O MENINO DOS OLHOS VERMELHOS

by 24.3.14 14 comentários

Numa noite nublada do inverno de 1823, na pequena cidade de Santa Brígida, nasceu uma criança diferente de todas que eu já conheci em minha vida. Completamente normal, exceto pelo fato de possuir uma característica única, jamais vista por qualquer ser humano. O garoto tinha olhos cujas córneas eram vermelhas vibrantes, como chamas incendiando seu interior, e todos, inclusive a parteira, ficaram aterrorizados quando a criança abriu seus olhos pela primeira vez. Acreditavam que ele nascera com a maldade dentro de si, e até Anne, que era a mãe, não aceitou o filho alegando que ele estava possuído pelo próprio demônio. O pai da criança, Júlio Salazar, contrariando todos os habitantes da cidade, resolveu criar o estranho garoto em um pequeno sítio aos arredores de Santa Brígida.
A criança de olhos vermelhos recebeu o nome de Edgar Salazar e cresceu normalmente na companhia de seu pai. Poucas pessoas iam até o sítio, e os que se aventuravam a ir até lá para vender suprimentos ou fazer cobranças, evitavam olhar em seus olhos e nunca falavam com ele. Apesar dessa falta de convívio social, Edgar cresceu normalmente, como qualquer outra criança: brincava, lia seus livros e adorava quando seu pai contava estórias.

A partir dos oito anos de idade, Júlio começou a notar que Edgar evitava a presença de algumas pessoas que iam ao sítio. Elas o assustavam de alguma forma, mesmo sem nada fazerem.  E com algum tempo, ele percebeu que seu filho tinha um dom extraordinário: ele conseguia enxergar o caráter de qualquer pessoa de tal forma que sabia exatamente quando alguém estava com boas ou más intenções. Aqueles rubros olhos lhe permitiam isso, mas Júlio não contou a ninguém e Edgar passou a ajudar seu pai nos negócios do sítio, indicando a ele quem eram os bons e os maus clientes, evitando assim que tivessem prejuízos com os maus pagadores. Todavia, essa parceria não durou muito tempo. A epidemia da peste chegou à cidade de Santa Brígida e alastrou-se por toda região, e Júlio foi atacado pela tenebrosa doença que rapidamente foi definhando seu corpo.
Quando percebeu que não viveria por muito tempo, Júlio chamou Edgar em seu leito e disse-lhe:
— Edgar, meu filho. Nunca acredite que seus olhos torna você inferior a outras pessoas. Eles são uma benção e você tem um dom incrível. Logo estará sozinho e muitas coisas ruins podem lhe ocorrer, mas seja forte, corajoso e busque sua liberdade, sempre.
Poucos minutos depois ele viu seu pai morrer.
No dia seguinte, um vendedor de queijos foi até o sítio e encontrou Júlio morto e a criança deitada ao lado do cadáver de seu pai. Edgar foi levado para o Orfanato São Cristóvão, na cidade, e lá viveu por muitos anos sendo maltratado, humilhado e agredido. Foi tratado como um animal desde o momento em que chegou naquela instituição, e ele sabia que era por causa dos seus olhos. Todos o chamavam de aberração, filho do diabo e outras denominações absurdas. Ele não revidava, apenas baixava sua cabeça e tentava evitar as agressões. Sua cama era uma esteira de palha jogada num canto úmido do depósito, separado de todos os outros órfãos, e alimentava-se dos restos que sobravam das refeições dos outros, quando sobrava alguma coisa. Era impedido de assistir as aulas de Aritmética e Discurso junto com os demais alunos, então ele abrira uma pequena fenda na parede do depósito, ao lado da sala de aula, para que pudesse espiar por lá o que se ensinava aos outros. Seu único livro se chamava O homem que tudo sabia, encontrado em uma sarjeta, e era sua companhia solitária de todas as noites. Já o tinha lido dezenas de vezes.
Edgar viu muitos órfãos serem adotados e saírem daquele lugar, mas isso era impossível para ele, pois nem sequer era apresentado aos casais que iam ao orfanato à procura de crianças e jovens. Ele sabia que não havia um futuro para ele ali, onde seus olhos mostravam-lhe que estava cercado por pessoas inescrupulosas, gananciosas e perversas.
Foi numa manhã chuvosa do inverno de 1840 que Edgar teve sua oportunidade de fugir do orfanato, e assim o fez. Aproveitou a forte ventania que derrubou parte do muro dos fundos e correu desesperadamente para sua liberdade. As únicas coisas que levou consigo foi seu livro, protegido para não molhar, e o relógio que pertenceu ao seu pai, que ele guardou por todos esses anos. Correu sem rumo, mas com muito vigor, para que nunca o alcançassem.
Percorreu centenas de quilômetros como um andarilho, se alimentando de frutas e animais que caçava, passando por diversas cidades e vilas, e por todos os lugares as pessoas tremiam ao ver seus olhos, e por vezes, Edgar precisou fugir para não ser apedrejado ou aprisionado como um animal, até que num certo dia nossos destinos se cruzaram. Eu era um velho vendedor de óculos da província de Belo Monte e viajava em busca de matéria prima para minha pequena fábrica quando o avistei sentado no pé de uma enorme mangueira. Parei para oferecer um pouco de água e pão ao pobre rapaz e confesso que fiquei trêmulo quando vi aqueles olhos vermelhos. Olhos que podiam ver minha alma. No entanto, meu ofício já tinha me permitido conhecer diversos tipos de anomalias em olhos de muitas pessoas e pensei se tratar de apenas mais uma, apesar de minha intuição dizer que aqueles eram diferentes.
Apesar de demonstrar tamanha timidez, ele aceitou sem rodeios o que lhe ofereci, respondeu quando eu perguntei seu nome e de certa forma ele ganhou minha simpatia e resolvi convidá-lo para trabalhar comigo. Edgar ficou muito surpreso com meu convite e posso jurar que vi um fio de lágrima sair daqueles olhos, e com razão, afinal de contas eu tinha sido o único, exceto seu pai, que lhe demonstrara consideração.
— Pois bem, Edgar. Suba na carroça que iremos para casa.
Naquela época ele devia ter uns dezessete anos, era forte e se mostrou muito inteligente no trabalho que lhe coloquei. Dei-lhe roupas decentes e um quarto nos fundos da fábrica. Depois de ter tomado banho, cortado o cabelo e vestido as novas roupas, nem parecia o mesmo jovem, exceto pelos seus inconfundíveis olhos que estavam sempre a flamejar.
Certo dia, quando eu estava negociando um grande lote de óculos com um comerciante estrangeiro, Edgar me chamou e disse que não era para eu vender para aquele homem. Eu achei um absurdo sua intromissão em meus negócios e ordenei que ele voltasse a fazer o serviço que lhe cabia, mas ele insistiu e eu disse que se ele não fosse fazer o que eu estava mandando, eu o mandaria embora. Ele se calou imediatamente e retornou aos seus afazeres. Eu concluí a negociação e tive o maior prejuízo da minha vida. O estrangeiro era na verdade um farsante, que se fez passar por dono da Universidade Luterana de Linoia, do país vizinho.
Após esse trágico incidente, as finanças da minha fábrica ficaram negativadas e intrigado eu fui pedir explicações para Edgar, que me falou do seu incrível dom. Fiquei espantado com aquilo, mas desculpei-me e pedi que me ajudasse a levantar a fábrica novamente, e ele como sempre não se negou a me ajudar.
Apesar de aqueles olhos lhe darem uma aparência incrivelmente demoníaca, Edgar sempre teve um bom coração e não guardava rancor nem mesmo daqueles que lhe torturaram e agrediram por anos.
Depois que ele começou a trabalhar diretamente comigo no financeiro a fábrica progrediu numa velocidade espantosa, de tal maneira que em pouco mais de três anos eu já era um dos homens mais ricos da cidade, e como recompensa, também tornei Edgar muito rico. Não tínhamos prejuízos, apenas lucro, e os rumores do homem de olhos vermelhos que fabricava óculos trouxe muitos curiosos que, involuntariamente, acabaram se tornando clientes.
Edgar havia mudado bastante nesse tempo, o convívio amigável com clientes, empregados e negociantes o tornou mais seguro e o fato dele passar a ser um rico fabricante mudou aquela velha visão preconceituosa que tinham sobre ele, não totalmente, é claro, mas diminuiu muito e isso fez de Edgar um homem muito mais confiante em si mesmo. Já havia perdido a vergonha que tinha dos seus olhos e passou a exibi-los com orgulho pelas ruas, mesmo vendo na maioria das pessoas que lhe observavam, a aura negativa que indicava o julgamento que faziam dele.
No início da primavera, numa tarde bastante ensolarada, Edgar foi abordado por uma jovem na rua que lhe pedia ajuda. Era para ser uma situação rotineira, já que Edgar estava acostumado a ver crianças e jovens pedindo pelas ruas da cidade, mas dois detalhes naquela moça chamou muito sua atenção: Ela não se importou com seus olhos vermelhos e ele não conseguia enxergar nela o que enxergava em todas as outras pessoas. Edgar não conseguiu identificar as reais intenções daquela desconhecida. Ele olhou então para várias pessoas que caminhavam pela rua para testar seus olhos, mas estava tudo normal, podia ver com precisão o caráter de cada uma das pessoas que por ali passavam, menos daquela mulher.
O nome daquela bela moça era Julliane, e pedia dinheiro para ajudar sua mãe que estava muito doente. Ele prometeu ajudá-la e fez questão de ir até a casa da mulher para conhecer sua mãe. Chegando lá, a adoecida senhora se encontrava dormindo, mas Edgar reparou que seus olhos também não conseguiam enxergar nada na mãe de Julliane.  Depois desse episódio, ele voltou várias vezes na casa dela para levar comida, roupa e medicamentos, mas nunca encontrara a mãe da moça acordada.
Os frequentes encontros entre Edgar e Julliane acabaram aproximando-os, e não demorou muito para que se apaixonassem. Ela o aceitava da maneira como ele era, e nem sequer questionava o porquê daqueles olhos serem vermelhos e isso era tudo que Edgar precisava. Era a demonstração mais pura do amor, onde o que importava era a vontade que tinham de ficarem juntos, de se ajudarem e proporcionarem constantemente os momentos de felicidade que compartilhavam. Não havia anomalias, crenças, interesses próprios, preconceitos ou qualquer outra coisa que interferisse no objetivo comum de ambos.
Com Julliane, Edgar conheceu e desfrutou dos prazeres da carne, se entregando totalmente a ela. Estavam felizes e após alguns meses juntos decidiram que iriam se casar. Edgar já havia comprado terras ao norte da cidade e formado vastas fazendas que cultivavam arroz e trigo, e eu ampliei a fábrica de óculos e montei outras três filiais nas províncias vizinhas. Ele sempre me visitava para conversarmos sobre sua vida. Não lhe faltava dinheiro e seu casamento seria uma boa realização, mas ainda tinha um problema: Precisa pedir a mão de Julliane para a mãe, que ainda não o conhecia.
Após retornar de uma longa viagem ao país de Gales, que durou dois meses, Edgar recebeu um recado de Julliane contando que sua mãe havia melhorado consideravelmente e que ele já poderia ir se apresentar à sua mãe e fazer o pedido de casamento. Ele não pensou duas vezes, tomou um banho, vestiu seu melhor smoking, colocou seu chapéu e foi ao encontro da sua amada.
Julliane já havia contado para sua mãe de seu namorado, e o quanto ele havia ajudado em sua recuperação. A velha mulher estava curiosa para conhecer o rapaz e agradecê-lo por tudo, porém ainda não sabia do pedido que a ela seria feito.
Era por volta de seis da tarde e o sol já se punha no horizonte quando mãe e filha ouviram o bater da porta. — Ele chegou. — disse Julliane, radiante, que correu para recepcionar seu noivo. Edgar entrou, cumprimentou sua amada e se dirigiu para a sala de estar. Postou-se frente a velha senhora, tirou seu chapéu e apresentou-se.
— Edgar Salazar, muito prazer.
Nesse momento, a mulher arregalou os olhos e soltou um grito aterrorizante, se jogando no chão, tomada de um desespero que Edgar não conseguia explicar. Julliane correu para ajudar sua mãe, e também não entendia o porquê de tanto medo.
— Era para você estar morto! Você não é deste mundo, criatura! — gritava raivosamente a mulher jogada ao chão.
A princípio, Edgar achou que tudo aquilo fosse por medo dos seus olhos, mas imediatamente entendeu o que se passava ali quando observou o quadro pendurado na parede com o retrato da mãe e da filha com seus nomes escritos: Anne & Julliane. A vaga lembrança daquele passado distante e cheio de dor retomou seu lugar na sua cabeça e Edgar se lembrou da única vez que seu pai mencionou o nome da sua mãe: “Anne era uma mulher incompreensível, Edgar. Não me pergunte mais sobre ela”.
A mulher da sua vida, que dividiu incontáveis momentos de alegria e prazer, com quem estava pronto para se casar, na verdade era sua irmã.  Sua única irmã! E a mulher que o abandonara ainda na maternidade, que foi responsável por boa parte de todo o sofrimento que passou em sua vida, apenas porque acreditava que ele era uma aberração, de repente reaparece e estava ali, caída à sua frente.
Edgar não questionou sua mãe, apenas beijou o rosto de Julliane e partiu lamentando o que poderia ter vivido ao seu lado, os filhos que poderiam ter tido e toda a felicidade que acabara ali, naquele momento. Despediu-se com um simples “Sinto muito”, aos berros de sua mãe que pedia aos céus proteção contra aquele diabo.

Desde então, ninguém que eu conheça jamais viu Edgar Salazar novamente, que abandonou suas terras, dinheiro e deixou para trás todas as lembranças boas e ruins que vivera ali, carregando consigo somente a maldição daqueles rubros olhos, capazes de enxergar muita coisa, menos o caminho para sua felicidade.

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Comente o que achou desse conto. 
Sua opinião é muito importante para mim. 

Dênis Girotto de Brito

Escritor

Poeta e contista, autor do livro "Os três lados da moeda: vida e morte em poesia" e colaborador em diversas antologias de contos.

14 comentários:

  1. Nossa Dênis, imaginando uma adaptação para um longa! Adorei!
    Pnsei até no poster do filme..rs
    Abraços.

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  2. puta que pariu doido
    adorei prof
    cara concordo com o cara ali de cima
    isso ia dar um belo dum filme cara
    seria muito pedir um final feliz apenas uma vez?
    adoro finais tragicos e vc é especialista nisso mas queria ver como se sairia fazendo o contrario hahahahahaha
    desafio lançadooo

    marcellepires.blogspot.com

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  3. Muito bom
    Vida cheio de altos e baixo e uma pouco de ironia.PERFEITO.

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  4. muito boa a hisoria, final triste, mas maravilhosa!

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  5. Velho. Parabéns, de verdade. Ficou show!

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  6. Cara, o conto ficou muito bom. Foda mesmo! Parabéns pela qualidade dos seus contos e poesias, estou sempre passando aqui e acompanhando tudo. :)
    Abraço.

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  7. Parabéns, uma história muito boa! Me prendeu na leitura até o final o.O

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  8. Muito bom o texto. Achei os personagens: Edgar parecido com o Ciclope e Juliane com a Bela do crepúsculo. Só que vc sempre acaba com minha expectativa de final feliz... kkkkkk.. Parabéns Cadori, .. Uma estória que fala de luta, preconceito, superação etc.. Muito massa..

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  9. Caraca me arrepiei, daria um ótimo livro, já pensou nisso ??
    ameiii demais , fiquei curiosa para ler mais contos, você escreve maravilhosamente bem !!
    Beijos amigo s2

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    1. Não só já pensei como estou escrevendo Lêeh :)

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  10. Obrigado a todos pelos comentários, a participação de vocês é muito especial. :)

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