Caçoavam dele, pobre louco,
Cuja sanidade foi-se embora aos poucos
E os delírios, tão presentes,
Instigavam-no às aventuras
Decorrentes das estórias
Dos cavaleiros andantes,
Dos dias de glória
Que já houvera antes

Seu cavalo, Rocinante
Era pele e osso
Simplesmente
Cavalo dado não se olha os dentes
Pobre cavaleiro andante
E também seu ajudante

De que vale a realeza
E a fortuna inesgotável
Se não carrega consigo a nobreza
E o caráter admirável?
De que vale a fama 
E a vaidade
Se por quem te ama
Não dispõe sua lealdade?

Louco, era com certeza
E mais louco ainda 
Foi quem, com clareza,
Se desfez da beleza 
Das virtudes sóbrias
Do velho aventureiro
De tamanha nobreza

Pobre cavaleiro andante
Que fora bom
Apenas bom
Profundamente bom
Antes,
Durante
E depois da loucura.




Há alguns anos, Bragança teve como prefeito um cidadão chamado João Mota. Homem xucro, de formação incompleta, mas de uma lábia sem igual. Governou esta cidade por quatro anos, tempo suficiente para ser imortalizado pelo povo por causa de suas trapalhadas como figura pública. Uma dessas pérolas aconteceu na inauguração da estrada para a praia de Ajuruteua.
Era uma manhã ensolarada, o palanque estava montado no quilômetro zero da estrada, onde em instantes aconteceria a cerimônia de inauguração. Vereadores, deputados e até o governador do Estado estavam presentes com seus ternos de grife e suas gravatas empoleiradas e o povo, pouco mais de mil pessoas, se aglomerava para ouvir com atenção o discurso do prefeito e vê-lo cortar a faixa de inauguração.
João Mota, com sua calça jeans desbotada e uma camisa listrada, pegou o microfone e começou seu discurso:

— Meus povos e minhas povas, a estrada de Ajuruteua está fazida...

— Fazida, não. Feita! — corrigiu alguém do meio da multidão.

E sem se importar com a correção o prefeito continuou.

— Feita ou fazida, a palavra está dizida! Cadê a tizôra?



Das mãos, cheias de calos,
Floresce a história do seu trabalho
Escorre-lhe o suor sagrado
Dos dias talhados no tempo

No rosto, cheio de marcas,
Sinais das batalhas de outrora
Não como estas de agora
Que a compreensão ignora
Mas como já fizera antes
Nos tempos de tantas amantes

Da voz, já quase inaudível,
Ouve-se palavras amigas
Embora um tanto sofridas
Pelas quedas da vida

No peito, cheio de compaixão,
Um coração ressoa vacilante
Não como ressoava antes
Nos tempos de tantas amantes
Mas como ressoa agora
O coração vacilante.


Na escuridão
Vivo à beira do precipício
Sob o vício, pois senão,
De me lançar à queda

Na escuridão
Giro dentro de mim
Em hélices, sendo então,
Um turbilhão de nós

Na escuridão
Danço no ritmo da morte,
A sorte que faço, são,
Da ilusão de minha existência

Na escuridão
Só você ouve a canção
Nesse silêncio, caótico
O ócio desse coração

Na escuridão
Me faço
Me crio
Copio
De ti
A moldar em mim

Na escuridão
O sangue da minha carne poeta,
Discreta como sempre foi,
Ameaça em versos perversos
Sutis, confesso

Na escuridão
Esboço o esboço de mim
Para, enfim, 
Encontrar a ti
No berço dessa solidão.


O frio torturava cada centímetro do corpo do garoto e só o que lhe confortava era a lua cheia que iluminava seu caminho sem rumo por entre vastas plantações de milho. Era cerca de uma hora da madrugada e Edgar já estava bem longe das terras dos Martinez. Se havia feito a escolha certa, fugindo daquele jeito, isso não sabia, mas o medo da reação daquelas pessoas foi tão intenso que naquele momento o menino não conseguiu pensar em outra coisa. Pegou seu livro e um casaco de lã, que provavelmente pertencia à Meddilyn, e pulou a janela sem ao menos olhar para trás.
Eles poderiam ter me adotado — pensava o garoto enquanto caminhava vagarosamente pelo milharal — mas também poderiam me matar, como tentou fazer minha mãe.
Edgar já conhecia seu passado. Júlio, algumas semanas antes de sua morte, chamou seu filho no quarto e contou-lhe tudo, inclusive que sua mãe havia tentado matá-lo e o que os aldeões de Santa Brígida fizeram com ela. Foi um choque para ele saber de tudo aquilo, não por ter perdido a mãe, pois sequer sabia o que era ter uma mãe, mas por saber que ele poderia ter morrido simplesmente porque nasceu com os olhos vermelhos. Que mal há nisso? — pensou.
O casaco de Meddilyn não era suficiente para manter seu corpo aquecido, a fome já lhe assolava e o cansaço fazia-lhe vacilar as pernas, mas Edgar não parou. Seguiu andando por toda a noite. Atravessou o milharal, depois uma plantação de soja, uma pequena vila e mais adiante um pasto onde vacas e cabras repousavam sob uma enorme mangueira. Toda aquela região era formada por morros e vales maravilhosos que a escuridão não o permitia contemplar.
Faltava menos de uma hora para o nascer do sol e Edgar já não aguentava mais. Chegara ao seu limite. De repente, sua visão começou a escurecer e suas pernas fraquejaram. Apoiou-se na cerca de madeira e tentou recuperar o domínio sobre seu corpo. Ao longe, uma pequena capela que se mostrava à beira da estrada foi a última coisa que o menino conseguiu enxergar antes de desmaiar.



Estava escuro; dezenas de pessoas enraivecidas com tochas acesas nas mãos; uma casa na colina; muitas cabras correndo; o fogo queimando a casa; entrou no quarto em chamas; duas camas, seu pai em uma e uma mulher em outra. Meu filho! — ela dizia; duas parteiras passam correndo; cabras passam correndo; seu pai agoniza na cama ao lado; as chamas se aproximam; seus pés estão presos; desespero; dor; agonia; não consegue se mover; a mulher grita por ele enquanto o fogo a queima; seu pai senta-se na cama: Adeus, Edgar!
Abriu os olhos, assustado. Fora um pesadelo, apenas um pesadelo — falou a si mesmo. Passou a mão no rosto suado e ainda tentando livrar-se da sonolência reparou que estava num lugar totalmente desconhecido. Um quanto pequeno e úmido, com paredes de pedra, uma cama dura e uma mesinha de canto aonde se encontrava seu livro. Não havia sequer uma janela. Suas roupas haviam sido trocadas por um macacão azul, feito de um tecido grosso extremamente desconfortável. Levantou-se e tentou sair para saber onde estava, mas o quarto estava trancado por fora. Estou preso — pensou o menino ainda confuso.
Não sabia onde estava e nem como fora parar ali, mas de certa forma sentia-se aliviado por ter escapado do frio que fazia lá fora. Pensou em chamar por alguém e pedir comida, mas, receoso, preferiu sentar-se na cama e aguardar.

♠ ♠ ♠

— O encontrei na estrada, próximo à minha capela, e o trouxe, pois sei que vocês cuidam de menores desamparados.
— Não se preocupe, Frei Alberto. O senhor fez muito bem. O Orfanato São Cristóvão é a melhor instituição de amparo a menores desabrigados dessa região — disse a diretora do orfanato ao sacerdote.
— Não sei de onde veio o garoto — acrescentou o Frei — mas provavelmente desmaiou de fome e cansaço, coitado.
— Já o agasalhamos e daqui a pouco irei levar sua refeição. Só estou deixando que descanse um pouco mais. Assim que ele acordar irei pessoalmente interrogá-lo para saber seu nome, se tem família e de onde veio. Por hora, peço para que fique tranquilo, o garoto está em boas mãos.

Frei Alberto saía para ordenar algumas vacas quando encontrou Edgar caído na beira da estrada. Sem saber o que fazer, colocou-o numa carroça puxada por um boi e o levou até Santa Brígida, a pouco mais de seis quilômetros ao sul de sua capela. O Orfanato São Cristóvão foi o primeiro lugar que lhe veio à cabeça para pedir por socorro, e à princípio, fora uma boa escolha, pois assim que chegou duas pessoas que trabalhavam lá o atenderam rapidamente e trataram de oferecer os cuidados necessários ao garoto. No entanto, depois de passar toda aquela euforia da chegada, Alberto já não olhava com a mesma confiança para as dependências do orfanato. O prédio era grande, devia ter mais de trinta quartos e mais algumas salas usadas para ensino e refeitório, tudo cercado por um muro alto de pedra. Em alguns corredores que passou, Frei Alberto pôde ver rapidamente algumas crianças escondidas atrás de colunas e janelas, como se estivessem com medo de alguma coisa e embora a elegante Olga Bulamarque tentasse convencê-lo que ali era o melhor lugar para o menino, alguma coisa parecia lhe dizer o contrário.

— O senhor já está liberado para ir, Frei. Enviaremos notícias sobre o garoto o mais breve possível e o senhor pode visitá-lo quando quiser — disse Olga, já encaminhando o sacerdote para a porta de saída.
— Deus esteja com você, minha senhora. Logo virei visitar o menino, me informe se houver qualquer problema com ele — disse Frei Alberto ainda desconfiado da credibilidade daquela instituição.

Olga Bulamarque mal esperou que o Frei dobrasse a esquina e encaminhou-se a passadas rápidas para o quarto do recém-chegado.

♠ ♠ ♠

Edgar já não aguentava mais. Nunca havia sentido tanta fome em sua vida. Parecia-lhe que algo corroía suas entranhas. Sem pensar nas consequências ou na reação de quem o visse, começou a bater na porta e chamar por qualquer pessoa que pudesse ajudá-lo. Três batidas foram o suficiente. A porta se abriu e Edgar fechou rapidamente seus olhos, ainda conseguindo ver brevemente a fisionomia da mulher alta e magra, com cabelos grisalhos e olhos fundos cravados na face. Entretanto, o que mais apavorou o garoto foi o que o dom de seus olhos lhe permitiu ver: uma aura rubro-negra, que denunciava a personalidade perturbadora daquela mulher, sua falta de caráter e os tantos erros já cometidos por ela. Algo que Edgar jamais havia visto em qualquer outra pessoa.

— Ora, ora! Vejo que nosso novo hóspede já acordou — disse Olga num tom de voz extremamente sarcástico — Eu me chamo Olga Bulamarque e sou a diretora desse orfanato. A partir de hoje você morará aqui e obedecerá as regras dessa instituição.

Edgar se manteve em pé, parado de frente para a diretora que o fitou dos pés à cabeça durante alguns segundos. Ele estava nervoso e amedrontado, e mesmo querendo pedir a ela um pouco de comida, preferiu calar-se.

— Qual é o seu nome, garoto?
— Edgar Salazar, senhora — respondeu num tom de voz quase inaudível.
— Olhe para mim quando fala, menino!

O suor começou a escorrer em seu rosto e o medo fazia seus músculos tremerem.

— Olhe para mim quando fala, menino! — repetiu a diretora já num tom de voz bem mais severo.

  Edgar buscou em si toda a coragem que tinha e já se preparando para a pior das reações, abriu cautelosamente seus olhos. A diretora, no susto, soltou um grito e deu alguns passos para traz, tropeçando em seus próprios pés e caindo sentada no corredor. Ele ainda pensou em ajudar a senhora, mas suas pernas estavam paralisadas de medo e continuou imóvel, assistindo a mulher se levantar vagarosamente.

— Santo Deus, o que é você?! — disse já se aproximando do menino.

Olga chegou bem perto de Edgar e começou a examinar seus olhos.

— Que ironia, seu demoniozinho. Ter sido trazido aqui por um homem de Deus.
— Não sou um demônio, senh...

Antes que Edgar pudesse terminar de falar a diretora o atingiu com um violento golpe no rosto que o fez cair.

— Não me dirija a palavra, criatura! A menos que eu peça. — advertiu Olga severamente — Não sei de onde você veio e nem tenho interesse em saber. Aqui nesse orfanato todos seguem as regras, inclusive você. A primeira regra você acabou de conhecer: nunca fale sem permissão. Só há uma refeição por dia, servida às dez da manhã. Sua roupa, a partir de hoje é esse macacão. Lave-o se quiser andar limpo. Fará todas as tarefas que forem solicitadas. Há aulas de aritmética e discurso aos sábados, mas não creio que você poderá participar e, por fim, reze para que os outros internos gostem de você.

Ainda meio tonto do golpe que o derrubou, Edgar viu a porta se fechando à sua frente e novamente se viu trancado e sozinho naquele quarto de pedra. Sentiu, então, uma enorme vontade de chorar, mas não o fez. Sabia que seria inútil; lágrimas não resolveria sua situação. Levantou-se, pegou seu livro e o abriu em uma página aleatória, como sempre costumava fazer.

“... o fim dessa batalha sangrenta. À minha frente vi muitos amigos, todos mortos. E eu? Vivo, infelizmente. Os dias se passaram e continuei lá no campo de batalha, ferido, esperando por socorro durante dias. Eu era minha única companhia, além dos cadáveres. Quando aprendemos a viver sozinhos, passamos a ser companheiros de nós mesmos. Somos nossos melhores amigos, rimos sós, ponderamos nossas próprias atitudes. Somos, muitas vezes, duais na individualidade e individuais na dualidade”.

Por algum tempo Edgar ficou tentando entender o que o protagonista do livro queria dizer com “duais na individualidade e individuais na dualidade”, mas logo desistiu, deitou-se na cama e ficou pensando no pesadelo que havia tido, em seu pai e também na vida tranquila que eles tinham há algum tempo atrás. Em meio a tantos pensamentos e uma fome que já nem o perturbava mais, Edgar lentamente adormeceu.



Pagamos um preço muito caro
E um salário que jamais veremos
Pagamos de otários
Os ternos que nunca teremos

Eles brincam de legislar
As leis que os favorecem
Brincam de governar
Seus próprios interesses
Brincam com a nossa cara!
(E a brincadeira não para)

Talvez não fosse tão caro:
vergonha,
ignorância,
descaso
É o preço que eu pago
Para usar esse nariz de palhaço
Pra fazerem o que eu não faço
É o preço que eu pago

Aliás,
Eu não pago sozinho
E nunca vou pagar
Pago eu e você
Os ternos que nunca teremos
Os salários que nunca veremos
Pagamos pra sustentar
A incompetência que todos nós vemos
Os corruptos que um dia seremos
E as putas que vamos gozar

Mas talvez não seja tão caro
Ainda podemos pagar
polícia,
judiciário,
imprensa
E o que pudermos comprar

Pagamos de otários
Pagamos salários
Pagamos porque queremos pagar.


















Exibem-se sobre pedestais de arrogância
Intelectuais de merda!
Apropriam-se da palavra alheia
Do pensamento alheio
Do erro alheio
E o que puder ser apropriado 

Eximem-se do bom senso
Arrogantes egocêntricos!
Ignoram minhas palavras
Meus pensamentos
Meus acertos
E o que puder ser ignorado

Exilam-se no planeta dos macacos
Primatas cegos!
Desprovidos de humildade
Denominam-se os senhores dos gorilas
Quando, na verdade,
Não passam de chipanzés.




Dor que vai matando aos poucos
Os loucos dessa pátria amada,
Ingênuos de destinos soltos
Salve, salve, idolatrada
(Que por eles não faz nada)

Dor que os corrói por dentro
As entranhas de sua vil pobreza
A cultura do sofrimento
Em seus pratos sobre a mesa
(Só há tristeza)

Dor de quem vive de circo
E das mazelas da televisão
Dor de quem come do lixo
Pensando no sabor do pão
(Quanta ilusão)

Dor que devora os corpos
Das almas que não tem nome
Dor que os tornam mortos
Na pátria que os consome
(Insana é a dor da fome)


Já passava das onze horas da manhã quando um feixe de luz que adentrava por uma falha no telhado focou o rosto de Edgar e o fez acordar. Estava em um quarto estranho e, durante alguns segundos, buscou em sua memória como havia parado ali. Era um quarto pequeno, como um guarda-roupa e a cama em que estava deitado, apenas. Uma janela circular de vidraça colorida escondia-se atrás de uma cortina vermelha à sua frente e as lajotas do piso lhe chamavam a atenção pelas figuras de cavaleiros montados, brasão da família Martinez. Ao seu lado, uma porta que dava acesso ao banheiro e à frente, próximo da janela, outra porta que levava aos outros cômodos da casa.
A lembrança chegou e com ela a dor. Todo o alicerce que sustentava as colunas de sua vida havia cedido e Edgar se sentia caindo num abismo de insegurança e medo. Uma angústia imensurável dava-lhe um nó na garganta e já sem forças para manter-se forte encostou a cabeça no travesseiro e chorou, descontroladamente, expulsando todo aquele aperto que sentia esmagar seu coração. Por alguns minutos suas lágrimas molharam a fronha do travesseiro, até que não as houvesse mais.
Edgar procurou seu livro no bolso aonde havia colocado, mas não o encontrou. Estava vestindo outras roupas que não eram as suas e o livro estava na cabeceira da cama. Pegou-o e abriu uma página aleatória. Já decidido a se acalmar, leu um pequeno trecho de O homem que tudo sabia:

“... e a tempestade cessou. As árvores estavam destruídas, as casas ao chão, os barcos naufragados e mundo ao avesso. Em meio ao caos, só me restava acreditar que tudo aquilo aconteceu com um único propósito, o de testar minha capacidade de superação.”

O acaso não poderia ter escolhido um trecho melhor para aquele momento. As palavras do homem que tudo sabia deram um novo ânimo para Edgar e confortaram seu espírito. E mesmo que ainda houvesse muita dor, insegurança e medo, ele estava decidido a superar tudo aquilo de alguma maneira.
A porta se abriu de repente e uma menina entrou com uma bandeja nas mãos. Assustado, Edgar fechou os olhos rapidamente e se encolheu contra a cabeceira da cama.

— Não precisa ter medo, vim apenas lhe trazer seu almoço. — disse a menina tentando acalmar o garoto — Me chamo Meddilyn e sou filha única do casal que te trouxe para cá e fomos vizinhos por muito tempo, apesar de não nos conhecermos.

Edgar permaneceu calado e com os olhos fechados.

— Tudo bem se não quer conversar agora. Quando estiver de barriga cheia e mais tranquilo a gente pode conversar e até brincar se você quiser. Vou deixar sua comida aqui no canto da cama, cuidado para não derrubar, senão mamãe me mata. 

Enquanto Meddilyn colocava a bandeja na cama, Edgar abriu os olhos timidamente para enxergá-la.



Ela tinha cabelos longos e cacheados, ruivos como seus olhos, a pele branca como a neve e um rosto muito bonito. Era a primeira mulher jovem que Edgar via. Nunca teve mãe ou irmã, e as poucas mulheres que havia visto em sua vida eram velhas comerciantes que iam ao sítio comprar queijos de seu pai. Nada se comparava a Meddilyn, ela era linda. E o mais importante: tinha aquele espectro invejável de toda criança. A pureza, a bondade, o caráter. Fechou os olhos antes que ela pudesse perceber que estava sendo observada.

♠ ♠ ♠

Durante três dias Edgar permaneceu no quarto, calado e fechando os olhos toda vez que alguém entrava. Recebia a visita do Sr. Martinez e também da sua esposa, mas quem mais ia até o quarto era Meddilyn, para levar comida ou recolher a bandeja.
Na cozinha, longe dos ouvidos do garoto, as conversas eram sempre as mesmas.

— Eu acho que ele é cego. — dizia a Sra. Adelice — Lembram que o Salazar sempre o escondia de todos que iam lá no sítio?
— Mas mamãe, para quê um cego precisa de um livro?
— Isso eu não sei, minha filha. Pode ser apenas uma lembrança de seu pai. — respondeu a Sra. Adelice.
— Não, ele não é cego. — interveio Martinez — Lembro bem que ele olhava para a casa em chamas com muita atenção. E se o Salazar morreu mesmo por causa da peste, como disse o garoto, então de onde veio aquele fogo? Uma pessoa que está definhando na cama não teria forças para atear fogo numa casa, e ele nem tinha razão para fazer isso. Acredito que foi a criança que incendiou sua própria casa.
— Mas por que, marido?
— Não faço ideia. — responde Martinez pensativo.
— Seja como for, não podemos ficar com ele. Os negócios não estão indo muito bem e já nos falta muita coisa. E pelo que vejo, ele requer cuidados que nós não temos condições de oferecer. — disse a Sra. Adelice ao marido.
— Mas mamãe, e o que será dele?! Não tem para onde ir. — interferiu a pequena Meddilyn, preocupada.
— Eu sei que as coisas não vão bem, Adelice. Esse inverno está castigando as plantações e muitos dos nossos compradores de queijo estão evitando viajar para esse lado do país por causa desse maldito surto de peste. Mas não quero ter que entregar essa criança à própria sorte. É uma imensa crueldade!
— Eu sei, marido. Mas que opção nós temos? Se continuarmos a alimentar esse garoto, logo faltará para Meddilyn. É isso que você quer?
— Claro que não.

Por alguns minutos o senhor e a senhora Martinez ficaram calados, sentados à mesa circular, refletindo sobre o que fazer com o garoto lá do quarto. Meddilyn, no entanto, foi lá recolher a bandeja que deixara no almoço.

— Olá meu amigo. Vou te chamar de Salazar, já que você nunca disse seu nome. Tudo bem? — falou a menina para o garoto sentado na beira da cama com seu livro no colo — Estão conversando sobre você lá na cozinha e temo que não possa ficar conosco por muito mais tempo. Papai e mamãe estão preocupados com você, mas as coisas não estão fáceis para nós. Entende? Espero que tomem a melhor decisão possível.

Edgar permanecia quieto e com seus olhos fechados. Como sempre.

— Minha mãe acha que você é cego. Você é cego? Se for, por que precisa desse livro? Ai, ai. Nem sei por que te faço essas perguntas, você nunca responde. Tenho que ir agora, às oito trago sua janta — disse Meddilyn já voltando-se para a porta de saída.

— Meu nome é Edgar.

A menina sentiu seus pelos arrepiarem ao ouvir pela primeira vez a voz do garoto. Quando se virou, Edgar estava de pé, olhando para ela.

— Oh, meu Deus! — disse euforicamente a garota tentando conter seu pavor — Que olhos são esses?!
— Por favor, não sinta medo. Eu nasci assim — falou Edgar fazendo sinal com as mãos para que ela não fizesse muito barulho.

Meddilyn permaneceu imóvel por alguns segundos até tomar coragem e se aproximar lentamente do garoto.

— Parecem que estão pegando fogo — descreveu a menina inocentemente.
— Eu sei. Meu pai sempre me disse que eles são únicos. E acredito que sejam. Mas não conte isso par...
— Espere um pouco, já eu volto. — interrompeu a menina antes de sair correndo pela porta.

Na cozinha, o casal Martinez ainda conversava sobre Edgar.

— É uma decisão muito complicada e precisamos escolher o que for melhor para nós e para o garoto — disse Martinez à sua esposa.
— Poderíamos mandá-lo para o orfanato lá de Santa Brígida. — sugeriu a mulher.
— Jamais! Ouvi falar de muitos casos de maus tratos aos órfãos de lá. E não quero que o filho do Salazar pass...
— Mamãe! Papai! Venham ver isso. Ele falou e também abriu os olhos! — disse a garota de cabelos dourados interrompendo  a conversa dos pais — Ele me disse que se chama Edgar e vocês não vão acreditar no que vão ver. Ele tem os olhos vermelhos!

Eufórica, a menina agarrou-se nas mãos de seus pais e os levou até o quarto de Edgar. Martinez e sua esposa estavam meio confusos com todo aquele estardalhaço, afinal, o que Meddilyn queria dizer com “olhos vermelhos”? A porta se abriu e para a surpresa de todos, inclusive da menina, o quarto estava absolutamente vazio. Meddilyn debruçou-se no chão para olhar debaixo da cama, abriu o guarda-roupa, mas nada. Martinez verificou então que o trinco da janela circular estava quebrado e todos tiveram a certeza de que o garoto havia fugido.
Durante horas a família Martinez e outras famílias vizinhas procuraram por Edgar pelas redondezas, mas em vão, o garoto simplesmente havia desaparecido e ali, naquelas terras, tudo que restou do menino de olhos vermelhos foram as estórias que as pessoas passaram a contar sobre ele, baseadas no que Meddilyn relatou.
Alguns diziam que ele podia queimar as coisas com seus olhos e que havia queimado sua própria casa com seu pai dentro. Outros contavam que Edgar havia morrido no incêndio junto com seu pai e que, na verdade, o que estava na casa dos Martinez era apenas o seu espírito à procura de paz. E tinha até quem acreditava que Edgar era o próprio demônio, surgido das chamas da casa de seu pai para trazer maldade ao mundo.  
E assim, entre a história e as estórias contadas, Edgar foi imortalizado pelo povo daquela região como o menino dos olhos vermelhos.






Do sonho, o sono
Da beleza, o pesadelo
Do amor, o abandono
Do eterno, o passageiro
Do sorriso, o choro
Do sereno, o desespero
Do tempero, o insosso 
Da paixão, o anseio
Da comida, o gosto
Da metade, o inteiro
Do trabalho, o esforço
De março à fevereiro.






Querida, querida
A dor da partida
Perfura a ferida
Por tanto temida
Saudade doída
Cabeça erguida
Mente distraída
A alma traída
No peito a ferida
Que faço da vida
Querida, querida?






Imagem: Kazimir Malevich, O Amolador de Facas, 1912.


O suor escorre-me à face
Trêmula de puro medo
O amolador afia a faca 
Nos limites da falha
Que guarda em segredo

No esmeril do silêncio
Uma palavra ecoa 
Da carne que fatia
Da lâmina que penetra
Do sangue que voa

Fio de aço em meu peito
Feito brasa na alma
E não há nada que dê jeito 
Que desfaça o feito
Dessa triste valsa

E dança o amolador de facas
A sonora música da morte
Para a carne que ele fatia
Para a vida que des(a)fia
Brinca com a própria sorte.




   Fogo é estado de mudança
   Que torna da matéria, cinzas
   Para que brote dali esperança
   Que aquece o coração apaixonado
   E põe fim a qualquer intolerância
   Que incendeia a alma enraivecida
   Ou queima a raiva da lembrança
   Que forja as espadas da guerra
   E move os passos da dança
   Fogo é sentimento
   Amor, saudade, paixão
   Mas lamento
   Que também seja a destruição
   É o fim
   O recomeço
   A salvação.




Edgar acordou na madrugada e viu-se deitado sobre o gélido cadáver de seu pai. Não havia mais lágrimas, somente uma profunda dor irreparável e o medo da solidão. Júlio Salazar não foi um homem qualquer, ele era um herói, que salvou sua vida e o educou e merecia um fim digno de seus feitos, assim como o grande Dom Félix de Bocarta, cavaleiro lendário e protagonista de muitas das estórias ouvidas por Edgar, que após muitos anos de batalha acabou sendo gravemente ferido e preferiu atear fogo em si próprio a deixar que seu povo o visse apodrecer e ser devorado pelos vermes nos campos de guerra.
Sem pressa, Edgar amontoou vários móveis, roupas e livros ao redor da cama de seu pai. Com exceção do seu livro predileto, O homem que tudo sabia. Organizou tudo, formando uma grande pilha de coisas em cujo centro estava o maior guerreiro que ele já havia conhecido. Espalhou palha seca por toda a estrutura e com uma lamparina acendeu o fim dos dias de Júlio Salazar.
Por alguns minutos o garoto ficou no quarto assistindo as chamas devorarem os tão preciosos livros, as roupas e tudo aquilo que Júlio levou anos para conquistar. As estórias não seriam mais contadas, as cabras não seriam mais cuidadas, as plantações morreriam e morreriam também as hortaliças e as frutíferas, mas Júlio Salazar nunca estaria morto. Não para Edgar. E lembrando-se da velha estória de Dom Félix de Bocarta, o menino dos olhos vermelhos cantou para seu pai a mesma canção cantada ao cavaleiro pelo seu melhor amigo e companheiro de muitas batalhas.

Vá em paz, guerreiro de Bocarta
Sua espada muito nos orgulha
Sua história será sempre cantada
Às crianças que nos esperam
Vá em paz, herói de nossa terra
Seu escudo será para sempre guardado
Que seu sangue, derramado nesta guerra
Para sempre seja louvado.

— Descanse em paz, meu pai — disse Edgar já sendo expulso do quarto pelo forte calor das chamas.

♠ ♠ ♠

Mesmo na madrugada, as enormes labaredas de fogo que consumiam a casa por completo chamaram a atenção de alguns vizinhos que, em minutos, chegaram à propriedade dos Salazar para verificarem o que estava acontecendo. Os quatro primeiros que chegaram foram Martinez e sua esposa Adelice, Ernest, que é o filho mais velho da família Winterst e o caseiro dos Brandebuks, chamado Vicent Pugas.
Ao chegarem ao portão, a cena era de um garoto postado de pé no gramado, olhando para a casa em chamas. As quatro pessoas que estavam ali sabiam que Júlio Salazar tinha um filho, mas deles, só o velho Martinez já havia visto o garoto, e de longe. Por alguns segundos ficaram parados observando o menino ajoelhar-se em silêncio, mas logo todos correram para socorrê-lo.
Edgar pensava em como seria sua vida a partir daquele momento. Ainda era uma criança e mesmo assistindo a morte de seu pai ainda era difícil para ele acreditar que estava completamente só. As últimas palavras de seu pai ainda ecoavam em sua cabeça e o faziam temer o futuro que lhe esperava. Se ao menos eu tivesse uma mãe — pensou. Mas não tinha ninguém. Nem mãe, nem tia, nem sequer um amigo que pudesse estar com ele naquele momento de dor.


As vigas de madeira começavam a cair e aos poucos a casa ia desabando quando de repente Edgar sente um homem agarrar-lhe.

— O que aconteceu, garoto? Você está bem? E seu pai? — disse Vicent Pugas, que foi o primeiro a chegar ao menino.

Edgar fechou os olhos e manteve a cabeça baixa. Tinha medo que se assustassem e o deixassem novamente sozinho.

— Responda menino. Cadê seu pai? O que aconteceu? — insistiu o caseiro.

Clemente Martinez e sua esposa gritavam pelo nome de Júlio Salazar, mas não obtinham resposta e enquanto isso Ernest Winterst acompanhava tudo calado. Então todos se juntaram ao redor de Edgar e começaram pressionar-lhe para que falasse alguma coisa. Ele estava com medo e nem sequer tinha coragem de abrir os olhos para enxergar quem tentava o ajudar.

— Fique calmo, garoto. Não estamos aqui para lhe fazer mal. Só queremos saber onde está seu pai para que possamos o ajudar. Confie em nós — falou Martinez.
O menino reconheceu a voz do homem que ajudara seu pai com as cabras e bodes. Sempre que Martinez ia conversar com Júlio, Edgar se escondia para ouvir. É o criador de cabras, eu gosto dele — pensou.

— A peste matou meu pai e agora ele queima naquela casa, senhor.

Todos ficaram chocados com a notícia da morte de Júlio Salazar e ao mesmo tempo aliviados porque o garoto havia falado e tudo parecia estar bem com ele.

— Lamentamos muito. Seu pai, como todos os Salazar que já conheci, era um grande homem. Forte e trabalhador. — disse Martinez repousando as mãos sobre os ombros de Edgar — Agora venha conosco. Eu e minha esposa te levaremos para nossa casa até que saibamos como resolver essa situação.

Edgar sabia que não tinha para onde ir e o Sr. Martinez era um homem confiável, como ele mesmo já havia enxergado. No entanto, tinha medo que quando abrisse os olhos a reação daquele homem não fosse a mesma. Ainda assim, concordou fazendo um gesto com a cabeça e Martinez o pegou no colo e se dirigiu à sua casa com sua mulher ao lado, esgueirando-se entre outras pessoas que já chegavam por ali.
Hernest e Vicent chegaram a comentar um no ouvido do outro o fato do garoto não ter aberto os olhos em nenhum momento, mas concluíram que ele devia estar evitando olhar para a casa onde o corpo de seu pai queimava ou que era uma reação traumática natural para uma criança naquela situação.
Embalado pelo cansaço, o sofrimento e o balanço das passadas do velho Martinez, Edgar foi lentamente adormecendo no aconchego daquele colo. Em seu pensamento, a voz de seu pai foi gradualmente sumindo, ao passo que ainda pôde distinguir a última frase: “Sempre acreditei em você e sempre acreditarei”.


© 2014 O Poeta e a Madrugada Traduzido Por: Girotto Brito - Designed By Girotto Brito.