Mais vale um na mão que dois voando { Parte I }

by 23.10.13 0 comentários

Oi. Eu me chamo Felipe. Na verdade, Felipe de Sousa Melo. Sousa de meu pai e Melo de minha mãe. Geralmente o sobrenome do pai é o último, mas não me perguntem por que trocaram a ordem dos meus sobrenomes. Não importa, prefiro assim. Na verdade, estou aqui para lhes contar uma estória que aconteceu comigo há algum tempo atrás e isso é estranhamente curioso, pois, além de personagem protagonista eu ainda serei o narrador de minha própria aventura  se é que posso chamar de aventura. Diz o ditado: Mais vale UM na mão que DOIS voando. E eu descobri isso da forma mais difícil. É bom esclarecer que o que lhes direi a partir de agora é a minha versão dos fatos, pois creio eu, que os outros personagens mantêm versões levemente distorcidas em relação à minha.
Pois bem, na minha juventude eu tive uma namorada chamada Fernanda. Eu a conheci na igreja, grupo de jovens, eu era músico e ela cantava muito bem e logo fizemos parceria animando o grupo nas tardes de sábado. Na época eu ainda frequentava a igreja. Era uma morena bonita, jeitosa e tinha um brilho no olhar que inexplicavelmente tinha o poder de extrair qualquer coisa de mim. Com o tempo, me apeguei tanto a ela que num certo dia de domingo cedi à formalidade e inexpressividade, dizendo a ela a frase mais clichê de todos os amantes: Eu te amo.
Aquela morena realmente tinha roubado meu coração. O que ela tinha de especial? Não sei lhes dizer, mas era real. Eu estava bobo, irracional e perdido, como todo adolescente apaixonado. O sentimento era novo pra mim, e um tanto empolgante. Por dois longos anos seguimos assim, estudávamos juntos, tocávamos nos finais de semana e nos amávamos o tempo todo. Por incentivo dela eu li o meu primeiro livro. Por incentivo meu ela aprendeu a gostar de rock'n roll. Éramos tão apegados que certa vez minha mãe a culpou injustamente pelas minhas faltas na escola, quando na verdade eu faltava para jogar Super Mario World num fliperama perto da escola. Coitada, levou a culpa pelo meu vício, mas isso não importa agora, o que importa é que tudo estava indo muito bem entre a gente.
Eu sempre fui muito fiel a ela, por mais que não parecesse, e ela...., bem, não era uma santa, mas nunca ouvi ou vi nada que pudesse me levar a desconfiar de sua fidelidade. Tinha apenas que controlá-la nas festas em relação à bebida (risos). Sim, pois ela perdia totalmente o controle se ingerisse qualquer tipo de bebida alcoólica e constrangia a mim e aos demais convidados da festa. Mas depois de algum tempo ela mesma percebeu isso e passou a se policiar e sempre pedia pra eu não deixar ninguém lhe oferecer bebida. Tivemos muitos momentos bons, que realmente ficaram marcados em minha memória.
Certa tarde, eu estava no meu quarto tentando aprender a tocar 'Forever and One' no violão, tomando um chá mate que deixava na mesinha de canto, quando ela adentra no aposento aos prantos. Naquele instante eu fiquei parado, meio sem saber o que fazer, pois não sabia o que havia acontecido.

— O que houve amor?

Sem resposta.

— Problemas com seu pai? – Perguntei, pois sabia que ocasionalmente havia alguns atritos entre ela e seu pai. Homem muito bom, mas excedia no autoritarismo.

— Não podemos mais ficar juntos. Vou me mudar!

Disse e voltou a chorar.

Não disse nada. Fiquei confuso. O chão em que me apoiava pareceu ceder naquele momento. Eu estava acostumado com sua presença, seu carinho, seus beijos, sua risada, seu cheiro, seus problemas, seu sexo... Não me imaginava mais sem sua companhia. Balancei a cabeça, olhei pra ela e voltei a racionalizar o que estava acontecendo.  E a abracei.

— Mas porque diz que vai se mudar? Pra onde?

Fernanda parou então de chorar. Soluçava constantemente. Enxugou o rosto e voltou a me olhar, mais séria que emocionada desta vez.

— Meu pai recebeu um telefonema...


E começou então a me contar o que realmente tinha acontecido. O fato era que seu pai tinha sido promovido na empresa em que trabalhava como representante comercial e teria que assumir seu novo cargo numa outra cidade, que para piorar nossa situação, era em outro estado. Seu pai já havia avisado a toda família que não desperdiçaria a oportunidade e que a decisão de se mudarem era definitiva. Fiquei muito mal com essa notícia e me sentia totalmente impotente diante da situação, afinal, o que um jovem como eu poderia fazer? Se ao menos eu tivesse um emprego e pudesse sustentá-la teria pedido, com certeza, que ficasse. Mas não, eu não tinha.

Continua ...

Dênis Girotto de Brito

Escritor

Poeta e contista, autor do livro "Os três lados da moeda: vida e morte em poesia" e colaborador em diversas antologias de contos.

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