IN-SANIDADE

by 28.9.15 3 comentários
Retrato de Jan Švankmajer.

Gotas de soro pingam lentamente,
continuamente a contar o tempo.
Tempo travado, pausado, lento
para o enfermo, para o paciente.

Jogado numa maca qualquer, tal pulha,
algemado como um louco, demente.
O braço inchado, latejante, dormente,
já tantas vezes penetrado por agulhas.

Num corredor vazio e sujo, abandonado
como um mendigo, escória, indigente.
Sem nome, sem história, sem parentes,
ele geme em seu leito, amordaçado.

Tudo ali é o que não é, é indiferente.
É noite, é sombra, é tempestade.
É e não é realidade
a dor que deveras sente.

Silêncio rompido pelo ranger de dentes
do homem, do bicho, do rejeitado
que, embora amarrado e amordaçado,
grita por dentro como qualquer gente.

Tudo em si é o que é:
É vida, é fuga, é vontade.
É e não é sanidade,
quiçá até um tanto de fé.

Dênis Girotto de Brito

Escritor

Poeta e contista, autor do livro "Os três lados da moeda: vida e morte em poesia" e colaborador em diversas antologias de contos.

3 comentários:

  1. Ótimo poema o seu, engajado, bem atual. Fala da situação dos depósitos de doentes que se transformaram os hospitais públicos. O descaso com o ser humano, muito apropriadamente chamado paciente. Mandou bem, Girotto.

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  2. Ótimo abrir de olhos para como tratam a doença, a loucura... tratando gente como bicho, perdendo a própria humanidade.
    Como sempre gostosamente ritmado, muito bom de se ler.
    beijos.

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