O MENINO DOS OLHOS VERMELHOS - CAPÍTULO 5: Orfanato São Cristóvão

by 11.6.14 13 comentários

O frio torturava cada centímetro do corpo do garoto e só o que lhe confortava era a lua cheia que iluminava seu caminho sem rumo por entre vastas plantações de milho. Era cerca de uma hora da madrugada e Edgar já estava bem longe das terras dos Martinez. Se havia feito a escolha certa, fugindo daquele jeito, isso não sabia, mas o medo da reação daquelas pessoas foi tão intenso que naquele momento o menino não conseguiu pensar em outra coisa. Pegou seu livro e um casaco de lã, que provavelmente pertencia à Meddilyn, e pulou a janela sem ao menos olhar para trás.
Eles poderiam ter me adotado — pensava o garoto enquanto caminhava vagarosamente pelo milharal — mas também poderiam me matar, como tentou fazer minha mãe.
Edgar já conhecia seu passado. Júlio, algumas semanas antes de sua morte, chamou seu filho no quarto e contou-lhe tudo, inclusive que sua mãe havia tentado matá-lo e o que os aldeões de Santa Brígida fizeram com ela. Foi um choque para ele saber de tudo aquilo, não por ter perdido a mãe, pois sequer sabia o que era ter uma mãe, mas por saber que ele poderia ter morrido simplesmente porque nasceu com os olhos vermelhos. Que mal há nisso? — pensou.
O casaco de Meddilyn não era suficiente para manter seu corpo aquecido, a fome já lhe assolava e o cansaço fazia-lhe vacilar as pernas, mas Edgar não parou. Seguiu andando por toda a noite. Atravessou o milharal, depois uma plantação de soja, uma pequena vila e mais adiante um pasto onde vacas e cabras repousavam sob uma enorme mangueira. Toda aquela região era formada por morros e vales maravilhosos que a escuridão não o permitia contemplar.
Faltava menos de uma hora para o nascer do sol e Edgar já não aguentava mais. Chegara ao seu limite. De repente, sua visão começou a escurecer e suas pernas fraquejaram. Apoiou-se na cerca de madeira e tentou recuperar o domínio sobre seu corpo. Ao longe, uma pequena capela que se mostrava à beira da estrada foi a última coisa que o menino conseguiu enxergar antes de desmaiar.



Estava escuro; dezenas de pessoas enraivecidas com tochas acesas nas mãos; uma casa na colina; muitas cabras correndo; o fogo queimando a casa; entrou no quarto em chamas; duas camas, seu pai em uma e uma mulher em outra. Meu filho! — ela dizia; duas parteiras passam correndo; cabras passam correndo; seu pai agoniza na cama ao lado; as chamas se aproximam; seus pés estão presos; desespero; dor; agonia; não consegue se mover; a mulher grita por ele enquanto o fogo a queima; seu pai senta-se na cama: Adeus, Edgar!
Abriu os olhos, assustado. Fora um pesadelo, apenas um pesadelo — falou a si mesmo. Passou a mão no rosto suado e ainda tentando livrar-se da sonolência reparou que estava num lugar totalmente desconhecido. Um quanto pequeno e úmido, com paredes de pedra, uma cama dura e uma mesinha de canto aonde se encontrava seu livro. Não havia sequer uma janela. Suas roupas haviam sido trocadas por um macacão azul, feito de um tecido grosso extremamente desconfortável. Levantou-se e tentou sair para saber onde estava, mas o quarto estava trancado por fora. Estou preso — pensou o menino ainda confuso.
Não sabia onde estava e nem como fora parar ali, mas de certa forma sentia-se aliviado por ter escapado do frio que fazia lá fora. Pensou em chamar por alguém e pedir comida, mas, receoso, preferiu sentar-se na cama e aguardar.

♠ ♠ ♠

— O encontrei na estrada, próximo à minha capela, e o trouxe, pois sei que vocês cuidam de menores desamparados.
— Não se preocupe, Frei Alberto. O senhor fez muito bem. O Orfanato São Cristóvão é a melhor instituição de amparo a menores desabrigados dessa região — disse a diretora do orfanato ao sacerdote.
— Não sei de onde veio o garoto — acrescentou o Frei — mas provavelmente desmaiou de fome e cansaço, coitado.
— Já o agasalhamos e daqui a pouco irei levar sua refeição. Só estou deixando que descanse um pouco mais. Assim que ele acordar irei pessoalmente interrogá-lo para saber seu nome, se tem família e de onde veio. Por hora, peço para que fique tranquilo, o garoto está em boas mãos.

Frei Alberto saía para ordenar algumas vacas quando encontrou Edgar caído na beira da estrada. Sem saber o que fazer, colocou-o numa carroça puxada por um boi e o levou até Santa Brígida, a pouco mais de seis quilômetros ao sul de sua capela. O Orfanato São Cristóvão foi o primeiro lugar que lhe veio à cabeça para pedir por socorro, e à princípio, fora uma boa escolha, pois assim que chegou duas pessoas que trabalhavam lá o atenderam rapidamente e trataram de oferecer os cuidados necessários ao garoto. No entanto, depois de passar toda aquela euforia da chegada, Alberto já não olhava com a mesma confiança para as dependências do orfanato. O prédio era grande, devia ter mais de trinta quartos e mais algumas salas usadas para ensino e refeitório, tudo cercado por um muro alto de pedra. Em alguns corredores que passou, Frei Alberto pôde ver rapidamente algumas crianças escondidas atrás de colunas e janelas, como se estivessem com medo de alguma coisa e embora a elegante Olga Bulamarque tentasse convencê-lo que ali era o melhor lugar para o menino, alguma coisa parecia lhe dizer o contrário.

— O senhor já está liberado para ir, Frei. Enviaremos notícias sobre o garoto o mais breve possível e o senhor pode visitá-lo quando quiser — disse Olga, já encaminhando o sacerdote para a porta de saída.
— Deus esteja com você, minha senhora. Logo virei visitar o menino, me informe se houver qualquer problema com ele — disse Frei Alberto ainda desconfiado da credibilidade daquela instituição.

Olga Bulamarque mal esperou que o Frei dobrasse a esquina e encaminhou-se a passadas rápidas para o quarto do recém-chegado.

♠ ♠ ♠

Edgar já não aguentava mais. Nunca havia sentido tanta fome em sua vida. Parecia-lhe que algo corroía suas entranhas. Sem pensar nas consequências ou na reação de quem o visse, começou a bater na porta e chamar por qualquer pessoa que pudesse ajudá-lo. Três batidas foram o suficiente. A porta se abriu e Edgar fechou rapidamente seus olhos, ainda conseguindo ver brevemente a fisionomia da mulher alta e magra, com cabelos grisalhos e olhos fundos cravados na face. Entretanto, o que mais apavorou o garoto foi o que o dom de seus olhos lhe permitiu ver: uma aura rubro-negra, que denunciava a personalidade perturbadora daquela mulher, sua falta de caráter e os tantos erros já cometidos por ela. Algo que Edgar jamais havia visto em qualquer outra pessoa.

— Ora, ora! Vejo que nosso novo hóspede já acordou — disse Olga num tom de voz extremamente sarcástico — Eu me chamo Olga Bulamarque e sou a diretora desse orfanato. A partir de hoje você morará aqui e obedecerá as regras dessa instituição.

Edgar se manteve em pé, parado de frente para a diretora que o fitou dos pés à cabeça durante alguns segundos. Ele estava nervoso e amedrontado, e mesmo querendo pedir a ela um pouco de comida, preferiu calar-se.

— Qual é o seu nome, garoto?
— Edgar Salazar, senhora — respondeu num tom de voz quase inaudível.
— Olhe para mim quando fala, menino!

O suor começou a escorrer em seu rosto e o medo fazia seus músculos tremerem.

— Olhe para mim quando fala, menino! — repetiu a diretora já num tom de voz bem mais severo.

  Edgar buscou em si toda a coragem que tinha e já se preparando para a pior das reações, abriu cautelosamente seus olhos. A diretora, no susto, soltou um grito e deu alguns passos para traz, tropeçando em seus próprios pés e caindo sentada no corredor. Ele ainda pensou em ajudar a senhora, mas suas pernas estavam paralisadas de medo e continuou imóvel, assistindo a mulher se levantar vagarosamente.

— Santo Deus, o que é você?! — disse já se aproximando do menino.

Olga chegou bem perto de Edgar e começou a examinar seus olhos.

— Que ironia, seu demoniozinho. Ter sido trazido aqui por um homem de Deus.
— Não sou um demônio, senh...

Antes que Edgar pudesse terminar de falar a diretora o atingiu com um violento golpe no rosto que o fez cair.

— Não me dirija a palavra, criatura! A menos que eu peça. — advertiu Olga severamente — Não sei de onde você veio e nem tenho interesse em saber. Aqui nesse orfanato todos seguem as regras, inclusive você. A primeira regra você acabou de conhecer: nunca fale sem permissão. Só há uma refeição por dia, servida às dez da manhã. Sua roupa, a partir de hoje é esse macacão. Lave-o se quiser andar limpo. Fará todas as tarefas que forem solicitadas. Há aulas de aritmética e discurso aos sábados, mas não creio que você poderá participar e, por fim, reze para que os outros internos gostem de você.

Ainda meio tonto do golpe que o derrubou, Edgar viu a porta se fechando à sua frente e novamente se viu trancado e sozinho naquele quarto de pedra. Sentiu, então, uma enorme vontade de chorar, mas não o fez. Sabia que seria inútil; lágrimas não resolveria sua situação. Levantou-se, pegou seu livro e o abriu em uma página aleatória, como sempre costumava fazer.

“... o fim dessa batalha sangrenta. À minha frente vi muitos amigos, todos mortos. E eu? Vivo, infelizmente. Os dias se passaram e continuei lá no campo de batalha, ferido, esperando por socorro durante dias. Eu era minha única companhia, além dos cadáveres. Quando aprendemos a viver sozinhos, passamos a ser companheiros de nós mesmos. Somos nossos melhores amigos, rimos sós, ponderamos nossas próprias atitudes. Somos, muitas vezes, duais na individualidade e individuais na dualidade”.

Por algum tempo Edgar ficou tentando entender o que o protagonista do livro queria dizer com “duais na individualidade e individuais na dualidade”, mas logo desistiu, deitou-se na cama e ficou pensando no pesadelo que havia tido, em seu pai e também na vida tranquila que eles tinham há algum tempo atrás. Em meio a tantos pensamentos e uma fome que já nem o perturbava mais, Edgar lentamente adormeceu.

Dênis Girotto de Brito

Escritor

Poeta e contista, autor do livro "Os três lados da moeda: vida e morte em poesia" e colaborador em diversas antologias de contos.

13 comentários:

  1. Caramba amigo,
    Cada capítulo uma emoção..
    Adorando acompanhar essa maravilhosa história..
    Curtindo muito.. Parabéns querido!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado minha amiga. Fico feliz que esteja gostando.
      Abraços.

      Excluir
  2. Caraca.......criei ódio dessa Olga rsrs
    Muito bom, esperando o próximo :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A mulher é carne de pescoço, né? kkkkk
      Logo estará disponível o próximo capítulo Greg.
      Grande abraço!

      Excluir
  3. Coitado. Escapou da solidão e do frio agonizante para cair nas garras do autoritarismo explorador do orfanato. Vou ficar na torcida aqui para que as coisas melhorem para o pequeno Edgar.

    ResponderExcluir
  4. Parece-me que o Edgar é um exemplo de esperança. Mesmo no fundo do poço, ele consegue sobreviver diante de tantos obstáculos. Será o livro dele o motivo de sua existência? Ou existir por causa do livro? Será que a felicidade é um sonho? A realidade é dura e cruel.
    Duas coisas no conto sempre me chamaram a atenção: os olhos e o livro. Os olhos são genéticos? Parecem ser algo sobrenatural. O livro? É interessante saber que ele se "sustenta" de alguma forma pela "sabedoria" do livro. Misterioso e filosófico. O que de certa forma proporciona uma pitada de esperança de como viver a vida, já que o personagem do livro também se encontra numa situação de solidão como o Salazar.
    Deve haver alguma ligação entre o livro e os olhos? Talvez seja essa dualidade: olho (diabólico) vs caráter de Edgar (Deus); ou melhor, individualidade (o "eu" triste, solitário) no coletivo (sociedade). Filosofia de Ying-Yang? O dialetismo da dualidade. A dinâmica do "eu" e o "outro".
    Legal o conto. Gosto de filosofia. Vai em frente Denis!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Algumas temáticas estão sendo suavemente tratadas no desenrolar da estória, tanto sociais quanto filosóficas. Obrigado pela participação meu amigo. Grande abraço!

      Excluir
  5. A cada capítulo novas emoções, muito bom. Agora a crítica. Pena que os capítulos são minúsculos para segurar a grande expectativa. Rsrsrsrs. Estou amando meu querido,beijosss.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nesse modelo de postagem em blog não é muito legal postar capítulos muito grandes minha amiga. Alguns leitores ficam com preguiça de ler quando se deparam com um texto muito extenso. rsrs. Por isso escrevo capítulos curtos. :)
      Obrigado pela visita e participação, minha amiga. Grande abraço!

      Excluir
  6. Sem demagogia, esta é a melhor estória que já li nos últimos tempos. Parabéns e obrigado por compartilhá-la conosco.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado Celso. Fico lisonjeado com tamanho reconhecimento. :)

      Excluir
  7. "Quando aprendemos a viver sozinhos, passamos a ser companheiros de nós mesmos."
    É uma pena uma criança ter que aprender uma realidade tão dura.
    Capítulos muito bem escritos, parabéns.

    ResponderExcluir

© 2014 O Poeta e a Madrugada Traduzido Por: Girotto Brito - Designed By Girotto Brito.