O MENINO DOS OLHOS VERMELHOS - CAPÍTULO 3: O fim de Júlio Salazar

by 23.5.14 9 comentários

Edgar acordou na madrugada e viu-se deitado sobre o gélido cadáver de seu pai. Não havia mais lágrimas, somente uma profunda dor irreparável e o medo da solidão. Júlio Salazar não foi um homem qualquer, ele era um herói, que salvou sua vida e o educou e merecia um fim digno de seus feitos, assim como o grande Dom Félix de Bocarta, cavaleiro lendário e protagonista de muitas das estórias ouvidas por Edgar, que após muitos anos de batalha acabou sendo gravemente ferido e preferiu atear fogo em si próprio a deixar que seu povo o visse apodrecer e ser devorado pelos vermes nos campos de guerra.
Sem pressa, Edgar amontoou vários móveis, roupas e livros ao redor da cama de seu pai. Com exceção do seu livro predileto, O homem que tudo sabia. Organizou tudo, formando uma grande pilha de coisas em cujo centro estava o maior guerreiro que ele já havia conhecido. Espalhou palha seca por toda a estrutura e com uma lamparina acendeu o fim dos dias de Júlio Salazar.
Por alguns minutos o garoto ficou no quarto assistindo as chamas devorarem os tão preciosos livros, as roupas e tudo aquilo que Júlio levou anos para conquistar. As estórias não seriam mais contadas, as cabras não seriam mais cuidadas, as plantações morreriam e morreriam também as hortaliças e as frutíferas, mas Júlio Salazar nunca estaria morto. Não para Edgar. E lembrando-se da velha estória de Dom Félix de Bocarta, o menino dos olhos vermelhos cantou para seu pai a mesma canção cantada ao cavaleiro pelo seu melhor amigo e companheiro de muitas batalhas.

Vá em paz, guerreiro de Bocarta
Sua espada muito nos orgulha
Sua história será sempre cantada
Às crianças que nos esperam
Vá em paz, herói de nossa terra
Seu escudo será para sempre guardado
Que seu sangue, derramado nesta guerra
Para sempre seja louvado.

— Descanse em paz, meu pai — disse Edgar já sendo expulso do quarto pelo forte calor das chamas.

♠ ♠ ♠

Mesmo na madrugada, as enormes labaredas de fogo que consumiam a casa por completo chamaram a atenção de alguns vizinhos que, em minutos, chegaram à propriedade dos Salazar para verificarem o que estava acontecendo. Os quatro primeiros que chegaram foram Martinez e sua esposa Adelice, Ernest, que é o filho mais velho da família Winterst e o caseiro dos Brandebuks, chamado Vicent Pugas.
Ao chegarem ao portão, a cena era de um garoto postado de pé no gramado, olhando para a casa em chamas. As quatro pessoas que estavam ali sabiam que Júlio Salazar tinha um filho, mas deles, só o velho Martinez já havia visto o garoto, e de longe. Por alguns segundos ficaram parados observando o menino ajoelhar-se em silêncio, mas logo todos correram para socorrê-lo.
Edgar pensava em como seria sua vida a partir daquele momento. Ainda era uma criança e mesmo assistindo a morte de seu pai ainda era difícil para ele acreditar que estava completamente só. As últimas palavras de seu pai ainda ecoavam em sua cabeça e o faziam temer o futuro que lhe esperava. Se ao menos eu tivesse uma mãe — pensou. Mas não tinha ninguém. Nem mãe, nem tia, nem sequer um amigo que pudesse estar com ele naquele momento de dor.


As vigas de madeira começavam a cair e aos poucos a casa ia desabando quando de repente Edgar sente um homem agarrar-lhe.

— O que aconteceu, garoto? Você está bem? E seu pai? — disse Vicent Pugas, que foi o primeiro a chegar ao menino.

Edgar fechou os olhos e manteve a cabeça baixa. Tinha medo que se assustassem e o deixassem novamente sozinho.

— Responda menino. Cadê seu pai? O que aconteceu? — insistiu o caseiro.

Clemente Martinez e sua esposa gritavam pelo nome de Júlio Salazar, mas não obtinham resposta e enquanto isso Ernest Winterst acompanhava tudo calado. Então todos se juntaram ao redor de Edgar e começaram pressionar-lhe para que falasse alguma coisa. Ele estava com medo e nem sequer tinha coragem de abrir os olhos para enxergar quem tentava o ajudar.

— Fique calmo, garoto. Não estamos aqui para lhe fazer mal. Só queremos saber onde está seu pai para que possamos o ajudar. Confie em nós — falou Martinez.
O menino reconheceu a voz do homem que ajudara seu pai com as cabras e bodes. Sempre que Martinez ia conversar com Júlio, Edgar se escondia para ouvir. É o criador de cabras, eu gosto dele — pensou.

— A peste matou meu pai e agora ele queima naquela casa, senhor.

Todos ficaram chocados com a notícia da morte de Júlio Salazar e ao mesmo tempo aliviados porque o garoto havia falado e tudo parecia estar bem com ele.

— Lamentamos muito. Seu pai, como todos os Salazar que já conheci, era um grande homem. Forte e trabalhador. — disse Martinez repousando as mãos sobre os ombros de Edgar — Agora venha conosco. Eu e minha esposa te levaremos para nossa casa até que saibamos como resolver essa situação.

Edgar sabia que não tinha para onde ir e o Sr. Martinez era um homem confiável, como ele mesmo já havia enxergado. No entanto, tinha medo que quando abrisse os olhos a reação daquele homem não fosse a mesma. Ainda assim, concordou fazendo um gesto com a cabeça e Martinez o pegou no colo e se dirigiu à sua casa com sua mulher ao lado, esgueirando-se entre outras pessoas que já chegavam por ali.
Hernest e Vicent chegaram a comentar um no ouvido do outro o fato do garoto não ter aberto os olhos em nenhum momento, mas concluíram que ele devia estar evitando olhar para a casa onde o corpo de seu pai queimava ou que era uma reação traumática natural para uma criança naquela situação.
Embalado pelo cansaço, o sofrimento e o balanço das passadas do velho Martinez, Edgar foi lentamente adormecendo no aconchego daquele colo. Em seu pensamento, a voz de seu pai foi gradualmente sumindo, ao passo que ainda pôde distinguir a última frase: “Sempre acreditei em você e sempre acreditarei”.


Dênis Girotto de Brito

Escritor

Poeta e contista, autor do livro "Os três lados da moeda: vida e morte em poesia" e colaborador em diversas antologias de contos.

9 comentários:

  1. Excelente Denis,
    Parabéns querido, Desejo-lhe muito sucesso!!!
    Seus escritos são valiosos.. :-)

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  2. Incrível! Gostei bastante, meio tenso na parte da casa pegando fogo o.O
    Muito boa :)

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  3. Acabei de ler...chorei...Gente que veia pro trágico né?Maravilhosamente perfeito, com as riquezas de detalhes que adoro!!!

    Parabéns!!!

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  4. Cara, massa demais essa história. Aguardando o próximo capítulo.
    :)

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  5. Obrigado a todos pelos elogios e por interagirem com esse espaço.
    Em breve postarei a próxima parte.

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  6. Puxa como torço por este menino. Não acredito que ele seja demônio, creio mais é que seja anjo. Me dá vontade criar a sequência das falas do menino. (hoje eu lí 2 cap)
    Parabéns Dênis pela estória linda.

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    1. Rsrs, realmente Celso. As pessoas muitas vezes julgam e condenam pela aparência, e Edgar Salazar é um exemplo disso. Fico feliz que esteja gostando da estória. Obrigado pela participação.

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  7. Haja coragem para fazer o que esse guri fez. Tomara que ele não fique só...

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