DESATANDO NÓS

by 24.1.15 6 comentários


Faltavam cinco minutos para as sete horas, quase a hora planejada. Subia pela escada estreita e escura que se contorcia entre os apartamentos fechados do velho edifício Marchan, frente à Praça da República. Até ali se sentira bem, mas a cada degrau avançado sua espinha tremia e arrepiava só de pensar no que estava prestes a fazer. Pronto, chegara ao sétimo andar, frente ao apartamento 707. Ele ofegava. Por um momento parou frente à porta de madeira já meio empenada e danificada por cupins, observou o tapete de boas vindas logo abaixo, o corredor estreito, escuro e silencioso. “Esse é o momento. Não terei outra oportunidade”, pensou.
Havia planejado tudo há meses, cada detalhe, e estava surpreso consigo ali naquele momento, pois em nenhum momento acreditou que iria concretizar o plano. Aliás, ainda não acreditava que seria capaz. Com o casaco limpou o suor que escorria pelo rosto e que poderia transparecer nervosismo, ajeitou a machadinha presa por um laço sob o casaco de lona e respirou fundo. Deu três batidas na porta e chamou pela anfitriã: “Dona Mariiiia!”. Esperou, silencioso, tentando ouvir qualquer reação do outro lado da porta, mas nada. Tornou a bater mais três vezes e chamar novamente. Alguns segundos se passaram até que a maçaneta da porta se mexesse.
A porta se abriu numa fresta minúscula, e do escuro dois olhos penetrantes e desconfiados fixaram nele. Temendo que a velha se assustasse por estarem os dois a sós, ele retirou o chapéu e tratou logo de se apresentar.
— Boa noite, dona Maria. Lembra-se de mim? Seu inquilino lá da Rua General Gurjão. Gostaria de falar com a senhora.
A velha continuou a olhar fixamente para o rapaz, analisando-o dos pés à cabeça com aqueles olhos atentos e desconfiados, como se soubesse o motivo da visita. E ele, incomodado com a vistoria, tentava parecer o mais natural possível.
— Não se lembra de mim, senhora? Estive aqui há alguns meses.
— Lembro-me bem. Mas o que faz aqui há essa hora? Está louco?
— Não, senhora. Só vim lhe trazer aquele relógio, lembra-se que eu tinha avisado que viria?
Por mais alguns segundos a velha buscou na memória a lembrança do encontro que tiveram e realmente se lembrou de que ele havia prometido trazer um objeto de valor para lhe pagar alguns meses de aluguel. Ele, já se arrependendo de estar ali, pensou em dar meia volta e ir embora. Estava pálido, trêmulo, e já não raciocinava com exatidão todos os detalhes do minucioso plano que estava para concretizar. Quando fez menção em se virar, ouviu a corrente da porta se desprender.
— Entre, rapaz. Vou pegar um pouco de café para você. Está parecendo febril.
“Realmente, não devo estar com a melhor das aparências”, pensou. Sentou-se numa poltrona de madeira, revestida em couro, na parede logo à direita. Enquanto esperava tornou a observar o cômodo com suas estantes de livros cobrindo toda a parede à frente dele, uma mesinha de centro feita de madeira com tampa de vidro sobre um tapete com desenhos geométricos em vermelho e preto. A luz entrava fracamente no cômodo, vinda de um abajur aceso numa sala ao lado. Tudo muito bem organizado e limpo era o que podia observar, mesmo com a pouca claridade. Os livros separados por seções, e as seções por autores em ordem alfabética. Na sala ao lado havia uma mesa de madeira com seis cadeiras, uma mesinha de canto onde estava o abajur e alguns quadros pendurados em duas paredes opostas. Não se podia ver claramente as pinturas dos quadros, mas era certamente paisagens de praias, campos e cavalos. Era uma sala de jantar. Na parede entre as paredes dos quadros havia uma porta aberta que dava acesso a uma pequena varanda.
Ele olhou no relógio e torceu para que ela não demorasse a trazer o café. Tinha que ser rápido o suficiente para que tudo estivesse concluído até às oito. Ainda era sete e quinze.
— Espero que não tenha adoçado demais. — disse a velha retornando à sala — Então, se trouxe o relógio me mostre para que eu possa avaliá-lo.
Ele pegou a xícara de café, deu um gole e a colocou na mesa de centro. Enquanto ela sentava no sofá ao seu lado, ele retirou um embrulho feito com partes de uma caixa de sapato e muitos barbantes e entregou a ela. A velha estranhou a forma como o relógio fora embrulhado, mas tratou de virar-se para a mesa de centro para apoiar o pacote e tentar desatar os tantos nós que foram feitos. “Agora é a hora”, pensou o rapaz ao ver a velha praticamente ajoelhada de costas para ele. Retirou silenciosamente a machadinha de dentro do casaco. Suas mãos tremiam. Apoiou-a bem e de súbito se levantou para dar o golpe fatal.
Um segundo foi o tempo necessário para destruir todo o plano de meses. Aquele segundo em que a velha se virou e olhou penetrantemente no fundo dos olhos do rapaz, com a expressão na face que só conhece quem já esteve frente a frente com a morte. A machadinha erguida, pronta a lançar-se fulminante no crânio da velha, cessou. Tremulou e baixou. Aquele instante foi único e suficiente para lembrar o rapaz da loucura que estava prestes a cometer, dos princípios adquiridos que estava prestes a ignorar, da angústia, dos lamentos, da auto piedade e do auto julgamento.
A machadinha caiu sobre o sofá. A velha, de pernas trêmulas, viu-se sem forças para qualquer tipo de reação, e ficou a contemplar o jovem andando lentamente. Primero pela sala, depois se dirigiu até a sala de jantar e por fim até a varanda. Ele olhou no relógio, eram sete e vinte e nove. Virou-se de frente para a velha, ainda escorada na mesinha de centro, e pediu perdão.
Era verdadeiro, não, era mais que verdadeiro. Ela podia sentir. Não foi um pedido de desculpas qualquer, foi um pedido que se faz no ápice das emoções, em momentos extremos de arrependimento.
A velha buscou forças nos músculos para se levantar e conversar com o rapaz, mas antes que qualquer força pudesse surgir ele deu dois passos para trás e lançou-se do sétimo andar do edifício. Alguns segundos de absoluto silêncio se passaram até se ouvir um grande barulho do corpo se chocando com a lataria de um carro qualquer estacionado na rua.
Aos poucos ela conseguiu se pôr de pé e foi até a varanda. A rua que estava deserta começava a encher-se de gente amontoando-se umas nas outras para ver o corpo do homem que despencara do céu. Muitos olhavam para cima, tentando adivinhar de qual andar teria ele caído. Um carro da polícia chegou alguns minutos depois e os policiais esforçavam-se para afastar os curiosos da cena do “crime”.
A velha saiu da varanda ainda trêmula por tudo que havia acontecido e agradecendo aos céus por ter poupado sua vida. Ao passar pela sala viu a machadinha sobre o sofá e o pacote ainda cheio de nós sobre a mesinha de centro. “Então o embrulho era só uma distração”, ela pensou. Mas não era. Quando conseguiu desatar os nós, um genuíno relógio de prata estava realmente lá. 

No fim das contas, sabendo de suas limitações morais, não foi apenas um plano arquitetado por meses pelo rapaz, mas dois.

Dênis Girotto de Brito

Escritor

Poeta e contista, autor do livro "Os três lados da moeda: vida e morte em poesia" e colaborador em diversas antologias de contos.

6 comentários:

  1. Pra variar, só pra variar mesmo, texto muito bom!

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  2. caraca. muito firme. bem descrito que consegui ver as cenas.

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  3. Cara, um texto muito bom. Eu interpretei da seguinte maneira: O jovem queria livra-se da dívida assassinando a velha, mas não sabia se teria coragem de fazer isso. Ele planejou tudo por bastante tempo, mas até o último segundo seus princípios morais formavam uma barreira. Como ele sabia de suas limitações e imaginou que poderia não conseguir concluir o "plano A", que era matar a velha, ele levou intencionalmente o seu relógio de prata, que era o único bem valioso que possuía. Assim, caso não conseguisse matá-la, ele colocaria em prática o "plano B", que era desculpar-se, tirando sua própria vida e deixando o relógio a ela.

    Muito show. Adorei!

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    1. Muito boa sua interpretação do conto. Explica bem o que ficou implícito no texto. :)

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