Digo a
ti estes versos, amor
Antes
que me engula
Precisas tu da cura
Para o
pecado da gula
E a
ti, senador
Deixes de lado a avareza
Não
vês que tua esperteza
Têm
gerado a pobreza?
-“Inveja! Injúria!”
Disse-me
o senador injuriado
Mas "sei bem que também
A luxúria é seu pecado"
Dito
isto,
O
homem ficou irado
E se
não corro
Seria bofeteado
Pobre
homem enganado
Percebo
agora
Que a soberba
Também
é seu pecado
Mas se
tratando de pecado
Nem eu
fujo da lista
Vou já
deitar do seu lado, amor
E curtir contigo a preguiça.
E curtir contigo a preguiça.
© Girotto Brito
Depois dos tempos de tempestades
Os ratos saíram dos esgotos
Invadiram as universidades
Os animais escrotos
Vestiram-se de doutores
Mudaram seus odores
Armaram um Cirque du Soleil
Para disfarçar seus horrores
Mas ratos são ratos
E gatos são gatos
Não importa as cores
Voltarão para os seus buracos
Ou serão comida de gatos
Os tais ratos doutores.
Ignóbil homem de negócios
Que vive a permutar a vida
Na balbúrdia do mundo
O perdulário se esbanja
A perfurar a ferida
De sua própria carne
Drena o sumo de sua essência
Em atos efémeros
Pobre homem
Debilitada consciência
Auferindo ilusórias vantagens
Falta-lhe sapiência
Exalta o supérfluo
Corpo inane
Sem espólio.
Aos sencientes
Aqui presentes
Serei lacônico no recitar
Visto que o oblívio
Não me deixa lembrar
Tudo o que queria
À vós falar
A senescência do sentimento
Soa como cítara a tocar
Numa coalescência frívola
Embora límpida
A melodiar
Abandone a celeridade
E junte-se aos cágados
É o que tenho a aconselhar
Mestres da longevidade
À calcinar o tempo
O âmago ígneo
A suscitar.
“Não
precisamos mais de você”, foi o que disseram. Depois de uma vida inteira
alegrando corações, percorrendo países por todo o mundo, contando piadas e
divertindo crianças, fora simplesmente descartado do Circo Abrazador. Não como
os leões, camelos e elefantes que foram proibidos por lei, mas simplesmente
porque achavam que Palhaços não eram mais atrativos nos Circos modernos.
Saiu do
trailler do mágico, arrasado. O circo era sua casa, sua paixão, sua vida. Não
tinha para onde ir e nem sequer sabia fazer qualquer coisa na vida que não
fossem palhaçadas. As lágrimas escorriam pelo seu rosto fazendo borrar a
maquiagem que levara horas para preparar e que não mais usaria. Sabia que àquela
hora da noite todos estavam se aprontando para o espetáculo das 10. O mágico,
os malabaristas, os músicos, os anões, as dançarinas e até Maria Luiza — a
equilibrista que ele sempre amou, mas nunca foi correspondido. Todos estariam
lá, menos Charlie, o Palhaço.
Deixou-se
jogar no chão, se escorando num monte de entulho. Aos prantos, fitava as luzes
do circo que piscavam aleatoriamente em diversas cores. Era realmente
maravilhoso. A tristeza que sentia foi dando espaço à amargura. A amargura foi,
de repente, se tornando solidão. A solidão, por sua vez, foi transformando-se
em medo. E o medo, cada vez mais intenso, de súbito se tornou ódio. Um ódio
insano e incontrolável. Um ódio doentio por aqueles que o desprezaram. Todos
eles. Passou a mão no rosto para enxugar as lágrimas, borrando ainda mais a maquiagem,
e levantou-se.
Já
estava quase na hora de começar o show. As arquibancadas estavam cheias, os
pipoqueiros circulavam entre as colunas de espectadores, os músicos se posicionavam
com seus instrumentos e o mágico se preparava para iniciar seu espetáculo.
Seria um belo espetáculo. Charlie o assistiu quase que por completo,
espreitando por debaixo das arquibancadas, entre os pés da plateia. O show
chegara ao clímax e as pessoas gritavam e aplaudiam o número mais importante da
noite, em que anões, bailarinas, malabaristas, equilibristas e o mágico se apresentavam
juntos ao som de 1812, de Tchaikovsky.
Chegara
a hora. O Palhaço fechou todas as saídas da grande tenda despercebidamente e,
com uma das tochas roubada dos cuspidores de fogo, começou incendiar a lona,
correndo às gargalhadas ao redor do circo e ateando fogo em toda a
circunferência. A risada histérica e doentia de Charlie se misturava ao
som da música e gritos de desespero. As labaredas cresciam e cresciam. A
lona se incendiava por inteira, fazendo chover plástico em chamas sobre as
cabeças enlouquecidas. Tentavam correr do fogo, mas o fogo corria até seus
corpos. Iam todos queimando num espetáculo primoroso que iluminava a noite como
as luzes de nenhum circo jamais poderiam iluminar.
Sentado
no chão, Charlie assistia ao fim do espetáculo. Divertindo-se como nunca. Divertindo-se como criança diante de um palhaço. E a alegria do Palhaço, no fim das contas, foi ver o circo pegar fogo.
A morte dos intelectuais
Fora sequer celebrada
E com ela
Fora também enterrada
A razão
A justiça
E a verdade inalterada
A razão
-- valor universal --
Que fora guia
De todo o pensamento
Humano
Intelectual
Deu lugar ao insano
Partidarismo
Afinal
E a verdade
Que fora
E sempre será
Verdade
Tornou-se relativa
Sob a ótica
Da atualidade
E se está morta a razão,
Como poderá o homem
Fazer justiça
Senão
Com as próprias mãos?
O povo necessita
De mitos
De ilusões
É a necessidade
De ser enganado
Que grita
Em seus pulmões!
E a ditadura do proletariado
É exaltada com estampido
Em nome do ideal democrático
Quando não
É senão
A tirania de um partido
Mas haverá de renascer os intelectuais
Mártires da razão
Entre os canalhas tais
Dispostos a morrer
Pelos valores universais
Haverá de surgir
Novamente
Os intelectuais.
Imagem meramente ilustrativa }
Minha amada que me desculpe
Mas hoje me espera aquela cerveja gelada
Pra descansar o corpo do trabalho árduo
E des(anu)viar a cabeça embaralhada
Já estou à caminho
E os amigos que me encontrem no local de sempre
Esquina da Rua Andriola
Bem ali, logo em frente
Onde a cerveja é no ponto
E o churrasco, excelente!
Minha amada que me desculpe
Mas hoje não tenho hora pra voltar
Não é que eu não a ame
Mas hoje vou descansar
Conversar, conversar, conversar
E, claro, me embriagar
Traz mais uma, seu Zé
E dois pés de frango!
Não gosto muito dos pés
Mas não reclamo
Meus amigos adoram
Os petiscos de frango
Minha amada que me desculpe
Mas essa cerveja está maravilhosa
Talvez eu nem volte pra casa
Pra minha esposa amorosa
Meus Deus, o que estou dizendo?
É claro que vou voltar
Não vivo sem minha amada
Nem penso em lhe preocupar
Mas antes, mais uma cerveja
Certeza, vou me embriagar
Minha amada que me desculpe
Mas não há preço que possa pagar
Nem dinheiro que dê pra comprar
O prazer da mesa de bar
O sol surge no horizonte
E me dou conta que os amigos se foram
O sono chega, finalmente
Para casa vou cambaleante
Embriagado como os outros
Mas contente, contente
Minha amada que me desculpe
No caminho, pus-me a baldear
Não é de meu feitio tais ações
Só em dias que me deixo embriagar
E o sofá já me espera, certamente
Como em outros dias de bar
O corpo, o móvel mais nem sente
De tão acostumado que está
E aos gritos frenéticos de minha amada
Ponho-me à repousar
Certo que quando acordar
Estará ela
Ali
À me amar.
O
último dia do mês de Fevereiro era sempre ansiosamente aguardado pelos poucos
habitantes da pequena vila de San Martín. O vilarejo de poucas famílias,
isolado no vale entre as montanhas do leste, nada tinha de especial. Com suas
ruas tortuosas, calçadas de paralelepípedos e uma dezena de casas que
circundavam uma velha igreja, a vila orgulhava-se do único e especial evento
que organizavam anualmente. Felizardo aquele que visitava o Carnaval de San
Martín!
Acontecia
ao entardecer, quando a escuridão começava a adentrar pelos becos e as
lamparinas iam se acendendo. Os foliões iam saindo de suas casas com seus
tambores, flautas, banjos e trombones, e as serpentinas caiam dos postes ao som
das músicas carnavalescas. Todos com suas fantasias extravagantes e
obrigatórias, dos mais variados personagens. Havia Pierrôs, Colombinas,
Arlequinas, Capitães, Corallinas, Coviellos, Bobos da corte e malabaristas que
equilibravam objetos e cuspiam labaredas.
Apesar
de todos serem conhecidos, naquela noite ninguém sabia quem era quem. Era regra
estar mascarado. Todos brincavam, cantavam e dançavam anonimamente e para
garantir que a regra se cumprisse plenamente, um vigilante fantasiado de
Gárgula ficava na entrada do vilarejo com uma estante cheia de máscaras para os
viajantes que ali chegassem.
Era
raro viajantes aparecerem por ali, mas naquela noite um rapaz se aproximou da
vila seduzido pela música e as luzes do baile que podiam-se enxergar do alto
das montanhas.
—
Seja bem vindo ao Carnaval de San Martín, meu rapaz. Escolha sua máscara e seja quem você quiser.
O
rapaz acenou com a cabeça e cogitou passar sem pegar a máscara, mas o vigilante
o interceptou e voltou a repetir o chavão:
—
Escolha sua máscara e seja quem você quiser.
O
rapaz olhou desconfiado e voltou-se para a estante de máscaras.
—
Eu posso pegar qualquer uma? Tenho que pagar?
—
Escolha a que você quiser, são gratuitas e obrigatórias para se entrar na
festa.
O
rapaz coçou a cabeça e começou a observar as máscaras. Eram muitas e de todas
as formas. Heróis, vilões, personagens carnavalescos, monstros, animais e até
rostos de pessoas desconhecidas, mas entre todas, uma chamou sua atenção de modo
especial. Jogada num canto da estante, havia uma máscara de vidro,
completamente transparente.
—
E esta, o que é? — perguntou o viajante intrigado com a máscara que não
esconderia seu rosto.
—
Essa é a máscara que te torna quem você realmente é. É a máscara que tira todas
as máscaras.
—
E qual é a graça de ser você mesmo no carnaval?
O
vigilante aproximou-se, encostando sua fantasia levemente no ombro do viajante.
—
Você sabe quem você realmente é? — disse com um sorriso cínico que podia-se perceber mesmo dentro da fantasia.
—
Claro que sei! Como poderia não conhecer a mim mesmo?!
—
Sorte a sua. Eu não teria coragem de usar essa máscara.
—
Bobagem!
O
viajante pegou a máscara e levou consigo, colocando-a já no meio da festa. Um a
um, os foliões foram paralisando ao vê-lo. Os flautistas foram parando de tocar, os tambores se calando, os banjos tocaram o último acorde e as danças
cessaram. Todos os olhares se voltaram para o viajante. Olhares que exalavam pavor, asco e uma sinistra inquietude. O carnaval, de repente, se tornou o mais sombrio dos ambientes.
Era
a primeira vez que viam alguém completamente sem máscaras.
Dividia o asfalto em paralelepípedos
Pra que durante a viagem
Pudesse sentir meus passos
Era meu desejo, meu objetivo
E os corações expostos
Ficava a observar
Contando as estrelas
Que não poderia contar
E não podendo fugir daquela escuridão
Fingia que dormia
Admirando a imensidão
Da metrópole que me dividia
De norte à norte caminhava
Com a maleta de viagem que tinha
E quando a coisa apertava
A honestidade que me vinha
Era como estaca nos ossos
E me fazia lembrar das libélulas
Ah, que felicidade era aquela!?
Para cá eu voei
Mas para onde voaria você, libélula?
Sonhava voar para longe
E quem estivesse do meu lado
Seria varrido pelo vento do inverno
Que chegara atrasado
E ainda assim
Ao seu lado
Descalço, sentia frio
Ficava eu envergonhado
E contava as noites solitárias
No recanto do meu quarto
Mesmo assim
Para essa cidade eu viria
E com todas as minhas forças
Admiraria os idiotas dessa metrópole
E amaria, sempre de pé
E cabeça erguida
Nessa metrópole que faz
Da minha vida tão sofrida
Agarrado a essa garrafa de indignação
Que me perfura o coração
E me faz lembrar das libélulas
Ah, que felicidade era aquela!?
Para cá eu voei
Mas para onde voaria você, libélula?
Poema adaptado da música japonesa TONBO, de Tsuyoshi Nagabuchi.
Hoje preciso divagar
Perder-me por completo
E caminhar devagar
Entre nuvens de pensamentos
Repletos de vaga-lumes
Hoje preciso me doar
Pois quem doa
Não pe(r)de
Perdoa por alcançar
O limiar da compaixão
Hoje preciso dançar
Lançar-me em seus braços
E divagar, devagar,
Em esquecimento completo
Certo de me apaixonar
Hoje preciso adoçar
O amargo presente beijado
E aca(l)mar o corpo
Em pe(r)nas macias
Decretar feriado
Hoje eu preciso amar
Des(a)fiar as fibras desse coração
E mergulhar, mergulhar
Em águas calmas
Águas de redenção.
Já
estava quase pegando no sono quando os cães começaram a latir freneticamente.
Por alguns segundos procurei não me preocupar. Apesar de morar sozinho e do
quintal ser grande, escuro e tomado por uma vegetação alta, os quatro cachorros
sempre cuidaram bem dos arredores da casa e espantavam qualquer ameaça. Naquela noite, no entanto, os latidos duraram pouco tempo e deram espaço para gemidos
caninos e um súbito silêncio, quebrado apenas pela forte chuva e o uivar do
vento entre as frestas do telhado.
Quis
abrir a janela, o suficiente para tentar enxergar o que havia feito meus cães
silenciarem, mas achei melhor não. As portas e janelas eram bem protegidas com
grades de ferro e seria mais seguro deixá-las bem trancadas com seus vários
cadeados. Não deve ter sido nada — pensei, e voltei a encostar a cabeça no
travesseiro. Tentando mudar o rumo dos pensamentos sombrios que se formavam dentro
de mim, fechei os olhos e procurei me concentrar no tic-tac do relógio de pulso.
As luzes estavam apagadas e só a luz longínqua de um poste da rua adentrava
pela vidraça da janela, fazendo desenhar as sombras trêmulas da grade na parede
do quarto. O edredom cobria meu corpo,
mas não me aqueciam os pés, gélidos mais de medo do que de frio.
Tateei
a superfície do criado-mudo à procura do celular, mas não o encontrei. Na
escrivaninha — lembrei, e levantei para pegá-lo. Era 1h28 da madrugada, mas não
foi para ver as horas que peguei o aparelho. Queria mesmo era tê-lo por perto, mas
acabara de perceber que seria inútil: estava sem sinal! De qualquer forma levei-o
para a cama junto comigo.
Vez
ou outra imaginava ter ouvido algum barulho estranho no quintal, mas acabava
por me convencer que era apenas o temporal que derrubara algum objeto na
varanda. Alguns minutos se passaram e já estava para adormecer quando, num olhar
de relance, percebi que havia alguma coisa a mais na sombra projetada na
parede. Estremeci por inteiro com o susto repentino que fez meu coração
palpitar aceleradamente. Nesse mesmo instante, a sombra se moveu e não ficou
mais visível, e pude ouvir o som dos passos próximos à parede. Passos lentos,
meio arrastados. Mas passos, com certeza!
Procurei
me acalmar. Se ao menos eu tivesse uma arma — pensei. Os passos se dirigiam à
porta da frente. Olhei o celular: ainda sem sinal. Levantei da cama e fui para
a cozinha, esgueirando-me cegamente entre os móveis para que não fosse notado. Peguei
uma faca na gaveta do armário e procurei o interruptor da lâmpada da varanda.
—
Merda de energia! — sussurrei ao perceber que as lâmpadas não acendiam.
À
princípio achei que a falta de energia se devia à tempestade que podia ter
danificado a rede elétrica, mas logo lembrei da luz do poste que fazia clarear
parte do quarto e comecei a suspeitar que o invasor é que havia cortado algum
fio externo e provocado o apagão.
Ouvi
novamente um barulho. Dessa vez na porta da frente. Espiei da sala e pude ver a
silhueta desenhada na porta de vidro. Era um sujeito grande, aparentemente
forte e usava possivelmente um Sobretudo que lhe protegia da chuva. Averiguava
os cadeados com calma, como se não se preocupasse com quaisquer ameaças que
pudesse interferir em seus planos.
Eu
estava só, sem nenhum meio de comunicação e trancado dentro da minha própria
casa. Meus cães, que sempre me garantiram a segurança, se calaram inexplicavelmente.
Só me restavam as grades e cadeados. Uma situação desesperadora que fazia
crescer em mim um medo paralisante.
Voltei
a olhar para a porta, ele já não estava mais lá. Caminhava para a porta dos
fundos, lentamente, arrastando passos e alguma coisa a mais que era impossível distinguir
naquele momento. Recuperei os movimentos e fui até a área de serviço. Não era
possível enxergá-lo dessa vez, mas pelo barulho eu presumi que estava fazendo a
mesma avaliação dos cadeados que fizera na porta da frente. Ele vai tentar
entrar — pensei. Meus ossos tremiam e mal conseguia empunhar a faca que pegara
na cozinha. Faca esta que eu sabia que não me seria útil em nada, a não ser
para trazer uma insignificante sensação de possibilidade de defesa.
Com
a esperança de conseguir afugentá-lo, comecei a proferir insultos e ameaças. “Vai
embora seu infame! Já chamei a polícia e logo estarão aqui.”, gritei duas ou
três vezes, e depois tudo silenciou. Apurei os ouvidos durante algum tempo, mas
nada de cadeados esfregando na grade, nem passos arrastados, só o tilintar da
chuva no telhado e o uivar do vento. Meu coração começou a desacelerar e a boca
seca de repente voltara a salivar. Os músculos foram relaxando e já pensava em comemorar
a bem sucedida atitude de intimidação. Mas não, um estrondo assustador acertou
repentinamente a grade da porta da frente. Ferro contra ferro! Corri para a
sala. A sombra no vidro da porta mostrava o homem com uma marreta golpeando os
cadeados freneticamente. Eram cadeados grandes, mas eu sabia que não iam
aguentar por muito mais tempo. Os vidros da porta quebraram e lancei-me
instintivamente no chão do corredor para não ser visto.
O
vento frio entrou pela vidraça quebrada e fez estremecer mais ainda minha
carne. Vou fugir pelos fundos — pensei. Mas logo lembrei que as chaves da casa
estavam próximas da porta de entrada. Não havia como pegá-las e por sorte o
invasor ainda não as havia visto.
A
casa era pequena. Possuía apenas dois quartos, sala, cozinha, banheiro e uma
área de serviço interna. A única forma de sair dali naquele momento era pela
porta da frente, mas para isso eu teria que passar pelo homem e sua marreta. O
pânico não me deixava raciocinar organizadamente e meus pensamentos se
misturavam num turbilhão de ideias e medos cada vez mais aterrorizantes. Um
cadeado já havia se rompido, restava o outro e a porta.
Respirei
fundo e corri para o quarto de hóspedes. Tranquei a porta por fora e retirei a
chave. Fiz a mesma coisa com o banheiro e meu quarto. Todos trancados por fora
para dar a impressão de que eu estava me escondendo em algum deles. Fui então
para a cozinha e me joguei no vão entre a parede e a geladeira. Ouvi o segundo
cadeado cair e a porta ser arrombada. Ele estava entrando! Apoiei a faca
firmemente com as duas mãos e percebi que estava sangrando. Havia me cortado,
provavelmente quando caí no corredor. Ofegava e tratei de prender ligeiro a
respiração, antes que ele pudesse me ouvir.
Seus
passos lentos foram adentrando a sala, arrastando a marreta ao piso molhado
pelos respingos de chuva que entravam junto a ele. Não podia vê-lo, mas podia senti-lo.
O homem parou na entrada do corredor, como quem estivesse observando e
decidindo a melhor forma de me encontrar e estourar minha cabeça com aquela
marreta. Eu já não conseguia mais prender a respiração e voltei a ofegar, dessa
vez mais silenciosamente.
Os
passos foram se aproximando e meu corpo paralisou. Escondi-me no lugar errado —
pensei. As mãos mal aguantavam o peso da faca, tamanho era o incontrole que
tinha sobre meu corpo. A sombra larga e indefinida apareceu aos meus olhos,
deslizando no piso da cozinha. De repente ele parou. Parecia observar
atentamente, mas não prosseguiu. Dirigiu-se até a porta do banheiro e girou a maçaneta.
Depois fez a mesma coisa com as maçanetas das portas dos quartos. Todas
trancadas.
Eu
ainda não poderia tentar fugir. Seria pego, com certeza. Arrisquei espiar por
trás da geladeira. Ele olhava fixamente para a porta do quarto de hóspedes.
Usava realmente um Sobretudo escuro que escorria a água da chuva trazida de
fora. Um capuz cobria-lhe a cabeça e a mão esquerda segurava uma pesada marreta,
dessas de quebrar concreto.
O
invasor deu dois passos para trás e disferiu um forte chute na porta. Não foi o
suficiente. Ele então acertou outros três pontapés e a porta não resistiu,
escancarou-se completamente deixando visível o cômodo sem móveis, com apenas
algumas caixas empilhadas num canto. Não havia necessidade dele entrar no
quarto para saber que eu não estava lá e voltou-se para a porta do banheiro.
Acertou uma marretada na maçaneta e logo em seguida um chute e a porta também
se abriu. De onde estava pôde ver que eu não me encontrava lá e foi para a
terceira porta, a do meu quarto. Estava cansado, podia-se notar pela
respiração, mas não hesitou e marretou a porta até vê-la inteiramente aberta. Nesse
quarto havia vários móveis e ele foi entrando cautelosamente para me procurar.
Era
a minha oportunidade de escapar. O corredor estava vazio e eu, sabendo que o
homem havia entrado no quarto, disparei em direção à porta da sala. Minhas
pernas, trêmulas, não respondiam aos meus estímulos como em outras situações.
Cambaleei e escorreguei em meu próprio sangue deixado no piso do corredor.
Desesperado
e desnorteado, fui levantando e procurando a direção da saída, quando vi a
marreta passar zunindo meu ouvido e estourar o reboco da parede ao meu lado. Fui
patinando no piso molhado da sala e desviando, sabe Deus como, das marretadas
disferidas pelo homem que tentava loucamente estourar meu crânio. Num daqueles reflexos
animais que só conhecemos quando precisamos lutar com todas as forças pela
sobrevivência, eu consegui passar pela porta e empurrar a grade sobre o homem,
atrasando-o.
Corri
sob a forte tempestade rumo ao portão. Sem olhar para trás. No caminho,
encontrei os meus quatro cães, todos com suas cabeças quebradas e seus miolos
sendo levados pela água da chuva.











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