Júlio caminhou por várias horas na escuridão, guiando-se apenas pelas estrelas e a fraca claridade fornecida pela lua minguante. Seus ossos doíam por causa do intenso frio daquele inverno e os agasalhos que havia levado estavam sendo usados para aquecer o bebê. Subiu e desceu colinas por entre plantações de trigo e arroz, atravessou algumas pontes sobre riachos e até uma grande ponte de pedra que levava à outra margem do Rio de Cernes. Toda aquela região de Tereus era de uma beleza esplêndida, tema de muitas canções, mas naquela escuridão o cenário se tornara melancólico e assustador aos olhos de Júlio Salazar.
Raios de luz já apontavam no horizonte quando chegaram ao sítio de seu falecido irmão, Walfredo Salazar. Um homem alto e elegante, de pele amorenada que, quando vivo, alegrava toda a família com suas extrovertidas brincadeiras e irreverente personalidade. Era um dançarino nato e um conquistador de tirar o chapéu, mas abusou de sua autoconfiança e acabou perdendo sua vida numa corrida de cavalos nas montanhas do oeste.
A propriedade estava completamente abandonada. As plantações de milho e soja, muito produtivas em outros tempos, já não existiam mais e o capim tomara de conta de quase tudo. Na parte mais baixa do vale, à margem da lagoa, encontrava-se a velha casa de seu irmão, nitidamente tomada pela sujeira, mofo e algumas espécies de plantas trepadeiras. Uma casa bonita, com três suítes, sala, copa, cozinha, biblioteca e uma varanda na frente e em um dos lados, embora precisasse de uma boa reforma.

— Este será nosso novo lar, Edgar. Não parece tão aconchegante, a princípio, mas em alguns dias te prometo que estará bem melhor. Aguarde aqui enquanto busco água na lagoa para limpar um cômodo para você. — disse o homem colocando seu filho num velho e empoeirado cesto de palha abandonado na varanda.

Em pouco mais de uma hora, Júlio já havia limpado a copa, acendido a lareira e construído uma pequena cama improvisada com madeira, palha seca e um lençol feito de retalhos que trouxera de sua antiga casa.  Depois, invadiu uma propriedade vizinha e roubou de lá uma cabra para que pudesse usar o leite para amamentar o pequeno Edgar. Não era de seu feitio roubar pessoas, mas Júlio não queria ter que pedir, pois estava evitando que soubessem que a casa dos Salazar votara a ser ocupada.
Em algumas semanas, a casa já estava totalmente limpa e Júlio já havia até construído de forma um tanto quanto artesanal alguns móveis de madeira, como cadeiras, uma mesa e uma cama mais confortável do que aquela improvisada. Também roçou, arou e plantou sementes variadas em um pequeno lote próximo da casa, a fim de poder colher dali a alguns meses uma seleção de frutas. Aos poucos foi melhorando as condições de sua propriedade, fazendo reparos na casa, consertando cercas, roçando, arando e plantando.
Dois meses após sua chegada, Júlio recebeu sua primeira visita. O velho criador de cabras, vizinho de sua propriedade e dono da cabra que roubara, percebeu a fumaça saindo da chaminé de sua casa e resolveu verificar quem era o novo vizinho.

— Oooh! Bom dia, vizinho. Vi uma fumaça saindo aí e decidi verificar se o velho Walfredo Salazar havia ressuscitado. — disse o criador de cabras aproximando-se da varanda — Me chamo Clemente Martinez e moro logo ali depois da lagoa. Muito prazer.

Júlio não havia percebido a aproximação do visitante e ficou surpreso com a chegada repentina daquele homem baixo e careca, de aparência tranquila e voz fina. Percebeu então que a cabra roubada estava presa à coluna da varanda e que o velho a examinava. Ele era o dono — pensou e se sentiu nitidamente desconfortável com aquela situação.

— Bom dia, Sr. Martinez. Sou irmão do antigo dono desta propriedade e me chamo Júlio Salazar. Mudei-me para cá há dois meses com meu filho, logo após a morte de minha esposa e estou recomeçando minha vida. Se houver alguma coisa que eu possa ajudar...
— Não, vizinho. Na verdade, pelo que vejo estás precisando mais de ajuda do que eu. Em dois meses conseguistes fazer tudo isso com essa propriedade, é sinal que tens trabalhado muito. — disse Martinez ainda examinando discretamente sua antiga cabra.
— Cheguei aqui com meu filho trazendo apenas a roupa do corpo e alguns utensílios. Aos poucos estou conseguindo manter a mim e meu filho através de frutas que colho na mata, animais que caço e também o leite dessa cabra, que sustenta meu menino.

O velho Martinez ficou em silêncio durante alguns segundos, depois se voltou na direção de suas terras e começou a andar.
 
— Você me parece ser um bom homem, Salazar. Assim como seu irmão. Amanhã venho lhe trazer mais algumas cabras e bodes, pois só essa que pegaste em minhas terras não será suficiente para você e seu filho. — disse Martinez ao ir embora.

Júlio ficou surpreso e ao mesmo tempo emocionado. Nesses tempos difíceis não esperava encontrar alguém que lhe estendesse a mão. Alguém que, mesmo sabendo que tinha sido roubado por ele, ainda sim, o ajudaria. E se sentiu, de repente, um homem de muita sorte e abençoado. Terminou então de amassar as frutas em um recipiente de cerâmica, misturou com um pouco de leite e levou para Edgar.
Como prometido, no dia seguinte Martinez foi até a casa de Júlio e o presenteou com nove cabras e dois bodes.

— Sabe fazer queijo, Salazar? — perguntou-lhe o velho criador de cabras.
— Sim, senhor. — respondeu Júlio, se lembrando de que havia aprendido com seus avós quando ainda morava em Bankog, país ao leste de Tereus. — Meus avós faziam ótimos queijos e aprendi com eles.
— Pois bem, acho que isso será o suficiente para você começar a produzir seus queijos e vender na cidade.
— Sou muito grato por tamanha generosidade, senhor. Espero um dia poder retribuí-lo.

Nesse mesmo dia, já quando se ajeitava para dormir ao lado do pequeno menino de olhos vermelhos, Júlio se questionou se Martinez seria generoso da mesma forma se tivesse conhecido Edgar. Teria ele me doado as cabras se soubesse desses olhos? Ou ficaria aterrorizado, como ficaram as parteiras e Anne, e fugiria? — pensou serenamente e logo se deixou seduzir pelo cansaço de um dia inteiro de trabalho e adormeceu.

Apesar do isolamento, Edgar foi crescendo como uma criança normal, sendo educado pelo seu pai e o ajudando nas tarefas diárias do sítio como tirar leite das cabras, plantar, colher frutas e até na produção de queijo.  Aos oito anos, ganhou seu primeiro livro, O homem que tudo sabia, e com o auxílio de seu pai já ensaiava seus primeiros passos na leitura. Nessa idade, sua pele era espantosamente branca, com algumas pequenas pintas marrons espalhadas pelo corpo e seus cabelos formavam grandes cachos loiros que circundavam sua cabeça. Tinha uma imaginação que ultrapassava as barreiras mais lógicas, talvez fruto das mil e uma estórias que seu pai sempre lhe contava antes de dormir, e essa imaginação o fazia viajar em brincadeiras solitárias que simulavam épicas batalhas entre reinos, castelos de gelo esculpidos nas montanhas, dragões cuspidores de fogo e água e outras tantas aventuras que o distraíam o dia inteiro.
Júlio, apesar de reconhecer o quanto seu garoto estava crescido, continuava a mantê-lo isolado, pois tinha medo da reação das pessoas, de ser novamente perseguido ou do trauma que tais reações poderiam causar em seu filho. No entanto, sabia que não poderia escondê-lo por muito mais tempo. Com o crescimento nas vendas de queijo, muitos compradores passaram a ir até o sítio buscar suas encomendas ao invés de esperarem na cidade, pois era mais rápido visto que Júlio não tinha um meio de transporte adequado para levar grandes quantidades de queijo. E isso fez aumentar as chances de alguém ver o pequeno Edgar em algum momento. Por algumas vezes, inclusive, compradores chegaram a ver o garoto, de longe, mas ele timidamente logo se escondeu e não deixou que vissem seus olhos.
Com o tempo, Júlio começou a perceber mudanças de comportamento de seu filho quando via alguma pessoa chegar à propriedade. Na maioria das vezes o pequeno Edgar ficava amedrontado e corria para o seu quarto, mas em alguns casos, ele se sentia absolutamente tranquilo e só se escondia por que Júlio pedia para que o fizesse. Curioso, chegou a perguntar algumas vezes para seu filho o porquê daquela atitude e sempre ouvia a mesma resposta.

— Sei quando são homens bons ou homens maus, papai.

Foi então que lhe passou pela cabeça que aqueles olhos tinham de especial não somente aquela tenebrosa cor sangrenta, mas também um incrível dom. Mesmo não sabendo ao certo como aquilo era possível, após muitas conversas e observações, Júlio deduziu que Edgar podia enxergar o caráter de qualquer pessoa que se pusesse à sua frente, e na forma de um suave espectro de luz, conseguia identificar as verdadeiras intenções desses indivíduos pela cor desse espectro. Era algo assustador, mas ao mesmo tempo, fascinante!




Apesar da descoberta daquele fantástico dom, a vida de pai e filho continuou bastante tranquila, como se aquilo fosse uma coisa absolutamente normal.
O vendedor de queijos já havia conseguido formar suas plantações de soja, aumentado consideravelmente o número de cabras e bodes de sua propriedade e produzia e vendia queijos como nunca, mas o inverno chegou, e juntamente com ele, trouxe a maldita peste que há tempos se espalhara por regiões próximas dali. Durante algumas semanas Júlio ainda manteve suas atividades no sítio, mas seu corpo já não aguentava mais o trabalho e ele foi obrigado a se render. A febre alta e a dor que lhe consumia o corpo não o deixavam mais sair da cama. O pequeno Edgar, completamente livre da doença, cuidava de seu pai e fazia algumas tarefas básicas que lhes permitiam ter o que comer e beber, mas ainda era muito jovem para arcar com as responsabilidades do sítio e ajudar seu pai a livrar-se daquela doença.
Já havia quarenta e cinco dias que Júlio Salazar não trabalhava, uma chuva suave respingava na janela do quarto enquanto Edgar molhava a testa de seu pai com um pano na tentativa de baixar a febre que já havia lhe provocado vários delírios durante o dia. Um relâmpago forte cruzou o céu, clareando o interior do cômodo e revelando a inevitável expressão de sofrimento na face de seu pai. Logo em seguida, o trovão ensurdecedor fez tremer objetos e sentimentos que, confusos, misturavam-se à tentativa de manter as esperanças.
Edgar molhava mais uma vez o pano na bacia com água quando seu pai agarrou-lhe fortemente o braço.

— Edgar, meu filho. Eu sempre acreditei em você e sempre acreditarei. Eu te trouxe para cá para tentar te proteger do mundo lá fora, mas creio que está chegando o dia em que não estarei mais aqui e você terá que aprender a cuidar de si próprio. — disse Júlio olhando fixamente para seu filho — Jamais, em nenhuma hipótese, acredite que esses olhos o torna inferior a qualquer outra pessoa deste mundo. Eles são únicos e não podem ser vistos como uma maldição, mas sim como uma bênção.

Júlio parou de falar por um momento, interrompido por uma tosse que parecia romper-lhe o peito, depois respirou fundo e continuou.

— Logo estará sozinho e coisas ruins podem lhe ocorrer, mas seja forte e corajoso, como todos os Salazar sempre foram e acima de tudo, busque sempre sua liberdade.

Edgar olhava para seu pai naquele estado e não conseguia esconder as lágrimas que saiam dos seus olhos, que naquele momento, pareciam não possuir mais aquele brilho vermelho e flamejante que sempre esteve presente. Como se a chama daquele olhar se apagasse à medida que a vida de seu pai se extinguia.
Lentamente a mão que segurava seu braço foi perdendo as forças e Edgar teve então a certeza que seu pai não acordaria na manhã seguinte.

— Obrigado por tudo, meu pai. Prometo que serei forte como você e sempre te amarei. — disse o garoto debruçando-se sobre o peito de seu pai.

E ali permaneceu deitado, ouvindo as últimas batidas daquele coração tão nobre e corajoso. 


Eu poderia correr por vales e estradas sombrias,
Desertos e florestas jamais exploradas
Enfrentar o calor e o frio por muitos dias 
E adentrar nas aventuras mais arriscadas

Eu poderia desafiar o senhor dos senhores
A um duelo de espadas a fio
E o derrotar ao som dos tambores
E aplausos quentes num dia frio

Eu poderia dar a volta ao mundo
E proclamar meu amor por todos os continentes
Esse amor que julgo tão profundo
E que me acolhe nesse colo quente

Eu poderia me tornar um grande cantor
E compor a mais bela de todas as canções
Uma canção que falasse do amor
E que acalmasse a todos os corações

Eu poderia até me tornar um super herói
Desses que assistimos na televisão
E salvar o planeta mil vezes de qualquer vilão
Mas tudo seria em vão
Pois seu amor por mim, mãe
Nenhum super herói poderia superar
E não há canção no mundo que consiga expressar
Esse amor que há

Eu poderia sim
Fazer isso tudo e muito mais
Mas mesmo assim não seria capaz
De fazer mais do que você fez por mim
Isso, jamais!



Eu planto, cuido e rego cada alma deste mundo
E dou a elas liberdade, para florir ou para murchar
Cultivo todos os sentimentos mais profundos
Oriundos do maior amor que se possa plantar

Não digo se deves florir ou encher-se de espinhos
Se vai seduzir ou ferir quem te fere
Se prefere a dor ou tão pouco o carinho
Ou quem sabe o prazer do toque na pele

Dedico uma vida a cada semente que planto
E me encanto com os frutos que vejo crescer
Com os diferentes sabores que me alegram tanto
E outros tantos que me fazem sofrer

Enfim, só peço que valorizem a boa terra em que os plantei,
O suor que derramei sobre suas raízes
E os incontáveis dias de trabalho que por vós dediquei
Para que um dia eu os possa colher, saudáveis e felizes.


Imagem: http://www.fazendadobrasil.com/plantando-amor



Era uma noite nublada do inverno de 1823, na pequena cidade de Santa Brígida, oeste do país de Tereus. A lua passeava timidamente por entre nuvens enquanto duas parteiras tentavam, exaustivamente, retirar a criança do ventre de sua mãe. O pai permanecia sentado ao lado da lareira observando os gemidos de sacrifício de sua esposa e orando para que tudo terminasse bem e sua criança nascesse com saúde. Lá fora, o vento forte fazia ringir toda a casa de madeira e ameaçava romper as vidraças das janelas, mas isso nem era percebido naquela atmosfera tensa do parto. A lareira, abastecida com alguns poucos gravetos, já não era suficiente para afugentar o frio que adentrava o quarto e vez ou outra ameaçava apagar de vez o fogo que aquecia o ambiente.
Por algum motivo, a criança relutava em vir ao mundo e apesar do frio que fazia o suor escorria nas faces daquelas quatro pessoas. Duas negras, trazidas da cidade vizinha para realizar aquele parto, empurravam e massageavam a barriga de Anne em movimentos síncronos, devidamente treinados pelos anos de experiência, enquanto a senhora de cabelos negros e longos agarrava-se com força à beira da cama e se contorcia inteiramente de dor.
De repente, uma primeira rajada de vento fez tremer toda a casa e, assustadoramente, uma outra estilhaçou a vidraça da janela da cozinha. O vento frio e cortante irrompeu os cômodos da casa e chegou ao quarto em segundos, fazendo com que Júlio corresse para fechar a porta. Juntamente com o ranger da chave ao dar sua primeira volta na fechadura ouviu-se o choro da criança.

— É um menino, senhor. — disse a parteira mais velha, chamada pelo nome de Maria.
— Graças a Deus! — sussurraram os pais do pequeno garoto.
— Deixe-me pegar meu filho.
— Só um minuto, senhor. Precisamos limpá-lo primeiro.

 Júlio Salazar era um homem alto e forte, de cabelos ruivos já meio grisalhos, uma barba imensa que lhe cobria boa parte do rosto e apoiava-se sempre a uma bengala de madeira por conta de um antigo ferimento de guerra. Era conhecido por sua serenidade e paciência inesgotável, típica dos agricultores imigrantes vindos dos países do sul. Conhecera Anne em Santa Brígida há pouco mais de um ano e se casaram ao descobrirem da gravidez inesperada. Ela era filha de comerciantes, mas se tornara órfã ainda quando criança ao ver seus pais morrendo na mesma guerra em que Júlio lutara.

­— Por céus! Nossas preces foram atendidas, Anne. Um menino, como havíamos pedido.

A mulher olhou para o marido com uma reconhecível expressão de dever cumprido, mas nada respondeu. Estava sem forças.
Ao terminar de limpar o pequeno menino, Maria o levou primeiro aos braços da mãe, como era de costume naquela região. Anne agasalhou o bebê em seu colo e lhe deu a benção de boas vindas e chamou seu marido para pegar a criança e dar-lhe o nome, pois no país de Tereus era sempre o pai que nomeava seus filhos. Júlio se levantou da cadeira onde estivera sentado durante boa parte da noite e se aproximava quanto Anne soltou um grito apavorante e lançou a criança longe, que só não caiu no chão porque uma das parteiras o agarrou.

— Demônio, matem-no! Essa criança está possuída. ­— gritava Anne enfurecida e amedrontada.

A parteira que agarrou a criança também ficou repentinamente aterrorizada e aos gritos jogou o bebê no colo do pai, que estava completamente confuso. Foi nesse momento que Júlio entendeu o motivo de todo aquele terror. O garoto tinha olhos cujas córneas eram vermelhas vibrantes, como chamas incendiando seu interior. Algo nunca visto antes por ele ou qualquer outra pessoa deste mundo. Por um momento o homem também se assustou com aqueles olhos tão vermelhos e intensos, mas a criança se acalmou em seus braços como se tivesse ali encontrado alguém de extrema confiança e Júlio olhou para sua esposa deitada na cama e para as parteiras amedrontadas no quanto do quarto e serenamente proclamou em alto e bom som:

— A esta criança, gerada de meu sangue e herdeira de minha linhagem, dou o nome de Edgar Salazar.

Anne ficou descontrolada e, mesmo sem forças, tentava se lançar da cama em direção ao marido.

— Maldito! Essa criança não é deste mundo e eu o amaldiçoo por ter nascido do meu ventre. Ordeno que o mate! — gritava a mãe de Edgar — Você não vê esses olhos? É um demônio, eu sei!
— Cale-se, mulher! Você não sabe o que está falando, é apenas uma criança.

Enquanto o casal discutia a porta se abriu e as duas parteiras fugiram amedrontadas deixando entrar o vento forte que abafara toda aquela gritaria. Júlio fechou a porta, colocou o pequeno Edgar no berço próximo à lareira para que ficasse aquecido e saiu para buscar mais lenha.
Está certo que seus olhos são realmente assustadores, parecem enxergar-me por dentro, mas ele é meu filho, meu sangue e não vou acabar com a vida de uma pobre criança por causa das loucuras de Anne. — pensava Júlio enquanto recolhia o pouco de lenha que estocara no galpão.
Nem dez minutos haviam se passado e, ao ouvir um barulho dentro da casa, Júlio correu para ver o que estava acontecendo e mal pôde acreditar no que presenciou. Sua mulher havia se jogado da cama e com um tesoura na mão arrastava-se em direção ao berço para matar Edgar. Enraivecido, o homem arrancou a tesoura da esposa e a amarrou na cama com pedaços de corda e lençóis.

— Você está louca, completamente louca! Como pode pensar em matar seu próprio filho? Assim que estiver em condições de andar, pegue suas coisas e suma daqui. Nunca será a mãe que meu filho merece. — disse Júlio enquanto amarrava sua esposa.
— Como tem coragem de defender essa coisa? Assim que souberem o que você está fazendo, expulsarão você dessa cidade e acabarão com esse demônio. — gritou enrouquecida a mulher amarrada.

Júlio preferiu não responder, apenas amordaçou sua esposa para que ela não continuasse a gritar palavras de ódio e colocou a criança sobre os seios da mãe para que o amamentasse, mesmo que ela não o quisesse fazer. 
Pela manhã, alguns aldeões e moradores da cidade já rondavam a casa, curiosos para saber se os rumores espalhados pelas parteiras eram verdade. Alguns deles chegaram a bater na porta, mas Júlio se recusou a atender.

— Vão embora, seus tolos! Aqui não há nada que interesse a vocês. — dizia o pai de Edgar tentando mantê-lo protegido.

Ele sabia que Anne estava certa. As pessoas de Santa Brígida eram, em maioria, fanáticos religiosos como ela e que interpretariam aquela característica peculiar da criança com uma aberração, uma ofensa às suas crenças divinas. Os rumores estavam se espalhando e logo grande parte da população estaria ali para forçar-lhe a mostrar o pequeno Edgar, e isso seria seu fim.

— Tenho que fugir. — pensou.

Era o melhor a se fazer. Se queria realmente salvar seu filho teria que abandonar a cidade e procurar algum lugar isolado, onde pudesse criá-lo com maior segurança. Foi aí que Júlio se lembrou de uma propriedade que seu pai havia deixado de herança para seu falecido irmão e que agora se encontrava abandonada. O sítio era pequeno e a cabana precisaria de uma boa reforma e limpeza, mas era o lugar ideal, fora da cidade e dos olhares preconceituosos daquele povo.

— Vamos Edgar, precisamos nos apressar. Logo aqueles vermes estarão aqui para nos aborrecer. — falava com o menino como se ele pudesse entendê-lo.

Anne ainda dormia, exausta, enquanto seu marido juntava algumas roupas e calçados em uma trouxa feita com um cobertor de lã. Num frasco de vidro, Júlio coletou certa quantidade de leite dos seios de sua mulher para alimentar o garoto durante a viagem e, ao perceber o quanto ela estava debilitada, seu coração encheu-se de remorso e tristeza por não poder ficar para cuidar daquela que tanto amou. Retirou então a mordaça e desamarrou sua mulher.

— Perdoe-me meu amor. Não queria que as coisas acabassem assim. Sempre imaginei que seríamos nós três, mas você se deixou cegar por essa crença estúpida e agora eu nada posso fazer para te levar comigo. Tenho certeza que a partir de hoje a vida será bem mais difícil para mim e para você, mas saiba que desejo o melhor em sua nova vida e quem sabe um dia nos vemos novamente e você possa aceitar nosso filho como ele realmente é. Eu sempre te amarei. — sussurrou Júlio emocionado, próximo ao ouvido de Anne na esperança que ela pudesse lhe escutar mesmo dormindo.

Nesse instante, o homem ouviu uma gritaria começando do lado de fora da casa. Eles chegaram — pensou. E uma voz se destacava entre tantas outras.

— Salazar, abra a porta! Estamos sabendo que esconde um demônio e viemos buscá-lo, abra a porta ou teremos que arrombá-la.

Maldito Vladimir Frasão e sua corja de fanáticos! — sussurrou para si mesmo enquanto acomodava o menino em uma espécie de bolsa presa às suas costas.

— Não há demônio nenhum aqui, seus intrometidos! Voltem para suas casas e deixem de perturbar a vida alheia! — respondeu Júlio.
— Viemos aqui para cumprir a vontade do Senhor e só iremos embora depois que mandarmos esse demônio de volta para o buraco de onde saiu. Abra a porta, Salazar! É meu último aviso.

Pela vidraça quebrada, Júlio pôde enxergar um grupo de aproximadamente duzentas pessoas com pedaços de madeira, ferramentas e pedras nas mãos, prontos para invadirem a casa, e à frente, um homem baixo e gordo, com um enorme crucifixo pendurado no pescoço liderava a multidão.

— Vladimir, seu miserável! — pensou enraivecido o pai de Edgar.

Nesse momento, uma pedra quebrou a vidraça da janela do quarto e a multidão começou a avançar. Júlio pegou tudo que conseguia carregar e correu mancando com sua velha bengala para a porta dos fundos, era a única saída. Já do lado de fora, entrou no cafezal e permaneceu correndo sem olhar para trás, subindo a colina em direção ao norte.
O inverno daquele ano castigou muitas plantações, inclusive sua lavoura de café. As folhas secas, queimadas pelas constantes geadas, formavam um cenário único e tenebroso, que parecia uma cascata cinzenta descendo colina abaixo sob um gélido pôr-do-sol.
Do alto da colina, Júlio pôde ouvir quando arrombaram a porta e entraram na casa à sua procura, mas ele e Edgar já estavam escondidos na velha caixa d’água, a uma distância segura onde eles não o encontrariam.
Revoltados por não conseguirem pegar o tal demônio, atearam fogo na casa sem qualquer piedade. E da escuridão, o pai do pequeno Edgar pôde assistir as chamas, tão ardentes quanto os olhos de seu filho, consumirem sua casa e sua esposa, num espetáculo incrivelmente triste que dilacerou completamente o coração daquele pobre homem.




Sabe como é,
Coração torto de dar pena
Que cede à voz tão serena
Da morena do Rio Caeté

Pois é,
Debruçada na janela
Penso, à minha espera
Aquela linda mulher

Que no fundo só quer
Ver o barco descer o rio,
Ver a chuva trazer o frio
E encantar-se com assovio
De pescador do Caeté

Sabe como é, 
Quero todo seu amor pra mim
Assim, porei tão logo um fim 
Aos sentimentos ruins
De um coração que de fato te quer.



Fonte da Imagem: http://pracadobocage.wordpress.com/2012/04/19/da-minha-janela-2/


Poesia é saudade e reencontro
É conto de quem vê o amor bailar
E baila nas palavras a calhar
Desse caminho torto


Coração é lugar de alugar
A qualquer ser que ali se encontre
E se aconchegue nessa fonte
De amor a se revelar

Coitado é do Poeta
Que doma poesia e coração
Sujando suas próprias mãos
de forma tão discreta
Coitado do poeta!




Esta noite será especial
Sushi, edredom, tudo à luz de velas
Com aquelas músicas de luau
E as poesias mais belas 

Vinho tinto, taça de cristal
E as clichês declarações ao pé do ouvido
Que arrepiam a pele de forma natural
E despertam inteiramente nossa libido

Será mesmo uma noite especial
Um violão velho e uma voz rouca
Louca para declarar amor incondicional
Nesta penumbra solta

Que noite será esta!
Meu corpo entrelaçado ao teu 
Será festa
Seu riso misturado ao meu
Um orquestra
Que noite será esta!


Caio e Alberto sempre disputaram tudo, desde crianças. Pela atenção dos pais, por notas mais altas na escola, por brinquedos e até por garotas. Alberto era muito estudioso e na escola sempre se saía melhor que seu irmão, no entanto, Caio herdara a esperteza e o charme de seu pai, e levara vantagem com as garotas. Na infância e adolescência eram constantes as brigas entre os dois irmãos, todos os dias, e por qualquer motivo. Caio sentia-se enciumado por achar que seus pais privilegiavam Alberto, e de certa forma ele não estava errado, seu irmão sempre foi mais bajulado, principalmente pela mãe.
Quando completou dezessete anos, Alberto ganhou uma bolsa de estudo em Madrid e acabou se mudando para a Espanha. Caio, livre de seu irmão rival, terminou apenas o ensino médio e investiu, com a ajuda de seu pai, numa fábrica de móveis.
As coisas deram certo para ambos os irmãos. Dez anos depois, Alberto retorna ao Brasil com seu título de Doutor em Psicologia e encontra seu irmão, Caio, agora um empresário bem sucedido do ramo moveleiro, que o recepciona com a mesma frieza com o qual se despediu anos atrás.
Não havia mais a disputa por carinho dos pais, nem pelos brinquedos, mas um grande problema começou quando Caio soube que seu irmão estava saindo com Mariane, sua ex-namorada e eterno amor de sua vida. Não foi intencional, Alberto não sabia o que havia acontecido entre Mariane e seu irmão, e nem sabia que Caio ainda tentava reconquistá-la. Um mero acaso do destino, que parece ter sido minunciosamente planejado aos fraternos rivais e que desencadeou sentimentos avassaladores de ódio e ciúme em Caio.
Alberto era amaldiçoado por seu irmão, que tentara diversas vezes falar com Mariane, mas foi completamente ignorado. Caio estava acostumado a perder, mas não quando se tratava de mulheres, ele sempre fora o melhor, o mais galanteador, o conquistador, enquanto Alberto sempre fora um tímido desajeitado. E nesse caso, não era uma mulher qualquer, era Mariane, com quem ele planejou casar e ter filhos.
Os sentimentos de inveja, ciúme e ódio foram tomando conta do espírito de Caio, e ele tremia de raiva toda vez que via seu irmão com sua ex-namorada ou quando alguém tocava no assunto. Caio entregou a empresa nas mãos do gerente, já não tinha mais cabeça para o trabalho. Isolou-se em seu apartamento, sozinho, tentando entender o porquê do Alberto, e não ele ter sido escolhido por ela. Não obtivera resposta alguma e então resolver acabar com aquela angústia de uma vez por todas. Se eu não posso ficar com ela, ele também não ficará — pensou.
Durante algumas semanas Caio procurou contatos no mercado de armas ilegais, falou com policiais aposentados, traficantes e pessoas de diversas índoles até encontrar Pablo, um negociante do mercado negro que lhe ofereceu exatamente o que ele estava procurando: Um Fuzil 7,62mm, com silenciador e mira de precisão.  
O plano de Caio era simples. Alugaria um apartamento próximo ao de seu irmão, de modo que pudesse enxergar a janela do seu quarto. Esperaria ele aparecer na janela e o alvejaria com um tiro silencioso e fatal. E aquele irmão que sempre atrapalhou sua vida estaria, enfim, eliminado. E assim ele procedeu, pagou pela arma e a recebeu dias depois. Foi para o seu sítio, aos arredores da cidade, e passou mais cinco dias treinando tiro ao alvo, para que não corresse o risco de errar. Alugou um apartamento com uma localização perfeita para o seu propósito, onde sua janela estava a pouco mais de vinte metros da janela de seu irmão. Tudo o que planejou estava sendo minunciosamente executado.
Chegou o dia. Caio ajustara o Fuzil no tripé, mirado diretamente para a janela do quarto de Alberto. Ele sabia que seu irmão saía do trabalho às oito horas da noite e que sempre vinha direto para casa. A lua cheia facilitava sua visibilidade e faltavam apenas alguns minutos para que tudo fosse resolvido. Ele chegou. Caio pôde ver o carro de seu irmão dobrando a esquina e entrando na garagem do edifício. O suor escorria em sua testa, estava nervoso, mas não iria desistir. Alberto já estava em seu quarto, passou rapidamente pela janela, depois voltou e passou novamente sem camisa.
— Vamos irmãozinho querido. Facilite as coisas para mim. — sussurrou para si mesmo.
Era agora. Alberto parou de pé em frente à janela, na posição perfeita que Caio estava esperando. Puxou o gatilho. O fuzil emitiu um barulho mudo e o vidro da janela do quarto de Alberto se estilhaçou.
— Não! Não! O que você estava fazendo aí! — Caio gritou desesperado.
Assim que puxou o gatilho ele percebeu que Alberto não estava sozinho. Mariane estava lá naquele quarto e quando Caio já não podia fazer nada ela abraçou seu irmão no momento que seu dedo já estava a meio gatilho. Os dois foram atingidos. Seu irmão e sua amada.
Durante alguns segundos Caio permaneceu imóvel, olhando para a janela sem vidro e a mancha de sangue que se formou na parede do quarto de Alberto. O que eu fiz? — pensou.
Ao perceber uma movimentação de pessoas na rua devido aos cacos de vidro que caíram da janela, Caio guardou rapidamente o fuzil e fugiu do apartamento levando consigo as provas daquele crime. Foi para o sítio, enterrou a arma e tentou dormir, mas era impossível. Os sentimentos de culpa e arrependimento estavam perfurando sua consciência. Ele nunca imaginou que pudesse ser capaz de uma atrocidade daquelas, de matar seu próprio irmão a sangue frio.
Alguns sentimentos brotam em nossas vidas como sementes, e isso é inevitável já que nossa consciência é terra fértil para qualquer tipo de semente. Essa fertilidade nos permite cultivar o amor, a esperança, a solidariedade, o respeito, a compreensão e muitas outras plantas que nos oferecem excelentes frutos, mas também nos permite cultivar ervas daninhas, ortigas e outras que só nos trarão prejuízos.
Caio percebeu naquela noite que em toda sua vida só cultivara sentimentos ruins dentro de si. Que a inveja e o ciúme de seu irmão o tornaram um assassino e que nada que ele fizesse poderia reparar a perda do seu irmão, da mulher que amava e nem a vergonha que sentiria de seus pais.
Decidido, levantou-se de sua cama, foi até a mata atrás da casa de campo, desenterrou o fuzil e voltou para o apartamento onde cometera o crime. A rua estava tomada por policiais e repórteres, mas ninguém o viu entrar no edifício ao lado. Já no apartamento, Caio abriu a janela e subiu no parapeito da varanda abraçado ao fuzil. Alguns segundos depois toda a imprensa já estava mirando suas câmeras para ele e os policiais começaram a gritar no autofalante para que não se jogasse.
Caio não tinha mais dúvidas do que iria fazer. Lançou-se do sétimo andar do Edifício Plaza Center, sob o olhar das câmeras e das pessoas que estavam ali testemunhando aquele trágico desfecho.
Na mão esquerda do suicida, a polícia encontrou um pequeno bilhete, escrito em papel de cigarro:
Desculpem-me meus pais, o Alberto era realmente o melhor entre nós, pois soube cultivar em terra árida o que eu não cultivei em terra fértil.

Caio Vasconcelos

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Era exatamente 16:22 quando o ônibus chegou na rodoviária. Fernanda com aquele seu jeito único, desceu do ônibus sorrindo e correndo se jogou no meu peito. Ela continuava linda, como da última vez que eu a havia visto e seu perfume, nem sei como posso descrever: Era maravilhosamente sedutor!
Após nos beijarmos e trocarmos algumas palavras, eu a levei para a casa de sua tia onde ela iria ficar hospedada. Estava muito feliz, mas ao mesmo tempo preocupado, pois tinha marcado com a Jéssica de nos encontrarmos lá em casa e ainda estava pensando o que eu ia dizer para a Fernanda para poder dar a escapada. Depois de um lanche, de termos colocado muitos assuntos em dia e nos curtido bastante, menti dizendo que precisava dar uma saída para resolver alguns assuntos de meu pai, mas que voltava às 20:00 para saírmos. Ela não desconfiou, despediu-se e foi arrumar suas roupas que ainda estavam na mala.
Jéssica já me esperava em casa quando cheguei.
— Oi Jéssica, faz tempo que está me esperando?
— Não, cheguei ainda há pouco. Estava conversando com a sua mãe, ela me fez companhia. Com foi lá no banco?
Minha mãe me olhou com aquela expressão indicativa de que a mentira sobre o banco era de sua autoria.
— Foi tranquilo, apesar da demora em ser atendido.
— Que bom.
— Quem aceita bolo de chocolate? — interrompeu minha mãe.
Comemos o bolo entre conversas e carícias, no entanto, minha consciência estava me atormentando. Por mais que eu amasse a Fernanda e já tivesse uma história com ela, eu sabia que em poucos dias ela retornaria à sua cidade e eu teria que conviver com aquele gélido namoro à distância novamente. Por outro lado, Jéssica era adorável e eu também me identificava de uma maneira especial com ela. Essa situação me acompanhou por três dias, nos quais eu quase enlouqueci desdobrando-me de um canto a outro da cidade e organizando horários para que pudesse atender aos dois amores sem que elas desconfiassem do que eu estava fazendo.
Todo meu esforço foi inútil! No terceiro dia, Fernanda me ligou e disse que queria conversar comigo. Marcamos então em uma praça que sempre frequentávamos quando ela ainda morava em minha cidade. Eu senti em sua voz que era algo sério que ela queria tratar comigo.
Já na praça, sentados no banco olhando um para o outro, ela me questionou:
— Não sou boba, Felipe. Tenho notado suas desculpas para se ausentar. O que está acontecendo? Eu fui uma burra em vir para cá sem ter avisado antes! Viajei mais de mil quilômetros por você e agora que estou aqui tenho que ficar ouvindo desculpas esfarrapadas. Você tem outra, é isso?
Eu não teria coragem de dizer a ela que tinha outra pessoa, pois sabia que isso a magoaria demais. Mas decidi pôr um fim em tudo aquilo, mesmo não tendo certeza se era a melhor coisa a se fazer.
— Não amor, eu não tenho outra pessoa. Mas confesso que realmente estou ausente e que não retribuí a sua visita como você merecia. Desculpe-me por isso.
Lágrimas começaram a caminhar em seu rosto e meu coração doía à medida que soltava as palavras.
— O fato é que todo esse tempo que passamos distante um do outro esfriou nosso relacionamento e hoje nosso namoro não tem mais o mesmo sabor que tinha antes. Amanhã você voltará para sua cidade e eu ficarei aqui sozinho, apenas com a lembrança de um amor que já foi maravilhoso, no passado. Nosso namoro foi muito bonito, mas não há futuro para nós dois.
— Você quer terminar, é isso? — ela sussurrou baixinho.
Respirei fundo antes de responder, pois sabia o quanto sofreríamos com aquela resposta. E disse:
— Sim.
A partir daí ela não disse mais nada, apenas me deu um abraço e um beijo no rosto e saiu me deixando naquele banco de praça com os sentimentos mutilando minha alma. Sentimentos de angústia, tristeza e culpa. Talvez eu não tivesse feito a coisa certa — pensei — mas já estava feito.


Continua...

Acompanhe desde o início:


Se escolhi por ti me encantar e cantar
Cada canto de encanto desses olhos teus
Foi por querer decifrar-te, nêga
E enxergar no vazio desse teu olhar
O que enxerga nos olhares meus

Se escolhi a ti me entregar e ensaiar

Cada passo do compasso dessa nossa canção
Foi por querer ouvir-te, nêga
E sentir a ternura desse teu cantar
Que de certo encanta esse duro coração

Se escolhi a ti me amarrar e ficar

Cada segundo nesse mundo meu e seu
Foi por querer amar-te, nêga
Amar a leveza desse teu falar
E a luxúria desse corpo teu.


Chora a alma
Mas não chora lágrimas 
Não chora páginas 
Nem chora as lástimas vividas
Chora o que outrora cometeu
Que por anos se estendeu
Arrependimento cravado em feridas
Dessa alma que está aos prantos
Que perdeu o seu encanto
E lamenta tanto essa dor sofrida

Pobre alma

Cadê teu sorriso de menina,
de felina amorosa que eu sempre conheci?
Se perdeu na amargura desse amor
que tanto te machucou
e que nada fez por ti?

Chora alma,

Chora sem parar
Que uma hora vai passar
Essa dor que aí está.


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Olá caros leitores, como já devem ter notado eu não costumo publicar divulgações aqui no blog, por uma razão óbvia: Este blog não foi criado para essa finalidade. No entanto, hoje abrirei uma exceção, pois quero dar as boas vindas aos mais novos parceiros deste blog:
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Causos de um aspirante a escritor: Blog fundado pelo querido Tiago P. Haubert, com a finalidade de transcrever sua enérgica jornada de aspirante a escritor. O blog publica periodicamente contos diversos, dicas para escritores e aspirantes e relata os tantos desafios de quem escolhe esse caminho literário. Recomento a todos aqueles que gostam de ler e escrever!
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Mãe, tô escrevendo: Blog da Lêeh Venerando, especializado em resenhas de livros, publicações de textos, promoções, filmes, séries, música e diversas dicas para blogueiros. É uma ótima página e com excelente conteúdo!
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Coisa de livro: Um blog para quem gosta de literatura de todos os gêneros. Romance, ficção, literatura fantástica, mitologia... lá tem resenhas de muitos livros. Vale à pena conferir!

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Enfim, sejam bem vindos Tiago, Tiabetok e Lêeh! E aos leitores eu recomendo: Acesse e leia esses blogs, tenho certeza que vocês vão gostar. 

Um grande abraço a todos! 



Joseph Finder nasceu num pequeno vilarejo ao norte de Virgínea, onde as pessoas são simples, a comida é boa e todos contam vantagens da excelente hospitalidade daquele lugar. Nunca conheceu sua mãe, e seu pai morrera quando ele ainda era uma criança. Foi criado por sua avó paterna, Amélia Finder, que lhe ensinou tudo que precisava para poder desenvolver-se sozinho na juventude. Apesar dos mimos que sempre teve durante sua infância, Joseph nunca tinha jogado futebol, nem nadado, ou sequer praticado algum outro tipo de atividade que exigisse esforço físico demasiado, tudo isso porque ele havia nascido com uma rara doença cardíaca que poderia matá-lo a qualquer momento. Não foi fácil para ele viver uma infância onde não podia aproveitar os prazeres dessa maravilhosa fase. Em compensação, Joseph se tornou um excelente enxadrista, escritor e músico. Atividades que não lhe exigiam esforço físico algum. Seus livros passaram a ser vendidos em todo o país e em alguns anos ele passou a ser dono de uma pequena fortuna. Mudou-se então para Fender, uma grande metrópole, e abriu sua própria editora.  


O Camaleão e a Flor se conheceram num sonho, não um sonho qualquer, mas um sonho em comum. Quando dormiam, se encontravam e conversavam por horas sem fim naquele mundo só deles. Se tornaram amigos, amantes e confidentes, mas nunca se viram quando acordados. Numa certa noite, no mundo real, ambos foram ao mesmo evento, o réveillon da floresta. O camaleão com seus amigos répteis e a flor com seus amigos cravo, rosa, e outros que o camaleão não conhecia. Nessa festa, por um instante, a flor viu o camaleão, meio camuflado entre os outros, mas o reconheceu. Teve vontade de ir lá falar com ele mas, por algum motivo  timidez, insegurança, ou até mesmo por não ter certeza se era realmente ele  não o fez. Depois, em outro sonho ela lhe disse: Eu vi você! O camaleão então ficou confuso, pois, se a flor o tinha visto e não tinha lhe cumprimentado era porque preferia não conhecê-lo pessoalmente. 

Então, num outro dia, numa comemoração de um réptil amigo, o camaleão reconhece a Flor, propriamente pelo aroma e beleza característico das mais belas flores, e ele, como todo camaleão, ficou inerte, esperando o momento certo de lhe falar um "Oi Flor, lembra de mim?", mas naquele momento entendeu por que ela não tinha falado com ele no réveillon, não era por não querer conhecê-lo, nem por timidez, mas sim, por um estranho medo. Medo de não ser correspondido, ou de depois daquele momento os sonhos não acontecerem mais. 

Por fim, ambos se olharam, mas não se falaram. O Camaleão voltou para o seu cafofo e a Flor para o seu jardim, e continuaram a se encontrar em seus mágicos sonhos comuns.

Escrito no dia 29/01/2011.
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Numa noite nublada do inverno de 1823, na pequena cidade de Santa Brígida, nasceu uma criança diferente de todas que eu já conheci em minha vida. Completamente normal, exceto pelo fato de possuir uma característica única, jamais vista por qualquer ser humano. O garoto tinha olhos cujas córneas eram vermelhas vibrantes, como chamas incendiando seu interior, e todos, inclusive a parteira, ficaram aterrorizados quando a criança abriu seus olhos pela primeira vez. Acreditavam que ele nascera com a maldade dentro de si, e até Anne, que era a mãe, não aceitou o filho alegando que ele estava possuído pelo próprio demônio. O pai da criança, Júlio Salazar, contrariando todos os habitantes da cidade, resolveu criar o estranho garoto em um pequeno sítio aos arredores de Santa Brígida.
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