carvão no reboco da parede de um cômodo que parecia ser um banheiro, o texto era mais que um diário, era o registro de tudo que havia acontecido ali.

Não sei o que vai acontecer em poucos minutos, mas acredito que não sairemos vivos daqui. Estamos, eu e meu irmão, abrigados nesse galpão enquanto uma batalha inimaginável acontece lá fora. Estávamos na lagoa, nadando como de costume, eu, meu irmão mais novo que ainda é um criança e alguns amigos que lá ficaram. Leandro, outro amigo, chegou e me chamou para virmos até este galpão. Atravessamos a lagoa a nado, e quando chegamos nessa margem percebemos movimentações entre as árvores, nos dois lados da água. Subitamente as árvores começaram a tombar e foram surgindo muitas máquinas, robôs, ou seja lá o que são essas coisas. Umas menores, quase do meu tamanho, outras enormes, como carros ou vãs. Eu corri para cá e me escondi no cômodo ao lado e fiquei espiando por trás de uma parede. As máquinas chegaram primeiro ao lado oposto da lagoa e foram matando um por um dos meus amigos que estavam lá. Eles tentaram correr, fugir, mas em vão. Fiquei desesperado, achei que meu irmão estivesse lá, mas não, ele havia me seguido e quando percebi estava aqui perto. Corri para pegá-lo. Detrás do galpão veio um grupo de soldados, acho que uns vinte, e começou uma guerra dos diabos. Agarrei meu irmão e corremos para cá, entre tiros, granadas e explosões. Os robôs estavam próximos. Um soldado ajudou a gente e nos trouxe para este cômodo. Meu irmão chora sem parar, está com medo. Eu tento acalmá-lo, mas também não consigo disfarçar meu pavor. O soldado está aqui com a gente, vigiando, parece qu..
... uma máquina entrou e o matou. Consegui me livrar dela, mas estou ferido. usei a arma do soldado, é a primeira vez que uso uma arma. Atirei várias vezes, e só tive êxito porque era uma máquina pequena e acertei um tubo em seu dorso que parece ser vital para o seu funcionamento.
As paredes da frente do galpão desmoronaram. Os tiros estão diminuindo, parece que a maioria dos soldados morreram. Não vai demorar até que nos encontrem aqui. Meu irmão dormiu, ou desmaiou, não sei. A parede já está quase sem espaço para continuar escrevendo, embora ainda tenha bastante carvão aqui para rabis...
... eles estão entrando no galpão. Parecem conversar na nossa língua. Ouvi algo como "... eliminem os corpos". Agora dizem "... daremos um novo propósito a esse mundo".
Eles estão vindo...

O texto termina aí. Impossível não ficar emocionado lendo um relato como esse e imaginar pelo que passaram esses irmãos. Provavelmente foram mortos, mas deixaram um importante relato sobre o que havia acontecido ali.
— Comandante, estão te chamando no rádio. É de Monsenhor Acan. — disse o Cabo Fernandes me trazendo o aparelho.
— As notícias não são boas, comandante, — falava ofegante um informante pelo rádio — a cidade foi tomada, as máquinas apareceram e saíram arrebentando tudo. A maioria dos nossos homens estão mortos e os que sobreviveram estão escondidos. Nossas armas foram inúteis. Abatemos no máximo oito deles, mas perdemos uns duzentos homens para isso.
— Calma, soldado! Tenha calma. Estou com poucos homens aqui, mas vamos para aí ajudar. Qual a sua localização?
— ...
— Soldados?
— ...
— Soldado, qual a sua localização?
— ...
Não houve resposta. Juntei meus homens e expliquei-lhes a situação. Estavam todos apavorados. Não foram treinados para combater esse tipo de inimigo. Na verdade, sequer foram treinados para uma guerra. A situação do país sempre foi tão tranquila que os treinamentos de combate de muitos esquadrões resumiam-se a aparar a grama dos quartéis e provas de tiro ao alvo uma ou duas vezes por mês. Raramente havia algum treinamento especial que exigisse mais que isso e, quando havia, poucos eram selecionados para participar. Eu estava entre esses poucos. Encorajei-os. Nossas mulheres, nossos filhos, nossos amigos... todos dependiam de nós. Éramos a esperança para aqueles que ainda não tinham sido mortos.
Em meia hora já estávamos nos carros, chegando a Monsenhor Acan. No caminho, carros pareciam virados do avesso, retorcidos. Tivemos que descer e seguir a pé, pois a estrada estava completamente interditada por árvores tomadas, carros capotados — muitos em chamas —, motos caídas, bicicletas abandonadas e a maioria das casas completamente destruídas. Nenhuma pessoa nas ruas, absolutamente nenhuma. Nem viva, nem morta. Uma situação inimaginável. Uma realidade distópica. Percorremos os escombros, mas nada, nenhuma alma parecia ter escapado ao ataque e não conseguíamos imaginar como conseguiram fazer sumir tanta gente.
De repente, no horizonte, avistamos uma movimentação longínqua que despertou um brilho súbito nos olhos dos homens que estavam comigo. Forçamos nossas visões para tentar reconhecer o que era. Alguns chegaram a afirmar que eram as pessoas retornando para a cidade. Os homens se levantaram e chegaram a esboçar, por alguns segundos, uma ponta de alegria. Mas em vão. Não demorou para que percebêssemos que não eram humanos, eram máquinas, de todos os tipos. Alguns soldados começaram a correr na direção contrária, mas pararam. Estávamos cercados.
Se ainda existia ânimo e esperança entre meus homens, se fora naquele momento. Todos sentaram, choraram e rezaram por si e por suas famílias. Inclusive eu.



Numa infância remota
Que a lembrança já nem faz
Questão de guardar
Estive a morar no Matogrosso
Terra do boi-gordo
Estado-colosso

Liberto das correntes da cidade grande
Corri pelas ruas de piçarra
Comi mangaba do pé
Fui girino do Rio Araguaia

Forço para me lembrar
Dos hectares de tanta beleza
Do povo que esbanjava riqueza
De costumes e crenças sortidas
Embora o prato sobre a mesa
Denunciasse a pobreza de suas vidas

Liberto das correntes da contemporaneidade
Banhei em praias de água doce
Roubei ovos das gaivotas do Araguaia
Vivi como se o último dia fosse

O tempo, agora,
Há de ser um inimigo
Que não me deixa lembrar que outrora
Fui feliz como deveria ter sido
A saborear das doces amoras
Do Matogrosso querido

Voei como bicho solto
Nadei como Pacú-caranha
Sonhei como menino afoito
Amei beleza tamanha

E do meu Estado-colosso
Guardo o cheiro da terra molhada
O sabor da farinha de puba
O murici curtido em cachaça
Os rostos dos amigos de infância
E a felicidade de graça.

© Girotto Brito

Disseram-me, criança
Que teu coração não bate
Estático feito rocha
Não bate, o teu coração

Diante de tal sentença
Sinto-te dentro de mim
Invade-me uma tristeza imensa
Uma amargura sem fim

Que será de ti, minha criança?
Posso manter a esperança
De te ter vivo em mim?

Que será de mim sem você?
Serei capaz de aguentar
Uma dor tamanha, assim?


© Girotto Brito

Não faz tempo que te conheço
Vi-te passear outro dia
Criei por ti exímio apreço
Entorpecido fiquei

Perdi-me em devaneio
E com receio nem sequer me aproximei
Perdi um dia inteiro, entristecido
Vi, de longe, tua polidez

Quase me esqueço
Do pobre homem que sou:
Assimétrico adereço,
Intrépido sonhador

Quem dera eu fosse sagaz como você
Perspicaz em toda minha candidez
Mas o amor é algoz, querida
É fera feroz a destilar acidez

Resta-me ser condescendente
Enxergar-te-ei, sempre
De forma esp(a/e)cial
E manterei eternamente
— mais do que o normal —
Esse amor oculto,
Latente,
Abissal. 
© Girotto Brito
© 2014 O Poeta e a Madrugada Traduzido Por: Girotto Brito - Designed By Girotto Brito.