O PAPEL DO POETA CONTEMPORÂNEO É PRODUZIR DESODORANTES?

by 20.4.15 9 comentários


A poesia, gênero lírico que foi por milênios o carro-chefe dos gêneros literários, definida por Paul Valéry como a “[...] arte baseada na linguagem, mas de significados mais amplos”, encontra nos tempos atuais enorme resistência de consumo. Embora a poesia contemporânea tenha mostrado inovações, explorando a Web e os recursos midiáticos não apenas em termos de divulgação, mas também a que se refere à criação, os poetas, de modo geral, reclamam da desvalorização do gênero no mercado editorial.  
A era moderna da literatura é marcada pela grande exploração do livro como produto, não como arte. Os livros são expostos nas estantes das livrarias como desodorantes no supermercado, onde a beleza do frasco, por vezes, se torna mais atrativo que o perfume escondido em seu interior. Nesse cenário, a poesia acabou se tornando o desodorante de odor sublime, mas de embalagem ultrapassada aos padrões atuais, expostos em pequenas quantidades num canto qualquer da prateleira e consumido apenas por um pequeno grupo de pessoas que ousaram conhecer o cheio por trás da embalagem feia ou que também são produtores de desodorantes.
Na contramão das acusações, devemos nos perguntar se o setor editorial carrega a culpa integral dessa desvalorização, se a poesia contemporânea perdeu espaço por estar perdendo ser caráter artístico em prol de uma adequação ao mercado, se os poetas modernos não estão conseguindo se adequar aos novos consumidores, se os novos consumidores não estão preparados para assimilar o que está sendo produzido, etc.
Acredito que todos carregam sua parcela de culpa, editoras, poetas, leitores, empresários e governos. Desde o ensino literário oferecido na pré-escola até os altos investimentos empresariais do setor, todos são culpados. E o poeta, como parte do processo, também é culpado.
“A força de uma vida que se renda definitivamente à Arte a ponto de confundir-se com ela parece ser o caminho buscado por alguns dos poetas brasileiros contemporâneos, que vivem sob a égide do colapso de expectativas.”, escreveu Stella Maria Ferreira, fazendo-nos refletir sobre a condição puramente artística que o poeta dá ao seu trabalho e que talvez seja o maior dos erros da atualidade. O poeta contemporâneo tem que ser mais do que artista, mais do que escritor, mais do que contemplador do mundo: tem que se dedicar à intelectualidade. E digo mais, se o papel do intelectual na história é o de defender os valores universais e desinteressados — verdade, razão e justiça —, o papel do poeta deve ser exatamente o mesmo, mas da forma mais bela que seu espírito conseguir versar. Quem sabe assim, leitores, governos e empresários passem a olhar de maneira diferente para os poetas e seu poder de mudar a sociedade através da opinião, da crítica, do pensamento e, ainda assim, da arte.


Artigo escrito por Girotto Brito em 16 de abril de 2015.

Dênis Girotto de Brito

Escritor

Poeta e contista, autor do livro "Os três lados da moeda: vida e morte em poesia" e colaborador em diversas antologias de contos.

9 comentários:

  1. A era moderna da literatura é marcada pela grande exploração do livro como produto, não como arte.
    Uma grande e triste verdade. Tudo na nossa sociedade atual passa a ser movimentado só como finanças, e pior, em forma de produtos que nos são apresentados a elevar o nível de descrença no mundo. E tudo ainda como uma realidade sem saída.
    Algo sim que preocupa muito.

    Excelente visão desse texto.
    =)

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    1. Ah, gostei imenso do título.
      =)

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    2. Obrigado, Priscila. Agradeço a visita e a participação.

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  2. Girotto, você me despertou um imenso interesse pelo texto através do título. Gostei bastante, como a Priscila.

    Na verdade, posso trazer isso um pouco mais para perto de nós e de nossa realidade, quando comparo a situação por você descrita, com o blog.
    A gente se preocupa demais com o layout, com o template. A gente, na grande maioria das vezes, se recusa a frequentar um blog mais simples, ou aquele rústico, com um caráter um tanto quanto espalhafatoso. Conheço muitos assim. Os blogs que investem em temas personalizados, em suma, são os que mais têm leitura. Isso é triste.

    Mas voltando para a poesia, concordo contigo, em todos os aspectos. Somos todos culpados.

    Parabéns. Beijo

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    1. A estética é importante, mas o conteúdo é ainda mais. Durante esses anos que O Poeta e a Madrugada está na Web já fiz diversas modificações no layout, mais de 10 talvez, mas também me preocupei com a qualidade do conteúdo e estou constantemente buscando aperfeiçoar a escrita e meu conhecimento de mundo, para que isso se reflita nos versos.

      Obrigado mais uma vez pela visita e participação, Carol. Bjão. :)

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  3. Muito bom o texto, Girotto. Dai a razão de eu chamar, quando da criação, meu blog de A Poesia está Morrendo. Me referindo ao mercado editorial, embora tive, e venho tendo, uma grata surpresa a poesia dos blogs, da internet de um modo geral. Show, abraços!

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    1. Realmente, Fábio. Com as barreiras impostas pelo mercado editorial, muitos poetas recorrem à Web. Há, hoje, muitos blogs de poetas que mantém excelente conteúdo, dentre eles o seu.

      Grande abraço!

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  4. Dênis, bastante interessante sua crônica.
    Não acho que a poesia esteja morrendo e sim, os leitores de poesia. Na verdade escrevemos para os poetas, porque a maioria das pessoas que nos rodeiam, parece não se interessar, ou fingem não ver...
    Fugi do tema, Dênis rs?
    Até mais, beijão!!!

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  5. Fico triste em ver que as pessoas não procuram mais a veracidade ou simplesmente a beleza de uma poesia ,antes era tudo tão significativo, era levado a sério e hoje se trata apenas de interesse!!

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