QUILÔMETRO 171

by 26.2.14 1 comentários



Brígida acordou com um gosto amargo na boca. Estava escuro e não conseguia identificar onde estava. Sua cabeça doía e não se recordava do que tinha acontecido. Levantou-se lentamente e procurou uma saída, em vão, não havia janelas e a única porta estava trancada. Entrou em desespero e começou a gritar pedidos de socorro, mas ninguém atendia seu chamado. Sentia fome e sede. Lembrou-se então de ter saído de casa para se encontrar com seu namorado em um bar da Vila Fátima, mas parece ter sido sequestrada no percurso. Pensava em sua família e no que lhe aconteceria, quando esbarrou em algum objeto no canto da parede. Era uma caixa, uma pequena caixa de papelão lacrada com fita adesiva. Brígida a abriu com esperança que aquilo pudesse ajudá-la de alguma forma, mas tudo que encontrou lá dentro foi um frasco contendo um líquido, uma lanterna e um bilhete.

Saudações, cara hóspede. Nessa caixa lhe ofereço o poder da escolha. Diante da atual situação em que se encontra, poderá beber do veneno que lhe concedi e terás a liberdade, ou pode recusar-se e esperar que alguém a encontre. Escolha bem.
Sr. Anfitrião

Teve então a certeza de que havia sido sequestrada. Brígida, aos prantos, pensou muito no que deveria fazer e por muitas horas não conseguiu tomar decisão alguma. Se ficasse ali morreria de fome e sede, e se tomasse daquele veneno também poderia morrer. Decidiu então beber aquele líquido, era a única chance. Ela poderia ser solta após ingerir o veneno e procuraria um hospital com o máximo de urgência. Tinha decidido.
— Eu vou beber, seu desgraçado! Está feliz? — gritou desesperada e tomou todo o líquido do frasco.

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A tarde estava chuvosa e Charles voltava para sua casa após ter ido comprar cerveja e carne para fazer um churrasco. Era um sábado chuvoso, ele tinha marcado de assistir o jogo do seu time com os amigos. Como morava no sítio, tinha pegado a PA-308 que era o acesso mais rápido à cidade e, quando fez a curva no quilômetro 171, assustou-se ao ver um corpo jogado no acostamento da rodovia. Parou o carro bruscamente e desceu para verificar o que havia acontecido. Era uma mulher e ainda estava viva, mas desacordada e não respondia aos seus sinais. Colocou-a no carro e a levou para o hospital na cidade.
— Sinto muito senhor, ela não resistiu. Fizemos o que pudemos para salvá-la, mas ela sofreu vários ataques cardíacos e veio a óbito. O que o senhor é dela?
— Não a conheço. Encontrei-a caída na estrada, próximo de Vila Fátima, e a socorri. Não tinha documento, nem qualquer identificação. O doutor sabe qual foi a causa da morte?
— Não. Ela não apresenta marcas de agressão, nem qualquer indício de violência. Pode ter sido morte natural decorrente de problemas cardíacos, mas não posso lhe dar certeza ainda. O corpo será encaminhado ao Instituto Médico Legal para ser periciado. Enquanto isso, aconselho que faça um boletim de ocorrência na polícia, registrando o caso. Afinal, você é a única testemunha da situação em que ela foi encontrada.
— Sim, farei isso agora.
Naquele dia Charles não teve mais ânimo para o churrasco. A imagem daquela mulher morta lhe tirou o sono durante dias. Quando a perícia foi concluída todos os jornalistas da cidade vieram à sua casa e no dia seguinte os jornais noticiavam o caso.

“VÍTIMA DE ENVENENAMENTO É IDENTIFICADA: BRÍGIDA VASCONCELOS DOS SANTOS”
“MORTE POR ENVENENAMENTO INTRIGA MORADORES DE VILA FÁTIMA”
“PROFESSOR É O PRINCIPAL SUSPEITO DO CASO BRÍGIDA VASCONCELOS”

Morte por envenenamento foi o laudo final, e ele era o único suspeito. Foi chamado à delegacia para depor, e em seguida levou a polícia ao local onde a encontrou a vítima. Foi liberado logo em seguida, pois não encontraram ligação nenhuma entre a vítima e Charles. Brígida foi identificada como namorada de um empresário do ramo têxtil da cidade vizinha, era trabalhadora, sem inimizades e não possuía familiares vivos. Um caso bastante complicado para a polícia local que passou a dividir a suspeita também com o namorado da vítima.
Depois de meses, o caso caiu no esquecimento. O namorado de Brígida tinha álibis que comprovavam que ele estava no bar no momento em que ela foi morta, excluindo assim as suspeitas sobre ele, e Charles não fora indiciado por falta de provas e voltou a trabalhar normalmente. No entanto, a vontade de descobrir o motivo da morte daquela mulher o consumia. Passava horas, todos os dias, pensando em como ela teria parado ali e quem a tinha envenenado.
Certo dia, passando pelo local onde ele havia encontrado Brígida, resolveu parar. Encostou seu carro no acostamento e sentou na mureta de proteção da rodovia. Era quase noite, e a lembrança de tê-la encontrado ali o incomodava muito. Ficou quase meia hora observando os carros passarem, a beleza das matas e pastos das propriedades rurais do local e, quando já se dirigia para o carro, um brilho no meio dos arbustos chamou sua atenção. Era um pequeno frasco de vidro e continha um papel em seu interior. Curioso, retirou o papel e se surpreendeu com o conteúdo do bilhete. Ela estava levando aquele frasco quando caiu na estrada e provavelmente o local onde estava presa fica não muito longe daqui, pois, envenenada, não poderia ter caminhado por muito tempo do cativeiro até a estrada — foi o que pensou.
Charles correu até o carro e pegou sua lanterna. Já tinha anoitecido e uma suave chuva acabara de se iniciar. Entrou na mata justamente onde tinha encontrado o frasco e procurou refazer os possíveis passos da mulher envenenada, caminhando pelos locais de mata menos densa. Andou por uns vinte minutos e já pensava em voltar, pois a chuva forte e a escuridão não o deixavam enxergar e estava receoso em se perder quando avistou uma luz fraca entre as árvores. Uma casa — pensou. Dirigia-se lentamente em direção à luz quando ouviu um estalo atrás de si.

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Charles acordou com um gosto amargo na boca. Era sangue. Estava escuro e não conseguia identificar onde estava. Sua cabeça doía e não se recordava do que havia acontecido. Levantou-se lentamente e procurou uma saída, em vão, não havia janelas e a única porta estava trancada. Gritou incessantemente por socorro, mas ninguém parecia lhe ouvir, seu celular não estava mais em seu bolso e seus documentos haviam sido roubados.
Charles tropeçou. Era uma caixa, uma pequena caixa de papelão. Ao abrir ele encontrou o mesmo frasco, sua lanterna e um bilhete com os dizeres:

Saudações, meu novo hóspede. Nessa caixa lhe ofereço o poder da escolha...

Charles já conhecia o conteúdo do bilhete, e fez sua escolha.

Dênis Girotto de Brito

Escritor

Poeta e contista, autor do livro "Os três lados da moeda: vida e morte em poesia" e colaborador em diversas antologias de contos.

Um comentário:

  1. E eu que já sou medrosa, depois dessa não paro para pedir informação e nem matar minha curiosidade de jeito nenhum, rsrs.

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